Segunda-feira, 12 de Abril de 2004

QUINTINO COBRA AS QUOTAS

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O Quintino já tinha o cabelo branco antes de chegar a Revolução. Não era tão velho quanto parecia. O cabelo é que tinha embranquecido precocemente. Era hereditário, segundo ele, explicando que o mesmo tinha acontecido ao seu pai e seu avô. Além de branca, a cabeleira também era escassa. Todas as manhãs, num ritual que ia repetindo ao longo do dia, Quintino dedicava uns minutos vagarosos a acamar, pacientemente, os poucos cabelos brancos de um lado para o outro do crânio, de forma a melhorar o seu visual capilar.

Também não descurava outras vertentes quanto ao seu aspecto. Modesto escriturário, sonhando com uma carreira que lhe melhorasse o futuro, ele sabia que, para atingir os seus fins, a apresentação exterior era importante. Nunca chegaria a chefe de secção ou de departamento se causasse má impressão à observação atenta dos seus superiores. Assim, Quintino andava, por regra, vestido com fatos claros e usava, sempre, um lenço de seda (oferta de Natal) a compor-lhe o pescoço. Achava que aquele adereço era preferível à banal gravata como sinal de aptidão para ser chefia.

A empresa onde trabalhava estava fortemente conotada com o antigo regime e os seus usos e costumes. Quintino não queria destoar e para o tornar evidente aos olhos dos chefes, tinha sempre pendurado, e bem à vista, um enorme terço pendurado no vaso pintado (oferta de Natal) onde guardava as esferográficas e que se destacava na arrumação impecável da sua secretária.

Quando a Revolução chegou, Quintino percebeu num ápice para onde sopravam os ventos e que a empresa, tão conotada que estava com o anterior regime, só podia dar uma volta de cento e oitenta graus.

Ainda o Salgueiro Maia andava nos seus trabalhos frente ao quartel do Carmo, já o terço tinha desaparecido da secretária do Quintino e o aristocrático lenço de seda saído do pescoço. A ganga substituiu o fato claro e as camisas passaram a ser de flanela aos quadrados e desapertadas no colarinho (só num Natal, a mulher ofereceu-lhe três). No lugar antes ocupado pelo terço, passou a habitar um cravo vermelho feito em papel.

Não tardou que o Quintino pedisse conselhos sobre como se poderia inscrever no PCP. Conseguida uma proposta, a sua admissão como militante foi congelada pela forte resistência que provocou dado o seu comportamento anterior.

Quintino aguentou com paciência, muita paciência, as resistências que foi encontrando pela frente no caminho para se tornar comunista. Falava sempre nos Plenários, exaltando os novos ventos da democracia, do controlo operário e das nacionalizações. Ia, de t-shirt vermelha, às comemorações litúrgicas no Couço e em Baleizão. Dessas peregrinações, trazia fotografias que mostrava aos seus colegas de trabalho, confiando que o Partido se dispusesse a acolhê-lo no seu seio.

Embora com opiniões muito divididas, Quintino conseguiu entrar no Partido. Tornou-se um militante cumpridor, concordando sempre com a linha do Partido. O seu apoio exprimia-se com redobrado vigor quando a reunião tinha a assistência e o conselho político de um camarada do Comité Central.

Quintino chegou a chefe de secção e depois a chefe de departamento. No Célula, era o responsável pelos fundos e demonstrava zelo extremo na cobrança das quotas.

Quando os computadores invadiram a empresa e revolucionaram o trabalho administrativo, Quintino achou que uma revolução lhe tinha bastado. Pré-reformou-se e foi fazer trabalho político na sua área de residência. Ali, é ele o responsável por cobrar as quotas entre os militantes reformados, desempregados e domésticos.

Quintino voltou a usar um lenço de seda ao pescoço (prenda do último Natal). Ainda não perdeu a esperança de vir a ser Presidente da Junta de Freguesia. Não falhou na mobilização feita pelo Partido para se encher o Auditório Municipal na sessão de lançamento do último livro de Saramago.
publicado por João Tunes às 00:37
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NO TEMPO DAS SESSÕES DE ESCLARECIMENTO

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Não sei porquê fui parar à Comissão Eleitoral de Lisboa da então FEPU encarregada de preparar a campanha eleitoral para as primeiras eleições livres em Abril de 1975.

A improvisação era muita, embora a casa, como sempre, não descurasse a organização minuciosa. E a fé num bom resultado fazia o resto da felicidade na realização da tarefa. Havia um placard de parede onde eram assinaladas as sessões de esclarecimento em todo o distrito, recebiam-se os pedidos de “esclarecedores” por telefone, umas fichas tinham os destacados para o efeito (sobretudo intelectuais e artistas) e que tinham os seus contactos, completando-se as mesas com uns “políticos” indicados de cima. Nessa campanha, em que as expectativas eram altas, não havia lugarejo onde os partidos não fossem esclarecer o “conveniente sentido de voto”. Um autêntico frenesim esclarecedor. Até porque o povo, que nunca tinha votado em liberdade, encarou aquelas eleições com se fosse uma solenidade festiva. Escritores, artistas, homens e mulheres que tivessem nome conhecido, esses estavam sempre convocados e andavam de um lado para o outro. Se à última hora, o destacado falhava, havia que tapar a falta de qualquer maneira e, assim, vi-me a correr para esta ou aquela colectividade, salão de bombeiros ou garagem transformada em salão, a suprir falhas e a puxar por argumentos do arco da velha para que o povo votasse na esquerda consequente e não se deixasse enganar pela reacção (onde se incluía o PS, claro está).

