Segunda-feira, 22 de Novembro de 2004

ESPANHA – GUERRA CIVIL (5)

Espanha5.JPG

SOBRE O SEMINARISTA DE SANTA COMBA DÃO

O Raimundo Narciso colocou o seguinte e oportuno comentário:

“A 2 da RTP deu há dois dias um largo documentário sobre Franco. E, claro, tratou-se da guerra civil, do mais de 1 milhão de mortos, na guerra e nos 20 anos seguintes de terror franquista. O documentário entrevistava um grande número de historiadores que sublinharam que a vitória de Franco, apesar de todo o apoio de Hitler Mussolini e a aquiescência britânica e não só, não teria sido possível sem o apoio decisivo, do Portugal de Salazar. Sem o seminarista de Santa Comba Dão talvez não tivesse havido franquismo.”

Sobre o desfecho de uma guerra é sempre difícil determinar um factor que tenha sido o decisivo para o seu desfecho. Ou seja, aquele que foi determinante para a vitória do vencedor. Porque, ao seu lado, teríamos de encontrar o que foi decisivo para a derrota do vencido. O que acontece, e a Guerra Civil de Espanha não foi excepção, é que há um conjunto de factores que permitiram o resultado e temos de os encontrar de um lado e do outro.

Concordo, em absoluto, que o apoio do regime de Salazar a Franco foi um factor da máxima importância para que o fascismo se instalasse em Espanha e, sobretudo, para que sobrevivesse até à morte do ditador galego. Da mesma forma, a consolidação do regime franquista, constituiu um factor da maior importância para proteger, resguardando-o, o regime do ditador de Santa Comba.

Embora importante durante a guerra (sobretudo como santuário de retaguarda e possibilitando a mancha de penetração franquista ao longo das províncias fronteiriças), não julgo que o apoio do fascismo português tenha sido mais importante que outros apoios (e sem os quais, a vitória de Franco também não teria sido possível) – desde logo, o apoio em materiais bélicos e em homens, da parte de Hitler e de Mussolini; o apoio empenhado do Vaticano, abençoando o levantamento e progressão de Franco como uma “cruzada” na defesa da Igreja Católica; a mobilização de tropas marroquinas (os “mouros”) que deram capacidade de choque e de impiedade guerreira aos fascistas; a “quinta coluna” instalada nas zonas republicanas; por último, o pragmatismo cobarde das democracias (sobretudo da França e de Inglaterra) que, temerosas de enfrentar Hitler, preferiram “lavar as mãos” em vez de apoiarem a legalidade democrática em Espanha (se em vez de se ajoelharem perante Hitler em Munique, o tivessem enfrentado, o desfecho em Espanha seria outro e a Segunda Guerra não seria travada com os custos medonhos que teve). Num quadro deste, julgo haver algum exagero em agigantar o impacto do contributo de Salazar para o desfecho da guerra. Ele foi importante mas não bastaria face à importância maior dos restantes.

Quanto aos factores que explicam a derrota da legalidade republicana e democrática, também eles não faltaram em variedade – dificuldades em tornar coesa a multiplicidade de ideologias, interesses e fracções que constituíam a diversidade plural das forças pró-governamentais (desde logo entre as várias fracções do PSOE); as tibiezas e insuficiências do apoio soviético (apesar de ter sido o grande contributo para a capacidade de combate); a forma como se deixou estabelecer o domínio policial pelos agentes soviéticos; a retirada incondicional (sem contrapartidas do outro lado) das Brigadas Internacionais quando a Batalha do Ebro ainda não tinha terminado.

Como em tudo, cada parte beneficiou dos seus factores favoráveis e das fraquezas do bando inimigo. No meio deste emaranhado - e a guerra civil foi um fenómeno da mais alta complexidade – o apoio salazarista a Franco foi importante mas um factor entre muitos. De tal modo que penso que mesmo que tivesse havido neutralidade do regime português, Franco tinha condições para ganhar a guerra.

Já quanto ao após-guerra em Espanha, aí estou totalmente de acordo. O regime de Salazar, pela sua proximidade fronteiriça e pela osmose ideológica entre os dois regimes, foi determinante para conservar e consolidar o regime franquista e permitir que ele se prolongasse até 1975. Desde logo, na influência da manha salazarista para evitar que Franco, como foi o seu impulso inicial, se metesse deliberadamente ao lado incondicional de Hitler durante a Segunda Guerra Mundial. Depois, na consolidação de identificação entre os fascismos ibéricos, dando-lhes os factores distintivos e “moderados” (em que o clericalismo teve um papel importante como disfarce aos modelos de “práticas fascistas”) de forma a escaparem ao “julgamento de 1945” e ficarem amarrados ao destino dos fascismos derrotados. Também, e talvez mais importante, a “saída airosa” de deslizamento dos regimes ibéricos ao saberem aproveitar, com a vinda da guerra fria, a bóia de salvação de transitarem para alianças políticas, económicas e militares com a Inglaterra e os Estados Unidos.

(na foto, Salazar e Franco)
publicado por João Tunes às 16:34
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