Sexta-feira, 26 de Março de 2004

EXCELENTE TEXTO

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Há pessoas que conhecemos de outros escritos e intervenções, sobre quem nos apetece dizer: “a falta que este tipo faz à blogosfera”. E dizemos isto como se a blogo-corporação fosse algo de selecto ou recomendável. O que não está longe de ser, como sabemos todos. Mas enfim, não fica mal um certo “espírito de grupo”. Ou “espírito de equipa” como é mais de bom e moderno tom.

Bem, isto não é mais que um pretexto ou intróito para justificar o roubo ao Ivan Nunes de um excelente texto do Paulo Varela Gomes:

“Eu gostava de ter sido não só o piloto que disparou um dos mísseis que fez o cheique em fanicos mas o próprio míssil. Ah quem me dera ver aqueles olhinhos de crápula a esbugalhar-se no último micro-segundo...
Digo-te: bebi um copo de prazer à saúde de quem tomou a decisão, politicamente errada, claro, de consequências provavelmente dramáticas, mas sentimentalmente das decisões mais satisfatórias, mais preenchentes da alma, que já tive oportunidade de saudar na minha vida.
Na minha hitlist pessoal, o Yazinzito da mãezinha dele figurava em posição muito alta e fico felicíssimo de o ver assim duplamente vítima dos desportos radicais, o futebol e o encorajamento dos homens-bomba, ao último dos quais dedicou a vida paraplégica e as mortes dos outros.
O falecimento dele não é um falecimento útil como o do Savimbi ou, por exemplo, o - tão desejável - do Berlusconi (espero sinceramente estar com isto a dar ideias a algum grupo terrorista desempregado) que, ao desaparecerem, a vida dos respectivos povos melhora instantaneamente. O fanicamento do cheique Yazin adianta pouco porque há muitos e muitos cabrões do calibre dele entre a cabrãozada palestiniana. Mas, mesmo assim, satisfaz.
Mais importante, porém, é que não adianta grande coisa discutir o cheique Yazin em picadinho do ponto de vista político, até porque estou persuadido de que ele não foi morto por considerações políticas. Foi morto por duas razões, uma curta e uma comprida. A curta é que foi possível, ou seja, os israelitas andavam a ver quando é que podiam, ou seja, quando é que dava para lhe acertarem com 100% de certeza e sem magoarem muita gente em volta.
Naquele dia, àquela hora, um tipo qualquer disse ao Sharon que sim, o Sharon perguntou «Tem a certeza?», o outro confirmou aí umas três vezes e foi-lhe dado o «go ahead». Cheique Yazin em bocadinhos. Há muitos mais à espera do dia certo e da hora certa, sem que se interponham pelo caminho quaisquer considerações políticas, tréguas, tratados, promessas. Apenas: podemos ou não podemos?
Isto leva-nos à segunda ordem de razões, as compridas, incompreensíveis para todos os que pensam que o Estado de Israel é apenas um estado moderno como os outros - quando afinal é, até um certo ponto, um estado parecido com os inimigos que combate e que o combatem, um estado do século XXI, um estado da Paixão de Cristo de Mel Gibson. Israel mandou matar o cheique Yazin por vingança. E condenou à morte todos os palestinianos envolvidos em atentados contra cidadãos seus. Assassiná-los-á. Agora ou mais tarde, daí a cinco, dez ou vinte anos. A eles, ou aos filhos ou aos netos. O estado de Israel pode negociar com Arafat, com o Hamas, com as Brigadas de Al Aksa. Sharon ou os outros podem cumprimentar os seus dirigentes, dar-lhes palmadas nas costas, posar com eles para fotografias, e até respeitar tratados. Podem, em resumo, ocupar-se de política com eles à maneira moderna. Mas, uma vez fechadas as portas e desligadas as câmaras de televisão, mandará assassiná-los. É como a Mafia. Uma coisa são os negócios, outra é a vingança, aquilo a que a Mafia chama a honra, uma velha cultura mediterrânica, que afinal é semítica – e que provém, em última análise, do Deus de Israel, o Deus do Antigo Testamento.
Israel não perdoa a quem lhe assassina os filhos. E faz questão que isso fique clarinho. Não há considerações políticas de qualquer espécie que detenham o braço da sua vingança. Acho que esse filho da puta do Yazin sabia. Como sabe o Arafat e sabem os outros. Afinal, são do mesmo género e filhos do mesmo Deus.
Nós, modernos, civilizados e filhos do ar condicionado, é que não percebemos nada daquilo.”
publicado por João Tunes às 12:31
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Quinta-feira, 25 de Março de 2004

