Quinta-feira, 12 de Agosto de 2004

A PROPÓSITO DE HIROSHIMA E NAGASAKI

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Muito bem e apoiado. Alguns blogues referiram as efemérides do lançamento das bombas atómicas em Hiroxima (6 Ag 1945) e em Nagasaki (9 Ag 1945).

Estes bombardeamentos representam duas enormes manchas negras no cinismo da eficácia da capacidade humana em destruir pessoas. Manchas que não devem ser esquecidas para que não se repitam.

Assim, pela minha parte, este repúdio pode ser retomado e aprovado por unanimidade e aclamação.

Mas há muito que os horrores de Hiroshima e de Nagasaki não se têm ficado por aqui. As suas vítimas têm servido para mais. Porque passaram a ser munições póstumas do arsenal da guerra fria e como parte integrante da propaganda do Movimento da Paz, organização que identificava a causa do Partido da Paz com o mundo soviético e atribuindo aos Estados Unidos a representação do Partido da Guerra.

Os argumentos pacifistas usados e repisados para com Hiroxima e Nagasaki não têm andado longe daquilo que o Werewolf utilizou num seu post e que cito:

“Qual foi a superioridade moral que permitiu que fossem liquidados em Hiroxima, e nos segundos que se seguiram à explosão, cerca de 80.000 japoneses inocentes? Em Nagazaqui, três dias depois, repetiu-se a dose. Onde está a elevação de muitos dos que andam com a palavra democracia na boca? Onde está a fronteira ente a atrocidade democrática e a atrocidade ditatorial?
A atrocidade do crime já é em si anti-democrático, por muitas justificações e roupagens que mascarem a realidade.
Eu não encontro justificação para a utilização da bomba atómica. E tu?”


Eu li e senti o dedo do Werewolf a exigir-me uma resposta ao seu E tu?. Mas também percebi onde ele queria levar a água deste moinho. Que é, está bem de ver, a diabolização do Império do Mal, metendo, em jogo de aproveitamento e à mistura, bombas atómicas, democracias e ditaduras. Porque para o anti-americanismo, a América ser uma democracia é mesmo uma espinha atravessada na garganta e tudo serve para catar no sentido de escaqueirar esta arreliadora parcela da realidade. Mas os pecados da América são tamanhos que não me parece bem acrescentar-lhe uma falácia.

E é sobre isto que gostaria de lançar algumas achas (convencionais) para a fogueira.

Em termos de bombas, tenho dificuldade em as classificar em aceitáveis e não aceitáveis. Uma bomba serve sempre para destruir e matar. Desde um pequeno morteiro até à bomba de hidrogénio. Um e outra matam. Portanto, são sempre objectos de morte. Assim, perante as bombas, a única atitude pela vida é evitar-se que os meios da morte entrem em acção.

Para quem anda na guerra, em qualquer guerra, a escolha das armas prende-se apenas com a capacidade de aceder a elas, a eficácia letal, a capacidade logística e operacional de as utilizar, os efeitos psicológicos e de propaganda previstos pela sua utilização e a capacidade de retaliação do inimigo. Só não se mata muito se isso não for possível ou se colidir com factores de propaganda. Ou seja, todos os exércitos destroem e matam o mais possível, tão somente limitados dentro destes condicionantes.

O que impressiona no armamento atómico é o espectáculo dantesco do seu instantâneo poder de destruição massivo. E o susto por o génio humano ter chegado a este ponto de eficácia de destruição. Mas, fora estes aspectos culturais e psicológicos, nenhuma outra bomba é melhor que a bomba atómica. Qual a diferença entre uma pessoa feita aos bocados por uma morteirada e as cinzas de um corpo destruído por um míssel nuclear? Quando muito, a nossa capacidade cultural de lidar com a morte e os seus rituais. Para o morto, desculpe-se a frieza, é igual ao litro. Porque a morte é sempre e apenas a morte.

Os americanos chegaram primeiro à bomba atómica. Ganharam a corrida aos nazis que há muito a preparavam. Ganharam também aos soviéticos que a queriam tanto como os americanos e os nazis. E não há nenhuma razão para supor que se os nazis ou os soviéticos tivessem chegado primeiro (e isolados) à tecnologia do seu fabrico, tê-la-iam utilizado para apressarem o alcance da vitória.