Foi uma autêntica trabalheira folclórica que pouca memória de substância deixou porque a margem de esclarecimento era pouca ou nenhuma. A maioria das pessoas já tinham escolhido o que havia a escolher e as sessões eram mais de confirmação festiva que outra coisa. De relevante, recordo as negas sarcásticas do Eduardo Prado Coelho que constava das fichas mas já se estava maribando para as hostes, a Zita Seabra a impor todos os esses e erres na leitura da sua biografia política, um escritor muito conhecido que aparecia sempre com uma grande bebedeira e ficava sentadinho na mesa e dispensado de intervir, um actor de revista que tinha direito a uma salva de palmas sempre que se levantava, um crítico de televisão que fazia sempre o número de levantar um exemplar clandestino do Avante para pôr a sala ao rubro e o cagaço de uma sessão numa garagem na Lourinhã em que fomos corridos à pedrada.
publicado por João Tunes às 00:02
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Domingo, 11 de Abril de 2004

A ULTRAPASSAGEM DO MESTRE SÁDICO

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Tenho experiência feita de como temos de domar o bárbaro que transportamos em cada um de nós.

Serviu-me de vacina uma experiência na minha Terceira Classe. Lembro-me do professor. Era um ser frio e duro. Não me lembro que tivesse olhos porque eles estavam escondidos atrás de umas lentes muito grossas. Mas sentia-se o seu olhar gelado de severidade a sair por baixo do Crucifixo ladeado pelas caras sombrias de Salazar e Carmona.

Naquele tempo, usava-se palmatória para castigar maus comportamentos ou falhas de aprendizagem. O professor lembrou-se de refinar o seu sadismo. Organizava uma espécie de sabatinas em que um miúdo fazia uma pergunta a outro. Se este não soubesse a resposta certa, o perguntador tinha direito a dar uma reguada na mão do ignorante. Ou seja, ele queria envolver-nos e integrar-nos no mundo de lobos em que a mente do desgraçado vivia.

Um dia, calhou-me fazer a pergunta crucial. Rebusquei a pergunta mais complicada que consegui construir. O desgraçado do colega não fazia a mínima ideia quanto à resposta. O professor proferiu o veredicto: dá-lhe uma reguada. Aquela desproporção de poder, apoderou-se de mim e senti a luxúria do domínio sobre outro, fazendo-lhe mal. Atirei-lhe uma reguada com toda a força que tinha. O meu colega contorceu-se de dor e ficou com a mão inchada durante uma semana. Eu tinha ultrapassado o Mestre. Senti um profundo mal estar e assustei-me com a minha bestialidade. Eu tinha mudado de campo. Mas nunca mais ninguém conseguiu meter-me qualquer espécie de régua nas mãos para bater num outro.

O episódio ficou-me gravado para sempre. Ainda hoje considero que foi útil ter sentido aquela luxúria sádica tão miúdo para me sentir tão mal, tão mal, que me curou (julgo) para sempre.
publicado por João Tunes às 23:11
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Sábado, 10 de Abril de 2004

O LIVRO DISFARÇADO

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As gerações que entraram na sua juventude depois de 1974, não imaginam, nem podem imaginar, o que representava viver-se sob controlo policial a vigiar toda a rede de sociabilidade. E já não falo do controlo das opiniões políticas organizadas porque essas, naturalmente, tentavam escapar aos ouvidos da secreta. Refiro-me à opinião solta, ao desabafo, ao comentário, ao protesto espontâneo, ao gosto por isto ou aquilo e à aversão por aqueloutro.

O medo da polícia levava à interiorização de um mecanismo de defesa das emoções, da capacidade crítica e do impulso da opinião. Os portugueses aprenderam e refinaram a arte do cochicho, do subentendido e de se exprimirem através de meias palavras bem medidas. Perderam o prazer da alegria espontânea e substituíram-na pela sublimação da revolta e do desacordo. Temente dos ouvidos perigosos, o nosso povo adquiriu uma espécie de misogenia social. Que se exercia sobre os incontinentes compulsivos da revolta pois aquele que manifestava abertamente esta ou aquela opinião era imediatamente suspeito de ser provocador ou bufo. Ainda hoje se notam traços da herança desta forma consolidada de contenção verbal e opinativa.

Como se estruturou este medo colectivo? Primeiro que tudo, através de um aparelho policial que se foi refinando ao longo dos anos e que atingiu o número de mil e quinhentos agentes efectivos da Pide. Este núcleo profissional era completado por uma enorme rede de bufos (os chamados informadores) que constituíam a essência da rede de controlo da população. Um em cada quatrocentos portugueses recebeu pagamento por informações prestadas à Pide. Outra técnica conseguida pela polícia era a sua infiltração nos diversos organismos e movimentos oposicionistas e nela residiu a principal fonte de eficácia do combate do regime às movimentações antifascistas ou anticolonialistas. Assim, mesmo no seio das organizações mais consequentes e mais defendidas, sabia-se que a confiança não podia ser total porque em todos os segmentos de actividade política, sindical, cultural ou social, havia ouvidos da secreta.

Assim, numa qualquer actividade não conforme aos desejos dos poderes vigentes, a primeira regra eram os cuidados conspirativos. Necessários mas que, por vezes, levavam a alguns desvios patológicos.