EFEITOS ZAPATERO

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“Colin Powell terá oferecido ao novo primeiro-ministro espanhol a possibilidade de fazer aprovar uma nova resolução nas Nações Unidas que evite a saída dos soldados espanhóis do Iraque, segundo o «El Pais».
O diário espanhol refere que a oferta do secretário de Estado norte-americano foi feita, quarta-feira de manhã, numa conversa de 15 minutos entre Powell e Zapatero, depois da cerimónia fúnebre em memória das vítimas do 11 de Março."
(notícia TSF)

PRIMEIRO EFEITO: Tornar claro que a Espanha é uma grande nação no quadro europeu e mundial.

SEGUNDO EFEITO: Demonstrar que a Opinião Pública existe em Espanha porque os espanhóis não desistiram de ter ideias, transformando-as em acção e levando-as até à política.

TERCEIRO EFEITO: Evidenciar que a essência da Democracia é a alternância e a única ditadura admissível é a do Voto.

QUARTO EFEITO: Fazer pagar aos mentirosos o preço político da Mentira, seja quanto ao pretexto do ataque ao Iraque seja na manipulação sobre a identidade dos assassinos de Atocha.

QUINTO EFEITO: Demonstrar aos grandes senhores do Mundo que uma alternância pressupõe mudança e que as promessas eleitorais são para se cumprirem, gostem ou não os poderosos. E que são os poderosos, quando erram ou abusam, que devem emendar a mão.

SEXTO EFEITO: Mostrar aos pusilâmines (ai Barroso, Barroso, tão fraco e servil és tu!) que a firmeza compensa e é a única arma de defesa dos mais pequenos.

SÉTIMO EFEITO: Travar a euforia neo-liberal que sonha com uma Europa toda alinhadinha à direita (ai como eles estavam felizes com a mudança grega!) em pax com os seus negócios, a selvajaria social e a ditadura das multinacionais.

OITAVO EFEITO: Obrigar a que a questão do Iraque seja tratada na única sede legítima: as Nações Unidas.

NONO EFEITO: Permitir a retoma do caminho da coesão europeia sem fugas atlantistas centrípetas e oportunistas.

DÉCIMO EFEITO: Criar condições para que a Europa e os Estados Unidos se tratem em pé de igualdade, sem amos nem mordomos, para que o antiamericanismo definhe na Europa e o desprezo pelos “velhos europeus” deixe de ter alimento propagandístico na grande potência. Para que o Mundo volte a ser bipolar agora num jogo político entre democracias.

DÉCIMO PRIMEIRO EFEITO: Dar alimento à esperança de que esteja a definhar a subserviência e a incompetência deste governo Barroso/Portas que nos quis dar a ilusão mesquinha e cobarde de que, para sobrevivermos, tínhamos necessariamente de ser selvagens, auto-flagelados, pequeninos e a comer à mão dos poderosos.

DÉCIMO SEGUNDO EFEITO: Não ter nenhuma certeza de que Zapatero em Moncloa cumpra e alargue as esperanças que nos trouxe. Mas, até à desilusão, folgam as costas.
publicado por João Tunes às 16:17
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Quarta-feira, 24 de Março de 2004

LIBERDADE !

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Eu não marchei com o Barnabé, o Carvalhas e o Louçã, na performance de Sábado passado. Sobretudo, porque não gosto que panos de bandeiras de partidos me despenteiem.

Mas marchava, juro que marchava, se estivesse em Cuba, com as mães, as mulheres, as filhas e as irmãs dos presos políticos e que tiveram a coragem de desfilarem em La Habana (aí sim, é preciso tomates para fazer uma manif), exigindo o fim da tortura e do presídio dos jornalistas cubanos e outros “delinquentes de opinião”.

Porque em La Habana, gritando ASSASSINO ao Ditador Castro, eu me sentiria coerente com as manifes em que participei (e levei porrada) contra Salazar e Caetano.

Porque não quero para os cubanos menos que aquilo que os portugueses alcançaram em 1974.

Porque acho obsceno usarmos a nossa santa liberdade, calando a falta de liberdade dos que dela carecem.

Porque insultar Bush, Blair, Aznar e Durão, tapando os ouvidos aos gemidos vindos das masmorras castristas, é um exercício estulto de pequeno burguês radical e de caviar. Radical sou, confesso, mas caviar é petisco que não aprecio.

