Sexta-feira, 13 de Fevereiro de 2004

POLITICOS FUMADOS

Vinhais é perto da minha terra transmontana. Terra de gente rude e especialista em enchidos de fumeiro. Do melhor que por cá se faz.

Em Vinhais, realiza-se, todos os anos, uma famosa e concorrida Feira do Fumeiro.

Está-se mesmo a ver. Feira, feirantes, pessoal em barda, logo sítio ideal para angariar simpatias e votos. Poucos políticos lhe resistem.

Segundo a Visão, por lá passaram, este ano, Armando Vara (este tem desculpa porque é patrício) e Capoulas Santos (do PS), João Nabais (ainda bloquista?) e .. Manuel Monteiro, pois claro.

O líder da Nova Democracia não podia lá faltar. Deve ter ido à procura de inspiração. Pode ser que fumada, a democracia melhore. Ou talvez tenha ido discutir a Constituição Europeia num tasquinho de salpicão.

Inovam, inovam, mas sem banhos de feiras é que eles não passam.
publicado por João Tunes às 11:36
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FERRODESGOSTO

Sempre tive um fascínio particular pelas estações de comboios. Porque gosto de comboios e da sua forma de correr nas distâncias e contra elas. Porque, viajando num comboio, tenho a sensação que estou no centro do mundo e tenho a natureza a desfilar-me (ou desfiar-se?) pelas janelas. Porque um comboio é bom para dormitar, para ler ou para namorar. Porque o movimento das estações é um formigueiro que me deslumbra. Talvez porque me faça sentir mais cósmico. Sei lá. Mas que gosto de comboios e das suas gares, lá isso gosto.


Também simpatizo com os ferroviários. Acho que eles têm vagares felizes na forma ritualista como cumprem as suas funções. Talvez porque tenha sido enformado numa ponta de uma ferrovia (era no Barreiro que se iniciavam as viagens para o Sul) e porque tenho apelido de entroncamento ferroviário lá para as bandas do Algarve. Sei lá. Mas que gosto dos ferroviários, lá isso gosto.


Uma pessoa gosta mas tudo tem os seus limites. Ando bravo com um Chefe de Estação. Não é que o tipo deu em chauvinista radical, eugenista mesmo, e propôs-se mandar exilar, para sítios do caraças, os doutos fundadores do Partido do Beato? Não, isto não. Um povo é feito de heróis, santos e sacanas. Mas todos são povo. Se eles foram cá paridos, temos de os aturar a todos. Não temos o direito de exportar o nosso lixo. Que mal terão feito ao Ferroviário, os iraquianos, os afegãos e os haitianos? Achará ele que não têm lá corjas que lhes cheguem para aturarem? Enquanto me lembrar desta, nunca mais apanho o comboio para Sintra. Quando muito, apanhar apanho, mas vou sair no Algueirão. Não quero é ver pela frente o Chefe da Gare de Sintra. Isso não.

publicado por João Tunes às 11:25
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UMA LEITURA E DOIS ANDAMENTOS

PRIMEIRO - MARIA EUGÉNIA VARELA GOMES

Uma mulher excepcional. Uma vida excepcional. Talvez sintetizável na imagem de um vulcão feito vida. Vida de luta, sofrimento, luta. Uma indomada e indomável. De uma clareza e frontalidade absolutas. Concorde-se ou não com todos os seus olhares sobre a sociedade e a política.

Conhecer o percurso da vida de Maria Eugénia Varela Gomes será uma forma simples e directa de saber o que foi o fascismo português, lido do lado dos que se lhe opuseram. Para mais, ela foi uma lutadora permanente sem nunca ter sido, por não ter querido ser, uma mulher de Partido.

O livro CONTRA VENTOS E MARÉS, Edição Campo das Letras, é um depoimento de enorme interesse. Escrito a "duas mãos", entremeando notas autobiográficas com uma entrevista conduzida por Maria Manuela Cruzeiro. Recomendo-o vivamente a todos aqueles que acreditam que, entre as portuguesas, há grandes mulheres.

SEGUNDO - CHAPI VARELA GOMES

Uma pessoa arranja amigos, quando arranja, sem saber como nem porquê. Engrena-se e pronto, nasce a empatia e a cumplicidade.

Fiz um amigo em casa de outro amigo. Era um homem de silêncios que vivia sobretudo do olhar vivo e atento. Apagava-se no grupo. A gaguez não ajudava, pelo contrário. A sua timidez era ostensiva. No grupo numeroso de convívio, deu-nos para a simpatia um pelo outro. Sem alardes, nem efusões, nem sufocos de presenças. Na maior parte das vezes, o grupo seguia a sua dinâmica convivial e nós íamos para um canto trocar as nossas sentenças. Embora ele fosse quase da outra geração a seguir à minha, parecia que tínhamos andado juntos desde a escola primária, tal a cumplicidade dos códigos da comunicação e do sentir.

Engenheiro de Máquinas, era um técnico perfeccionista e altamente politizado. Permanentemente insatisfeito consigo e com os projectos em que se envolvia e que permanentemente fazia e refazia. Inquieto, sempre inquieto. Tentei ajudá-lo a encontrar um rumo profissional mais consistente mas ele parecia preferir andar de desconsolo em desconsolo.

Encontrava-o sobretudo nas idas ao mercado para os abastecimentos de frutas e hortaliças. Normalmente, ele por ali andava com o seu filho pequeno, dando as suas voltas. Quando nos víamos, o tempo e os objectivos paravam, a conversa desfiava-se solta sobre tudo e sobre nada. Era um radical e um pão pão queijo queijo. Parecia-me ouvir, atrás das suas falas, o discurso conhecido, radical e frontal, do Pai. Criámos e desenvolvemos um afecto sem agenda e que se resumia a conversas soltas nas voltas dos encontros de vizinhança em que ambos os nossos olhares se iluminavam pelo gosto da presença do outro. Umas alturas, encontrávamo-nos com alguma frequência, noutras só nos víamos muito espaçadamente.

De repente, a notícia e o murro. O Chapi Varela Gomes tinha-se suicidado, pendurando-se numa árvore da Serra de Sintra. Ficou-me uma dor funda de um bom amigo perdido nos mistérios da vida.

Agora leio o livro da sua Mãe e aprendo porque perdi este amigo. Maria Eugénia Varela Gomes não foge a enfrentar a sua perda e diz:

"Tinha que ser. E ele também sabia que eu sabia. Sabíamos ambos porque ele era parecido muito comigo. Só tinha uma coisa, é que eu - talvez porque muita gente me bateu - habituei-me a reagir e a dizer: -Não sou tão má como vocês me fazem-; e ganhei um certo treino e acabei por, melhor ou pior, gostar um bocadinho de mim. Mas o meu filho não gostava nada dele. E para viver é preciso gostar um bocadinho de si próprio..."

Perceber o Chapi só aumentou a minha saudade da sua amizade. Inútil, eu sei. Não, não sei. Sei lá o que sei. Sei que a vida às vezes é uma grande merda.
publicado por João Tunes às 11:19
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