Lembro-me do Aníbal, colega dos meus tempos de estudante e companheiro das andanças de tentar trocar as voltas ao regime. Era gago e o mais exageradamente cuidadoso de todos nós. Vivia em pânico permanente com o controlo policial. Via pides por toda a parte e ao virar de cada esquina. Tinha um permanente olhar fugidio e desconfiado com tudo e com todos. Nas sessões, ficava sempre na última fila e fixava mais a porta que o orador. Nas reuniões, percorria os rostos e as palavras dos intervenientes à procura de uma frase que atraiçoasse o infiltrado. Nas concentrações ou assembleias, cirandava a filtrar rosto a rosto. Raramente emitia opinião clara porque metade das palavras eram contidas pelo receio e a outra metade era comida pela sua gaguez. Aparecia em todas as iniciativas mas era sempre tratado com enfado porque a sua própria figura só trazia falha de ânimo.

A maioria da malta evitava o convívio com o Aníbal. Incluindo as raparigas e tanto que ninguém lhe conhecia namorada. Eu era uma excepção porque me condoía do ostracismo do Aníbal e porque achava que quem mais sofria com a sua paranóia era ele próprio.

Uma vez, entro no café habitual onde parava na Rua Buenos Aires e vejo o Aníbal numa mesa do canto a ler um livro. Sento-me à mesa dele e peço um café. O Aníbal balbuciou uma saudação e retomou a leitura. Olho-lhe para o livro e reparo que estava forrado com papel de jornal. Pergunto o que estava a ler. É um livro do Lenine, respondeu-me em voz sumida. A pergunta inevitável saltou-me: mas porque é que embrulhaste o livro em papel de jornal?. O Aníbal pousou o livro e esclareceu-me em voz ainda mais sumida: é para disfarçar. Outros companheiros foram chegando e não houve um sequer que falhasse a querer saber qual o livro embrulhado num jornal que o Aníbal estava a ler. O disfarce era um foco irresistível de todas as curiosidades.

Andei por outros sítios e perdi o rasto ao Aníbal. Vim a saber, mais tarde, que ele tinha sido completamente marginalizado por causa do rumor que ele era um pide. Provavelmente, a suspeita não tinha fundamento. O Aníbal apenas deve ter sido vítima da sua paranóia do medo dos pides. Tanto receio tinha do fantasma que acabou por ser confundido com ele.
publicado por João Tunes às 00:59
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Sexta-feira, 9 de Abril de 2004

LIDERANÇA FRUSTADA

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A noite já tinha caído sobre Lisboa. As três carrinhas azuis e cinzentas da PSP, carregadas de estudantes, idades compreendidas entre os dezassete e os vinte e quatro anos, saem do pátio do Governo Civil. A triagem dos “premiados” tinha sido feita por agentes da Pide entre aqueles que tinham sido trazidos da Cidade Universitária depois dos incidentes com o Reitor Paulo Cunha nas comemorações do Dia da Universidade. Para onde vão levar-nos a esta hora?, era a pergunta passada em surdina. Para a Rua António Maria Cardoso, ali perto, era a resposta mais convincente. Isto vai aquecer, era a frase engolida e que secava a boca.

As carrinhas sobem o Chiado. As caras colam-se aos vidros e só se descortinam noctívagos indiferentes. Vão virar à esquerda? Não, seguem para o Largo do Camões e descem a Rua do Alecrim. Que raio de destino está traçado? As carrinhas aceleram a marcha e tomam a Marginal na direcção de Cascais. Um, com o tom da convicção de um experimentado nas lides, profere a sentença: vamos para Caxias. Tinha razão.

As carrinhas param já dentro do pátio da Prisão. Numa noite de breu, só se distinguem paredes brancas e um enorme e grosso portão, que os cerca de trinta estudantes atravessam. Rápido, rápido, ouve-se como voz de comando. Cada um e cada uma são encafuados dentro de cubículos individuais, com o mobiliário reduzido a um banco, uma rede em frente e um espaço simétrico do outro lado onde estava sentado um indivíduo de aspecto soturno agarrado a uma máquina de escrever. Ah bom, os interrogatórios iam ser no parlatório utilizado para os contactos dos presos com os familiares. Mas como é que eles vão dar porrada com a rede a meio?, pensa-se. O pide ensonado e de má catadura não deixa espaço para grandes raciocínios. Nome, morada, etc e tal, está preso por atentar contra a segurança do estado. Só? Só. Os estudantes são mandados sair dos cubículos, separados os rapazes das raparigas, agrupados, cada molho é metido dentro de uma cela colectiva.

Passa-se revista aos beliches e à casa de banho, olha-se para as grossas grades. E agora? Saldanha Sanches assume-se como chefe de cela. Eu já tenho experiência, estou farto de cá vir parar. Com certeza, chefe. Vai tudo dormir, amanhã a malta organiza-se. Com certeza, chefe. Os beliches vão sendo ocupados que o dia tinha sido recheado de emoções e uma cama vinha mesmo a calhar.

Na manhã seguinte, o pequeno almoço vem cedo trazido por guardas barrigudos, concorrendo, entre eles, nos olhares de gozo para a rapaziada. Café, pão escuro e um bocado de manteiga. Cela reencerrada, o Saldanha Sanches aproveita para dirigir o grupo. Pois, vamos fazer uma lista de reivindicações, queremos os jornais diários, livros de estudo, literatura, contactos com advogados, visitas imediatas das famílias. Tudo de acordo. Pois claro. Um relator escolhido pelo chefe, começa a elaborar a lista. Ainda a lista ia a meio, abre-se a porta da cela. O carcereiro entra a rir que nem um perdido, depois para de rir, faz cara de poucos amigos e berra vá lá meninos, chegou a hora de irem ao baeta, tu avança para a máquina zero, agarrando o braço do primeiro apanhado à mão. O resto da manhã foi ocupado em ida de um e volta de outro, cada regresso representava mais um “cabeça rapada” para o grupo. Usavam mesmo a máquina zero. Nem um pelinho para amostra.