(Agradeço ao Fumaças a notícia e a imagem.)
publicado por João Tunes às 23:49
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CATORZES SENTENÇAS PARA ANIMAR A DISCUSSÃO

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1. O Islamismo tornou-se Religião de Estado como apoio ao expansionismo árabe.

2. O Islamismo estagnou com as conquistas árabes e cristalizou com o domínio dos principais países árabes primeiro pelo Império Otomano e depois pelas potências coloniais europeias.

3. Com a marginalização das populações árabes nos processos que sofreram de colonizações, o Islamismo manteve-se como cultura periférica e de sobrevivência de tradições arcaicas.

4. O Islamismo nunca teve oportunidade de evoluir a par da construção de Estados modernos e democráticos.

5. O Islamismo cristalizou nas suas versões arcaicas e manteve-se à margem das conquistas de conceitos e direitos consignados dos Direitos Humanos.

6. O Islamismo dividiu-se em braços rivais assentes em diferenças minimalistas (sunitas, xiitas, etc.) que se estruturaram sobretudo em interesses tribais antagónicos.

7. O Islamismo recrudesceu e readquiriu fulgor e projecção com o nacionalismo pan-árabe e o acesso às imensas somas de petrodólares.

8. O Islamismo ainda hoje não consegue integrar as principais conquistas de cidadania e de igualdade, nomeadamente no que refere aos direitos das mulheres.

9. A forma mais adaptada de ajustar a prática islâmica com a vida política e social é sob a forma de estruturas feudais de exercício do poder.

10. A estagnação do Islamismo proporciona múltiplas leituras simplistas e radicais.

11. As receitas do petróleo, o feudalismo estatal e a cristalização do Islamismo alimentam e favorecem o extremismo e o fundamentalismo islâmico, o recurso à violência, ao terror e ao martírio como formas de resolver conflitos.

12. O terrorismo de matriz islâmica assenta em muito dinheiro, muito ressentimento de papel periférico civilizacional e numa enorme massa humana marginalizada pela evolução cultural, pelo progresso social e pelo progresso económico.

13. A Ideologia do terrorismo islâmico é a do Ressentimento (face aos países e povos desenvolvidos) e do Desprezo pela Vida Humana (dos muçulmanos a quem se atribui o mérito máximo de serem mártires e aos “outros”, vistos como ímpios ou cruzados).

14. Não há conciliação possível entre os valores da Liberdade, da Democracia, da Igualdade e dos Direitos Humanos e os dogmas do fundamentalismo e do terrorismo islâmico.
publicado por João Tunes às 12:43
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PONTAPÉ NA HISTÓRIA

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Isto está bonito, está. Como o clamor das paixões, começa a valer tudo. E não julguem que falo da lusa blogosfera. Não é preciso chegar a tanto. A venerável imprensa parece não lhe querer ficar atrás. Se há delírio, ao menos que ele seja democrático. Por isso, dá para todos. Até para compensar a magreza em número de manifestantes que, burgueses às vezes, parecem preferir curtir o sol na Caparica que engrossarem o lote de acompanhantes das passeatas de Louçã, Carvalhas e Ana Gomes.

E se o rigor é inimigo do óptimo, então pontapé na História que para a frente é que é caminho.

Um sujeito, pomposamente titulado de “Assessor de Sistemas de Informação” (do SIS? de Informática? do quê?), de seu nome António Vilarigues, lançou em página toda por sua conta do Público, este naco de prosa aldrabona:

“Nos anos entre as duas guerras mundiais foram precisamente os "pacifistas" quem, em todo o lado e também nas ruas, se opuseram aos partidos fascistas e nazis, denunciando o seu carácter terrorista e criminoso. Muitas vezes em condições antidemocráticas e à custa da própria vida. Foram eles que pegaram em armas para defender a República Espanhola, criando as Brigadas Internacionais, enquanto os governos das principais potências "democráticas" da época (Inglaterra, EUA e França) permaneciam "neutrais".”

Meu deus! Um ignorante, ou homem emprenhado pela má fé, e deste quilate é assessor de sistemas de informação? Coitados dos seus eventuais patrões e clientes…

Onde se viu um dislate deste tamanho de considerar os “brigadistas” como “pacifistas” que pegaram em armas para defender a Espanha Republicana perante a “neutralidade” dos governos “ocidentais”?

Primeiro: As Brigadas Internacionais não foram recrutadas entre “pacifistas” mas sim entre e pelos Partidos Comunistas, sob orientação, coordenação e logística do Komintern e da União Soviética.