Vem o almoço de esparguete com carne guisada, estava o grupo tosquiado por metade. Vamos lá a ver se agora temos condições para nos organizarmos como deve ser, diz o Saldanha Sanches, reconhecível pela voz de comando mas irreconhecível de rosto devido à carecada que levara. Mas, num Chefe, a voz de comando é o mais importante. O relator apresta-se para acompanhar a ingestão do esparguete com o conteúdo correcto da lista reivindicativa.

Primeira garfada engolida, nova restolhada, com os guardas outras vez de rompante aos berros tudo para fora. Penso eu: assim, com este movimento, não há condições para a malta se organizar. E o mesmo devem ter pensado os outros. Sobretudo o Saldanha Sanches, a quem estavam sempre a dar cabo da liderança. Mas as ordens dos carcereiros barrigudos falavam mais alto. Corredores fora, é tudo enfiado dentro de carrinhas (agora pretas e da Pide). Metade sem cabelo e a outra metade ainda com os adornos capilares intactos. O Saldanha Sanches decifra o enigma: vão torturar a malta, levam-nos para a António Maria Cardoso.

As carrinhas negras da Pide tomam o caminho da Marginal, sobem a Rua do Alecrim e estacionam dentro da garagem da sede da Pide. O Saldanha sabe disto, agora é aguentar o molho, pensei eu e o mesmo devem ter pensado os outros. Os carecas e os não carecas, os rapazes e as raparigas. Tudo em linha na garagem, vem o Inspector Capela passar revista à mocidade desviada. Olha um a um, ri-se na cara de cada um dos carecas, faz má cara a cada um dos que conservavam o cabelo. E dispara: Tudo no olho da rua, mas fico à vossa espera porque não devo tardar a ver-vos aqui a todos. Rua!. A porta da garagem abre-se e saímos às golfadas, com a luz do Chiado a bater-nos na cara. Apresso o passo, apeteceu-me beber um café na Brasileira mas achei que quanto mais longe dali melhor. Chego a casa afogueado. Não me esperavam tão cedo. Uma alegria. Tive direito a rancho melhorado.

Carecas e não carecas, rapazes e raparigas, quantas vezes nos voltámos a ver em Assembleias e em correrias a fugir da polícia de choque. Mas, todos, ainda hoje, temos um défice para com o Saldanha Sanches. Acho eu. É que o camarada nunca teve condições para ser o nosso líder como deve ser. Excepto aqueles que lhe fizeram companhia na caminhada, mais tarde, para o MRPP. Por causa dessa dívida, é que, quando ele aparece na Televisão a falar sobre fiscalidade e fraudes fiscais, oiço-o com toda a atenção e respeito. É a minha forma de lhe prestar tributo antigo e sem prazo.

(Post dedicado ao Prof. Doutor José Luis Saldanha Sanches; Professor da Faculdade de Direito de Lisboa; Director do curso de Pós-Graduação em Fiscalidade On-line; Autor, entre outras obras, de "O Ónus da Prova no Processo Fiscal"; "Princípios do Contencioso Tributário"; "Princípios Estruturantes da Reforma Fiscal"; "A Quantificação da Obrigação Tributária" e “Manual de Direito Fiscal”.)
publicado por João Tunes às 00:05
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Quinta-feira, 8 de Abril de 2004

JULINHO, O JARDINEIRO

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Júlio, conhecido por todos como Julinho, é jardineiro no Bairro, cuidando dos ralos espaços verdes da maior parte dos condomínios. Não porque Julinho seja um grande artista da jardinagem. Julinho é jardineiro sobretudo pela comiseração pública para com a sua pouca sorte. Um dos poucos exemplos em que a comunidade resolve proteger os mais infelizes, ajudando-os a sobreviver.

Julinho, em termos de crescimento, nunca passou do metro e quarenta mal medido. Ficou-se por ali e, como um mal nunca vem só, cedo lhe veio uma doença de má visão. Assim, o Julinho, além de minúsculo, não enxerga além de três palmos à frente do nariz. O que não impede o Julinho de ser zeloso nas suas fainas e cumpridor dos seus compromissos. A falta de vista é que não dá para grandes perfeições nem grandes apuros estéticos. Mas lá vai arranjando jardins de condomínios que lhe dão para a bucha, tanto mais que recebe abaixo da tabela.

Só uma vez, o Julinho foi despedido. Injustamente, diga-se. O dono do restaurante A Pérola do Índico (antigo colono em Moçambique como se depreende), resolveu plantar salsa e coentros no pequeno jardim plantado em frente como recheio ecológico do passeio e local preferido pelos caninos desejosos de se verem livres de apertos nas entranhas. O Julinho meteu a maquineta de aparar relva a eito e não viu as verduras aromáticas pelo que também estas foram cortadas rente à raiz. O antigo colono tinha coração de pedra e não suportou (por causa dos custos) ter de aumentar a conta no lugar de hortaliças, coisa que ele não tinha previsto no orçamento.

Os honorários da jardinagem mal dão para sobreviver e ainda menos para extravagâncias. A troco de um (mais outro e outro) copito de vinho, o Julinho conta as suas histórias sempre repetidas mas que ajudam a matar o tédio de comparsas dispostos a suportar pequenas despesas em troco de uma gargalhada garantida e quando se esgota a conversa sobre bola. Assim, pode-se dizer, com toda a propriedade, que o Julinho, além de jardineiro, também é um animador cultural cá do Bairro.

Sempre que o primeiro copo lhe é posto à frente do nariz, Julinho começa a desfiar as suas estórias. Fala então da sua Amareleja natal e das lutas dos trabalhadores de jorna contra o fascismo e os latifundiários. Diz que o pai e o tio estiveram presos pela Pide e que foi assim que ele adquiriu o seu espírito rebelde. Ele nunca foi comunista de cartão mas também fez greve pelas oito horas diárias de trabalho, espalhava Avantes durante a noite e esteve várias vezes detido no posto da GNR. Poucas horas de cada vez. É que o Chefe do Posto, apesar de ser um duro, acabava por ter pena da pequenez e da falta de vista do Julinho e não o imaginava como grande perigo para a ordem pública.

Mas o que a malta gosta mesmo de ouvir é o Julinho contar as suas histórias do tempo de tropa e que ele guarda para o fim para fazer render o peixe.

Julinho, por causa da escassez que havia de mancebos em boas condições físicas, foi incorporado como apto para o serviço militar e mobilizado para Moçambique. Para servir a pátria, como ajudante de cozinheiro num quartel na zona de Tete. Logo Tete e quando os guerrilheiros aqueciam a zona à fogachada para tentarem impedir a construção de Cabora Bassa. Diziam os comandos militares que, para descascar batatas, o Julinho servia perfeitamente. E mesmo que elas fossem mais ou menos para dentro do tacho, a tropa era tolerante com carências das NT na ânsia de dar cabo do IN. Um dia, os frelimos lembraram-se de atacar forte e feito o quartel onde estava o Julinho, deu uma de cagaço e pânico nas NT, deram todos à sola e deixaram o pequeno ajudante de cozinheiro abandonado entre os tachos e as panelas. O Julinho não esteve com meias medidas, quando ouviu as rajadas de Kalash já demasiado perto, atirou-se para dentro da panela maior de confecção do rancho e ainda teve artes de puxar para o seu posto a tampa da panela. Diz Julinho que os frelimos andaram a farejar na cozinha mas não se lembraram de destapar a panela abrigo. Permaneceu horas no seu refúgio, tanto mais que, tendo conseguido lá entrar, faltava-lhe arte para de lá sair. Nem sequer assomar, pois a tampa era pesada para burro. De regresso, depois de terem escorraçado os frelimos invasores, as NT contaram as baixas e acabaram por dar por falta do Julinho que esteve próximo de entrar na contabilidade dos desaparecidos em combate. Quase. A fome apertou, o rancho impôs-se, a panela grande foi destapada e o Julinho extraído lá de dentro.

Não se pense que, tanto devendo à sorte, ao acaso e à piedade dos vizinhos, o Julinho é um conformista. Mantém um porte altivo próprio de velho lutador contra a exploração latifundiária e de antigo combatente. E termina sempre as suas estórias com indignações hiper exclamativas contra as injustiças do mundo. E não perdoa aquela que lhe parece ser a maior das injustiças que lhe fizeram. É que o Julinho, terminado o serviço militar, meteu os papéis para se alistar na GNR. Opção devida talvez às lembranças da boa vida que eles levavam na sua Amareleja natal e pensar que tem uma dívida de gratidão para com a corporação que teve, nos seus quadros, um cabo generoso que o soltava em vez de o entregar à Pide. Certo é que a GNR o recusou para os seus quadros, por falta de altura e de visão. E quando chega a este ponto das suas narrativas, é que o Julinho levanta a voz: então eu servi como ajudante de cozinheiro em Tete e não sirvo para ser mais um pançudo da Guarda? E se algum parceiro lhe comenta: oh Julinho, como é que tu te ias dar ao respeito e passares as multas?, ele tem a resposta pronta: ora, ora, fazia vista grossa como os que lá estão.

Por falar no Julinho. Lá vai ele, rente ao passeio para se orientar melhor face aos obstáculos, mangueira enrolada a tiracolo e os restantes apetrechos de jardinagem bem seguros nas mãos. Aprumado, fazendo juz à sua condição de antigo militar. Dentro de fatos maiores do que ele e cedidos por vizinhos amigos. Vai para as suas lides.

A GNR não sabe o que perdeu. Quem sabe se o Julinho não lhes vai fazer falta lá no Iraque. As batatas podiam não ficar descascadas na perfeição, mas tinham as estórias do Julinho para levantar o moral das NT mobilizadas para as terras da Mesopotâmia.
publicado por João Tunes às 15:45
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UMA ENTREVISTA

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Um indivíduo faz muitas figuras ridículas na vida. Todas as entrevistas que dei à comunicação social foram desastres completos. A diferença, entre elas, é que umas foram mais desastradas que outras. Um tipo não é profissional do ofício. Preparamos as coisas para passar a mensagem tal ou tal. Vêm os vivaços da poda. Trocam-nos as voltas. Aquilo que queríamos dizer não tem cabimento nem oportunidade. Levam-nos por caminhos que nos engasgam. Nunca sai o que achamos importante porque o jornalista tem outro critério de importância. Sai sempre um caldo de água choca comparado com as nossas preparações e expectativas. Cada um faz o seu papel e põe à prova os seus talentos. Entrevistador e entrevistado. E uma entrevista é sempre um jogo de gato com rato.

A minha experiência mais falhada de dar uma entrevista aconteceu em Moscovo nos anos oitenta. Numa altura em que a coisa já andava tremida, o Brejnev já tinha batido a bota e os velhotes do Politburo não viram outra solução que chamarem o boss da KGB (Andropov de seu nome) para tentar aguentar o barco.

Fui lá mandado para participar num congresso que tratava de um tema crucial e decisivo para os destinos do mundo e que era “A Energia e a Luta Pela Paz”. Vejam só. Ali estive de auscultadores nas orelhas a gramar traduções de discursos de tipos de todos os cantos da terra, cada um a debitar formas várias de relacionar consonâncias num tema arranjado a martelo. Tudo na solenidade da célebre Sala das Colunas, bem perto da Praça Vermelha. Enfim, quem não faz o máximo que pode para que haja paz?