Segundo: A União Soviética interveio directa e militarmente na Guerra Civil de Espanha embora pertencesse ao Comité Não Intervenção.

Terceiro: As Brigadas Internacionais retiraram de Espanha quando a União Soviética deu a guerra como perdida.

Quarto: Muitos dos “brigadistas” sobreviventes (assim como grande parte dos militares e diplomatas soviéticos que serviram em Espanha) foram assassinados por Estaline porque, perdida a guerra em Espanha, o ditador vermelho preparou o Pacto com Hitler que consumou no mesmo ano em que terminou a guerra civil (1939) e os “espanhóis” passaram a ser vistos como “antifascistas inconvenientes”.

Oh Vilarigues, informe-se homem. Leia. Não minta. E, se faz favor, respeita a memória e as convicções de gente que arriscou a vida por uma Causa. Os “brigadistas” não merecem o insulto de lhes chamarem “pacifistas”! Foram combatentes, a maioria portou-se valentemente, serviram Estaline porque pensavam que ele era Deus, perderam porque os fascistas foram mais fortes e porque Estaline resolveu trocar o Antifascismo pelo Pacto com os Nazis. Honremos a sua memória e respeitemos a coerência da sua cegueira ideológica.
publicado por João Tunes às 00:22
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Terça-feira, 23 de Março de 2004

ESTES, EU CHORO E CHORAREI

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Estes eram cidadãos que, em 11 de Março, apanharam um combóio para trabalharem, estudarem, namorarem ou simplesmente respirarem Madrid. E desapareceram do reino dos vivos. Porque um bando de assassinos os despedaçou à bomba. Não sei os seus nomes. Os seus rostos nada me dizem. Mas são pessoas que choro. Porque mereciam viver mas não vivem porque um bando fez da Morte a sua Ideologia. Eu podia estar lá, ou os meus filhos ou um de vós. Ou todos nós.
publicado por João Tunes às 20:34
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AINDA SOBRE O XEQUE-MATE AO XEQUE

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Vale a pena ler:
1) O post do Aviz intitulado “SOBRE A GUERRA” e os comentários que ele mereceu. Só me pergunto, porque é que ninguém resolveu chamar “JUDEU” ao F.J.Viegas, como insulto supremo, quando se sabe da opção deste em termos religiosos porque ele a assumiu publicamente.
2) O post de Vital Moreira intitulado “Escalada assassina” de que se desconhecem comentários porque este blogue não dá guarida a essas democratices. Os da Causa Nossa fazem jurisprudência sem direito a apelo.
Porque vale a pena confirmar como “boas causas” recorrem à “superioridade moral” das mesmas para tentarem impingir moralismos baratos, demagógicos e trapaceiros.

Coitado do Xeque do Hamas. Velho e tetraplégico, chora o cristão (novo ou velho?) Vital Moreira. Assassinado, quando ia numa cadeira de rodas, por um foguete teleguiado (maldita tecnologia) atirado por um descendente dos que crucificaram Cristo na Cruz. Só que o sacana do finado já andava na cadeira de rodas desde os doze anos e isso não o impediu de passar a vida a inspirar e incentivar os terroristas do Hamas. Matando crianças e outros civis (judeus, eu sei). Matando (ou "suicidando") jovens palestinianos e palestinianas fanatizados e fanatizadas pelo Xeque para servirem como homens-bomba e mulheres-bomba. Matando, porque a Morte era a única religião do Xeque. Sabe-se até que o Xeque tinha a suprema ambição de morrer em Martírio. E aqui é que eu lamento que Sharon lhe tenha feito a vontade. Desde quando é que uma cadeira de rodas isenta um Xeque de Assassinos dos riscos da Religião da Morte pela qual optou? Saber se Hitler sofria de síflis ou não, acrescenta alguma coisa ao julgamento sobre Hitler? Ou se Estaline tinha um trauma na sua relação com a Mãe (sabe-se da sua extrema frieza de ter mandado Béria representá-lo no funeral dela)? Ou, ainda, se Fidel Castro foi vítima de abusos sexuais quando andou no Colégio de Jesuítas e isso deu-lhe, em velho, para torturar e prender jornalistas?