Às tantas, um jovem russo, simpatiquíssimo e falando fluentemente o português, aborda-me para eu dar uma entrevista para a Rádio Moscovo. Uma honra, pois então. O nome da emissora tinha ressonâncias heróicas dos tempos em que nós nos agarrávamos à telefonia, na noite salazarenta, para darmos de comer à esperança e à fé. Com certeza, é um prazer. O jovem esclarece que pagavam cachet pela entrevista. Indignei-me. Nem pensar, ora essa, bastava a sensação de, em vez de ouvir a Rádio Moscovo, ser agora a minha vez de falar ao mundo através da Rádio Moscovo. Tudo preparado. E era fácil, pois a entrevista seria toda em português. O entrevistador saca da sua pergunta: o que é que eu achava das propostas apresentadas pelo Andropov aos americanos, na véspera e numa outra conferência a ter lugar perto dos lagos suíços, para que se verificasse o desarmamento multilateral quanto aos mísseis intercontinentais. O que parecia fácil, tornou-se num bico de obra. Não fazia a mínima ideia nem que estava a haver o tal encontro soviético-americano e, menos ainda, quais eram as propostas do sábio e sabido Andropov. Pedi ao jovem russo simpático para parar a gravação e me trocar por miúdos o conteúdo das tais propostas de que me solicitava parecer. Ele riu-se e confessou que também ele não fazia a mínima ideia, havia uma cópia lá na redacção mas ainda não tivera tempo nem paciência para ler. E acrescentou: diga qualquer coisa de simpático, isso chega. Não ia comprometer a missão do jovem e muito menos perder a oportunidade de falar pela Rádio Moscovo. Gravador ligado, o jovem repetiu a pergunta e saiu-me a única resposta que consegui dar: Se é para haver Paz, acho muito bem. Nem mais nem menos. Tarefa concluída.

Como não tinha aceite cachet para proferir aquelas palavras solenes e profundas, quiçá capazes de influenciarem o desfecho de uma certa Conferência em Genebra, o jovem russo convidou-me para bebermos um copo de vodka fresquinha que pagava ele, ou melhor, pagavam as ajudas de custo disponibilizadas pelo proletariado soviético para o trabalho de informação e construção da paz mundial. Não ia ofendê-lo. Que bem que soube. Melhor, que bem que afogou uma formiguinha a mexer cá por dentro e com um travo de ridículo. Garanto que brindámos pela paz.
publicado por João Tunes às 15:15
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VIAGEM DE COMBÓIO

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Anos oitenta, era Andropov. Em Moscovo, proporcionaram-me uma visita a Kiev. E, indo-se de Moscovo, a sensação é de cair noutro sítio da terra. Avenidas largas, clássicas e arborizadas, um rio majestoso, muito para ver e para visitar. Viajei de comboio (uma noite inteira) e o mais desagradável para se chegar a Kiev foram os comboios desoladores, a antipatia dos funcionários ferroviários, os aspectos tristes e decadentes dos campos e estações. Para esquecer. Valeu a verdura fresca e exaltante da capital da Ucrânia à chegada. Fomos integrados num grupo numeroso e plurinacional que metia mexicanos, columbianos, salvadorenhos, afegãos, franceses e escoceses. Bom convívio até vir o sono. Como os afegãos falavam inglês, foi possível comunicarmos sem as atrapalhações de intérpretes estranhos. Entre nós, a coisa resolvia-se com misturas de frases em espanhol, francês e inglês.

Na viagem de regresso, durante uma outra noite inteira, enquanto os outros excursionistas sindicalistas do grupo seguiram para outras bandas, eu e o meu companheiro português fomos entregues, na estação de embarque, a um guia com aspecto de reformado e que tinha a missão de nos acompanhar na viagem de regresso e entregar-nos a outro guia na estação de Moscovo. O sujeito só falava russo e nenhum de nós entendia mais que uma ou outra palavrita. O bom do ucraniano (ou russo), carregava sacos de maçãs, que deduzi serem para compensar carências em frutas de familiares e amigos residentes em Moscovo. Levava, além dos sacos de maçãs, aquilo que seria o farnel para combatermos, os três, a fome da noite. Sentámo-nos na carruagem-cama onde fomos abancados, mesa aberta entre duas camas. Eu e o meu companheiro português iríamos dormir ali e o guia (ou lá o que era) dormiria no compartimento vizinho. Para ali estivemos os três sentados, o russo (ou ucraniano) ria-se, levantava o punho fechado, nós ríamos e levantávamos os punhos. Até que nos cansámos todos de rir e de levantar os punhos e o ucraniano achou que era a hora da ceia. Estendeu um papel pardo em cima da mesita, abriu o saco do farnel e começou a expor os víveres que consistiam em três garrafas de vodka de um litro cada, seis tomates e um enorme pedaço de toucinho que foi imediatamente cortado em três bocados. A fome apertava, antes comer e beber que passar as doze horas de viagem a rir e a levantar o punho. Cada um de nós, agarrou-se à sua garrafa de vodka, a dois tomates e a uma tira de presunto. Ou não estivéssemos na pátria da igualdade.

Escusado será dizer que, terminado o repasto, talvez por falta de lastro suficiente para suportar a vodka, passámos todos a rir ainda mais e a levantar os punhos de uma forma demasiado ritmada. Tanto que levaria a supor, a quem ali de repente aparecesse, que aquele trio era um grupo excursionista de halterofilistas ou de doentes nervosos em grau adiantado de tiques musculares ou, ainda, que ameaçávamos puxar o sinal de alarme da carruagem por termos entrado em pânico colectivo. Ninguém é infinitamente resistente, os braços começaram a ficar doridos de tantas saudações, veio o cansaço e o sono e o ucraniano partiu para a deita no compartimento contíguo, fechando a porta do nosso.

Nós, os portugueses, lá fomos dormindo mas o bom ucraniano não deve ter pregado olho. Cada vez que um de nós abria a porta do compartimento para ir à casa de banho ao fundo da carruagem ou tentar exercitar as pernas através de um passeio no corredor, a porta do compartimento do ucraniano (ou russo) abria-se de imediato, ele ficava a espreitar através da porta e só regressava ao seu poiso depois de confirmar que a nossa porta estava bem fechada. Teria medo de um suicídio, de um rapto ou de algum contacto inconveniente com os restantes compartimentos? Ficámos sem saber. O homem só falava russo. Chegados a Moscovo, rimo-nos e levantámos o punho pela última vez, nós seguimos (com outra companhia) para o Aeroporto apanhar o avião de regresso a Lisboa, enquanto o companheiro ucraniano lá foi acartando os seus sacos cheios de maçãs pelas ruas de Moscovo. Para onde quer que fosse, com aquela mercadoria preciosa, seria bem recebido de certeza.
publicado por João Tunes às 14:02
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PRIMEIROS JORNAIS EM PAPEL BÍBLIA

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O Café Tico Tico, bem no centro do Barreiro, tinha a sua clientela assente na pequena burguesia barreirense, pequenos comerciantes, empregados, bancários, estudantada e senhoras de meia idade que lá iam para o lanche e mais quinze dedos de conversa.

O piso mais alto, em forma de varandim, com vista para o movimento em baixo, era o poiso de estudantes que descansavam os livros e cadernos de estudo e galhofavam, enquanto os mais dados às intelectualices, faziam apreciações definitivas sobre o último livro que estavam a ler ou jogavam xadrez.

Era no Tico Tico que eu abancava e tentava decantar as parvoíces da adolescência. Eu e mais um rancho de rapazes e raparigas em idênticos trabalhos de amadurecimento.

Na altura, a zona central da vila constituía o seu casco pequeno burguês. Prédios novos, perto da marginal, da Igreja Matriz, do Parque, do campo do Barreirense, das sedes do Barreirense e do Luso, dos clubes rivais Os Franceses e Os Penicheiros e dos cinemas rivais Cine Teatro e Cine Ferroviário. Entalado entre o rio e os centros fabris, cortiças e ferroviários de um lado e a gigantesca CUF do outro. Não escapava, ninguém escapava, à fumarada nítrica e sulfurosa que poluía todos os sinais de vida na vila.

Um dia, o meu amigo Jorge chama-me à parte. Tenho uma coisa importante para te dizer. E olha à volta como a querer conferir as caras de todos os clientes do Tico Tico. Vamos para uma mesa isolada, o Jorge passa-me para a mão um jornal O Século dobrado e todo amarrotado. Diz-me baixo: não é para abrires nem leres aqui, quando estiveres sozinho e à vontade, então lê, não é para devolveres, passa a outro, depois falamos. Meti o jornal no bolso, chegado a casa enfiei-me na casa de banho, tranquei bem a porta e abri o embrulho. Dentro do Século amarrotado havia uma colecção de pequenos e leves jornais, todos feitos em finíssimo papel bíblia: o Avante, O Corticeiro, O Têxtil e O Camponês. Os meus quinze anos pareciam que tinham apanhado uma descarga eléctrica. Devorei os textos e pareceu-me entrar noutro mundo. Havia outro mundo para além do que era visto através do Tico Tico. Greves, lutas, prisões, fascismo, Pide, Partido, capitalismo, comunismo, União Soviética, proletariado, burguesia, foices e martelos. Não tinha nada a ver com as discussões eternas à volta da Náusea do Sartre. Aquilo vinha a ecoar desde os lados sujos da vila vestidos de fato-macaco para me cair em cima da cabeça e com toda a força. Depois de passar o atordoamento, veio o medo sobre o que ia fazer àquela papelada. E uma enorme inveja do Jorge que, com a mesma idade que eu, já era um distribuidor de papéis clandestinos. Deu-me vontade de não ser menos que ele. Na saída nocturna, tremendo com medo que alguém entrasse de rompante pela porta da rua, meti toda a papelada clandestina, com o Século amarrotado e tudo, na caixa de correio do vizinho de baixo. Eu também distribuía o Avante!
publicado por João Tunes às 00:28
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OS TOMATES DO MAJOR PINHEIRO

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O Major Pinheiro era o tipo de oficial pançudo que abana o rabo, a acompanhar movimentos enérgicos dos braços, no esforço inglório de tentar imitar um porte marcial. Tinha andado pela GNR, fizera uma comissão em Luanda e agora era segundo comandante no batalhão do Pelundo. Ali, era a máxima autoridade a seguir ao Tenente Coronel Romeira.

De guerras, pouco tinha aprendido. Restava-lhe a prosápia da ordem unida, dos regulamentos e do semi-bigode apensado em cima de um lábio vermelhusco e sempre húmido. Mas adorava os tratos de couves e demais hortaliças, num esforço fanático para conseguir a auto-suficiência alimentar das nossas tropas.

Chegado ao Pelundo, o Major Pinheiro tomou, como ocupações exclusivas, os melhoramentos (com a construção de uma igreja na frente das prioridades) e, como não podia deixar de ser, a implantação e conservação de uma enorme horta que vitaminasse o pessoal. Quem queria encontrar o major hortelão, não tinha que hesitar, ele havia de estar, pela certa, a peito descoberto no meio do batatal, camuflado entre os feijoeiros ou então, em última hipótese, ele havia de estar emaranhado no meio dos ramos dos tomateiros.