Limpem o Sharon e eu vou chorar tanto por ele como choro pelo Xeque. Porque todas as minhas lágrimas vão para as vítimas do terrorismo. E não tenho cloreto de sódio no corpo que dê para chorar as vítimas, os assassinos e os assassinos dos assassinos. Por isso, tenho de o dosear. Eu choro os mortos de Atocha de que não sei os nomes. Eu choro as vítimas do ELP/MDLP e das FP 25. Eu choro os assassinados pela ETA. Eu choro aqueles que tiveram a desdita de estarem nas Torres Gémeas no dia e na hora erradas. Eu choro todas as vítimas passadas e futuras.

Desculpem, mas eu não choro um único Assassino. Eu só tenho é pena que eles não se juntem todos no mesmo sítio, numa ilha isolada, e não se matem uns aos outros. Não sendo tal possível, fogo neles, a TODOS!
publicado por João Tunes às 17:33
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GANDA MÁRIO !

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Mário Soares tem um tal lugar assegurado na nossa História que lhe é permitido dizer coisas que não se perdoariam noutras figuras ou mesmo no cidadão comum. Porque Soares pertence ao património da nossa Democracia e pela sua forma de estar na política e na vida. É pois natural que mereça carinho e condescendência quando lhe saem da boca para fora esta ou aquela frase infeliz. Por outro lado, a sua idade também ajuda a ser-se tolerante com uma ou outra rabugice sua.

Sempre tive a ideia que Soares nunca se levou muito a sério quanto às suas próprias posições. Ele não é aquele racionalista pragmático e calculista que mede o alcance de tudo o que diz e o que faz. Ao contrário do que eram, por exemplo, Cunhal e Sá Carneiro, e é Cavaco Silva. E, neste aspecto, acho que pagámos um preço (sobretudo na forma desastrosa como foi Primeiro Ministro) mas todos beneficiámos destas características de Soares tornar a política leve, humana e acessível. Soares tem sido, antes de mais, um “gajo porreiro” que foi amado e estimado também pela forma descontraída, convivial e afectiva como viveu e vive a política. Estruturalmente, Soares é mais um intuitivo, um táctico e um apaixonado - aquilo que por vezes se designa como “animal político” - do que um estratega ou um definitivo sobre rumos e objectivos. E entre as suas características pessoais, notam-se traços que o humanizam – vê-se que é preguiçoso, amante da boa mesa e dos bons passeios, vaidoso em rituais e homenagens e bom conversador, tudo “defeitos” que cada português traz dentro de si … ou que gostaria de os poder gozar.

A preguiça política de Soares relativamente às suas metas e às suas ambições sempre o levou, desde a juventude, a “pendurar-se” noutros que trabalhassem politicamente por ele. Foi assim com a iniciação política que lhe foi ministrada por Cunhal e na construção e consolidação do PS em que se apoiou em Salgado Zenha.

Soares foi do republicanismo paterno para o PCP, assustou-se com a ideia de ter de passar para a clandestinidade, meteu-se em free lancer do antifascismo, ainda namorou Marcelo com a CEUD, aproveitou a ajuda da Internacional Socialista e fundou o PS, foi quase tudo na política que gostava de ter sido (excepto o almejado lugar de Secretário Geral da ONU), não vive sem a política nem a ribalta, sabe que tem uma reserva de estima popular inesgotável.

É natural que à beira dos oitenta anos, Soares tenha falta de espaço para construir projectos em que ele brilhe numa equipa a trabalhar para si. E não poderá mais apoiar-se em “apoios” mais velhos que ele e que tenham estatuto para o inspirarem.

Faltou a Soares a experiência de ter sido um esquerdista impertinente (trotsquista, guevarista, maoísta). Livre do PS, Louçã deve fazer inveja ao bom do Mário. Imagino como ele gostaria de se meter naqueles folclores que a rapaziada bloquista organiza de vez em quando. Vai daí, o antes inspirado por Cunhal e por Zenha, meteu-se numa de “esquerdismo à PS” e tudo indica que a Nova Passionária cá do burgo (Ana Gomes) lhe esteja a inspirar modos e tiradas na cruzada anti-Bush. Pelo menos, é assim que entendo (e desculpo, depois de pensar melhor) aquela frase infantil (de segunda infância) sobre a possibilidade e a necessidade de se negociar com Bin Laden.

Ganda Mário! Contigo, a política também é uma festa e quase chega a ser uma paródia. Bem hajas!
publicado por João Tunes às 14:08
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Segunda-feira, 22 de Março de 2004

APENAS MENOS UM

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Sou pelo direito dos palestinianos a terem uma Pátria independente e soberana. Assim como o direito dos israelitas viverem no seu país e em segurança.