O Major Pinheiro era um subserviente relativamente ao Comandante e à ordem estabelecida. Fazia contas e mais contas ao pé-de-meia amealhado com os ganhos e poupanças dos soldos das comissões em África e que o levava a sonhar alto com compras de mais courelas na sua santa terrinha, lá para os lados de Águeda.

Ninguém tinha em grande conta o Major Pinheiro, excepto ele próprio. Não dava duas para a caixa a conversar e não percebia nada da poda dos assuntos da guerra. Era um chato, a caminho do labrego típico. Só acertava, em cheio, no dueto esdrúxulo que formava com o Tenente Coronel Romeira. Os dois, cada um a seu modo, eram como a fome e a vontade de comer.

Na calmaria ronceira do quartel do Pelundo, a tropa habituava-se à boa rotina, esperando que o tempo da comissão tivesse termo. Entretanto, iam crescendo as hortaliças do Major Pinheiro.

A calmaria de uma noite, aí pela hora de mudar de dia, foi repentinamente cortada pelo som de uma rajada de metralhadora ecoada no escuro e não longe do quartel. A tropa assustou-se por causa da falta de hábito. Os ouvidos ficaram atentos à espera de réplicas. Mas não, a rajada não teve irmãs a incomodarem a noite. Como se previa, o militar mais assustado era o Tenente Coronel Romeira. Apareceu nervoso, vestido de camuflado, ordenando a formação das tropas. Fez o seu discurso: os cabrões dos pretos estão a atacar-nos, vamos retaliar, viva Portugal. Chamou os oficiais de parte, ordenou ao Alferes Frederico apronte o seu pelotão de atiradores e avance para revistar todas as palhotas da aldeia africana e, pelo caminho, vá dando umas boas coronhadas na pretalhada para eles aprenderem a não albergarem turras e, se encontrar suspeitos, traga-os vivos ou mortos. Era um discurso despropositadamente ridículo, a merecer gargalhada, não fosse o poder de mando que o homem tinha.

O Alferes Frederico, homem corpulento e que tirara o curso para professor de Educação Física, ficou a olhar para o Romeira, hesitou, mas acabou por fazer continência de obediência. E abalou para pôr em acção o seu pelotão de atiradores que andava sedento de emoções depois de estar saturado de patrulhamentos inúteis. Fariam o que lhes mandassem fazer.

Apercebi-me do absurdo que vinha a caminho. Representando o papel de dedicação à façanha guerreira projectada, pedi ao Tenente Coronel licença para acompanhar os operacionais na sua missão, a fim de assegurar as boas transmissões com o posto de comando do quartel. Os olhos do Romeira brilharam de orgulho por tanto altruísmo dos seus oficiais. E respondeu com um enérgico e cúmplice Claro que está autorizado a acompanhar as forças em combate.

No caminho, fomos estabelecendo cavaqueira em voz baixa. Veio logo à baila, o absurdo das ordens dadas e da missão atribuída. Que aquilo deitava a perder o relacionamento com os manjacos. E a malta nunca mais ia ter condições de sair à noite e mamar uns bailaricos. Etc e tal.

Entrando dentro de uma meia dúzia de palhotas, confirmou-se que os africanos e as africanas estavam mas era a dormir ferrados no sono, em descanso absoluto e longe de tentações de desfazerem a boa vizinhança com os militares. Obviamente, a rajada tinha sido um acto isolado de um qualquer guerrilheiro perdido da mãe. Pelo menos, era o que todas as evidências mostravam. Não havia qualquer sustentação para fazer mal àquela gente.

O Alferes Frederico não sabia o que fazer. Maltratar os africanos, não fazia sentido. Mas, ordens são ordens. Como explicar-se perante o Romeira? E depois, não era ele que ia apanhar uma porrada e bater com os costados em Guileje?

Lembrei-me de uma solução para sair da embrulhada e salvar a honra do convento, sem desmotivar o pessoal que tinha saído ansioso por combater. A malta ia, mas era, assaltar a horta do Major Pinheiro, fazer uma ceia de tomatada crua, aguentar uns tempos, faziam-se uns disparos para o ar e depois lá se ia prestar contas ao cagarola do Romeira. Concordância absoluta, obra feita e completada.

A tropa voltou ao quartel, contendo risos, apresentou-se ao comandante, o Alferes Frederico disse que estava tudo espancado e tudo foi para a deita.

No outro dia, durante o almoço, todos os oficiais discutiam o verdadeiro significado dos acontecimentos da noite anterior. Ninguém tinha explicação para o sucedido, mas o certo é que a população continuava a dar mostras de bom relacionamento, apesar da operação das NT da noite anterior. Às tantas, o Major Pinheiro pediu silêncio e transmitiu a sua interpretação solene sobre a origem da rajada nocturna: aquilo foi acto isolado de um cabrão de um turra que me assaltou os tomates, eu já fui hoje à horta e não sobrou um para amostra. Risada geral, incluindo o Romeira. Mas o Alferes Frederico e eu não conseguimos partilhar o riso colectivo. Como se estivéssemos pré-combinados, desatámos a correr até ao meio da parada, sentámo-nos no chão e só parámos de rir quando o sol ameaçou queimar-nos as caras. Foi uma das festanças mais lúdicas vividas naquela terra. Com a ajuda, há que ser justo, dos tomates do Major Pinheiro.
publicado por João Tunes às 00:05
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