Estou contra o militarismo genocida do governo sionista e o fanatismo do extremismo palestiniano. Estou contra os terrorismos israelita e palestiniano ou cometidos em seus nomes. Acho que Sharon e Arafat estão fora de prazo de validade (sempre estiveram) e deviam ser reformados compulsivamente.

Considero das maiores vergonhas mundiais a não resolução do conflito israelo-palestino.

Mas que me desculpem os amigos dos incendiários e todos aqueles que têm uma pala a tapar um dos olhos, mas não deito uma lágrima por este Xeque inspirador de bombistas e de fanáticos. É apenas menos um dos que só atrapalham e matam.
publicado por João Tunes às 15:17
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SOBRE UM POETA QUE ASSASSINOU UM JORNAL

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Ele cita várias vezes, sempre a propósito, porque há frases que têm sempre um propósito, o grande poeta Mandelstam - tão grande poeta que Estaline não suportou que existisse – e que um dia atirou ao ar a frase: “A poesia é poder”.

Este poeta, revoltado, do poder e na oposição, não o russo mas o trovador nascido em Águeda, desfia as suas memórias de resistência que me acompanham como um fio de voz (para mim, a mais bela voz de homem de quem ouvi a fonia do canto a falar) impresso, indelével e irredutível, desde as noites do fascismo, trazido nas ondas da Rádio Voz da Liberdade, agora em romances de poesia. Embora, desde Abril de 1974, só me liguem a Manuel Alegre os seus livros (o que é mais que muito). Com edição Dom Quixote, aí está “Rafael”.

Manuel Alegre, o poeta que foi responsável pela Segurança do PS nos anos de brasa, com desempenho brilhante a tecer fios entre militares desconsolados, serviços secretos americanos, ingleses e alemães e armas distribuídas aos militantes da contra-revolução, lembra-nos como se tornou um revoltado em trabalhos revolucionários contra a ditadura. E disse quase tudo sobre como tantos (mas sempre em minoria) passaram do ócio estudantil entremeado entre farras, namoros e a conquista do “canudo”, para coluna vertebral da luta contra o fascismo. E talvez seja, por causa deste mesmo passado, que a Direita deste país ainda não prestou a devida homenagem ao muito (ou tudo?) que deve a Manuel Alegre.

Manuel Alegre, o poeta que assassinou um jornal (O Século) quando esteve num governo, mete-nos pelos olhos dentro um capítulo que será (para mim, é) a melhor cena da vida militar durante a guerra colonial e que retrata a sua prisão, em Luanda, por um capitão de Cavalaria. Depois deste capítulo, tudo o mais que se vier a escrever sobre a guerra colonial e as forças armadas, será complemento, adjectivo ou interjeição. Desta maneira, o poeta que assassinou um jornal também deu por extinta a literatura sobre a guerra colonial e sobre como apareceu esse fruto exótico chamado MFA. Porque ele disse quase tudo sobre tão dolorosos e complexos temas.

Manuel Alegre, o poeta-amigo que chorou agarrado ao pescoço de Paulo Pedroso e continua dono da retórica mais ridícula da saudade abrilista, pincela o caminho errante das grandes figuras da resistência e como ela se compôs e se dividiu, através dos furúnculos abertos pelo exotismo narcisista e valente do General Delgado, pela invasão de Praga, por Maio de 1968 e pela deriva maoísta. E como tudo isso foi sanado e ultrapassado pelos militares fartos da guerra, menos poetas mas mais pragmáticos.

Manuel Alegre, o poeta que foi revoltado, revolucionário, contra-revolucionário e poder e agora é relíquia da oposição, tem todas as razões para citar vezes sem conta a frase desesperada de Mandelstam.

Como eu lamento, em nome do som da sua voz aos microfones da Rádio Voz da Liberdade e em nome da melhor poesia que saiu da sua cabeça a transfigurar a língua portuguesa, que Manuel Alegre não tenha circunscrito o seu poder de poeta à sua lira. Porque Manuel Alegre consegue transformar a nossa língua naquilo que ela não é no uso ordinário que dela fazemos. Com Manuel Alegre, a língua que usamos para invejar, intrigar, mal-dizer e sermos rascas, torna-se em algo cantante, plástico, estético e belo, muito belo. Com Manuel Alegre, cada português é um poeta. Se a poesia é poder, porque raio este poeta se meteu em poderes e em contra-poderes?
publicado por João Tunes às 14:27
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