E se as únicas bombas atómicas lançadas até hoje foram as que caíram em Hiroshima e Nagasaki, isso deve-se a aspectos diversos:

- Depois de Nagasaki, os soviéticos também construíram armamento atómico (por cópia e através da espionagem) e iniciaram uma fase de paridade, mesmo no justo momento dela vir a ser utilizada na Guerra da Coreia.

- O mundo passou a regular-se por um “equilíbrio do terror atómico” que, muitas vezes por acaso fortuito, nunca foi rompido por nenhum dos lados.

- Este “equilíbrio” esteve diversas vezes à beira de ser quebrado por ambas as partes - em Berlim e em Cuba, pelo menos. No caso cubano, conhece-se hoje bem a reprovação de Fidel que os soviéticos tivessem retirado os mísseis de Cuba, preferindo o ditador que a ilha fosse incinerada desde que uma parte da América também o fosse.

Foi o medo desta bomba que impediu que ela, numa situação de inevitável retaliação, fosse de novo usada após Hiroshima e Nagasaki. A nossa sorte foi o equilíbrio, a paridade e as condicionantes psicológicas sobre o seu uso.

E quanto a este equilíbrio, todas as partes tentaram desequilibrá-lo a seu favor. Para terem vantagem de terror e, muito provavelmente, fazerem com que o armamento atómico voltasse a ser usado. Felizmente, não chegámos aí. Sobretudo, porque Gorbatchov cedeu. E o mundo ficou unipolar e, curiosamente, menos perigoso.

Só a nível da propaganda se entende que o “mal atómico” caia, com todo o seu odioso, sobre as costas da América. Hiroshima e Nagasaki foram enormes tragédias que arrepiam a sensibilidade humana. Mas até por isso, pelas vítimas, não se deve manipular os factos. A URSS não lançou essas bombas sobre os japoneses por duas simples razões: primeiro, ainda não tinha armas atómicas; segundo, no final da II Guerra Mundial, o Japão não atacou a URSS e concentrou-se no combate aos americanos. E quando a URSS chegou à bomba atómica, a II Guerra Mundial já tinha terminado e o seu inimigo “frio” passou a ser aquele que tinha sido o aliado de véspera.

Alguns ainda se lembrarão da enorme “campanha pacifista” dos anos setenta contra a instalação de mísseis Cruzeiro na Europa. A mobilização desta campanha teve, como suporte principal, a exploração do medo da opinião pública de que esses mísseis tornassem as democracias ocidentais em alvos dos mísseis nucleares soviéticos. Quando os tais “maus mísseis americanos” não representavam mais do que a reposição do equilíbrio nuclear europeu em virtude dos soviéticos terem instalado, na parte oriental, os SAM com capacidade para destruir toda a parte ocidental da Europa! Mas os SAM eram “bons mísseis soviéticos”, está bem de ver.

No meu entender, as bombas sobre Hiroshima e Nagasaki não foram péssimas por terem sido americanas, foram-no por terem sido bombas.
publicado por João Tunes às 01:07
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7 comentários:
De Werewwolf a 12 de Agosto de 2004 às 21:43
Falamos tanto da da bomba atómica e porque não falamos do bombardeamento aliado de Dresden? Ou do desembarque na Normandia que causou mais vítimas nos civis franceses do que nos soldados alemães de aliados juntos.
Já agora será que não se devia ter feito o desembarque na Normandia devido às baixas colaterais? Será que há baixas colaterais que se justificam e outras que não? O problema começa a ficar mais complexo. Os milhões de assassinados às ordens de Estaline valem mais do que os de Hitler, Truman ou Churchill? Conforme o lado em que nos posicionamos uns são heróis e outros criminosos?
Da minha parte estão todos em pé de igualdade e não é por se afirmarem democratas que, quando têm a força nas mãos, deixam de se comportar como algozes. Ser democrata é ser realmente diferente e não supostamente diferente. Abraço.


De Werewolf a 12 de Agosto de 2004 às 21:33
João creio que interpretou muito mal o meu texto. Em primeiro lugar não sou nem nunca fui comprometido com algum movimento que tivessa veleidades de ser o detentor da verdade; em segundo lugar rejeito totalmente a teoria do imoério do bem versus império do mal (sejam eles quais forem), até porque o bem e o mal está dentro de nós e a sua fronteira é tão ténue quanto o fio da navalha.
No meu post limitei-me a constatar um facto e a interrogar-me se haveria alguma coisa que o justicasse, esta discussão não é nova e na altura surgiram correntes que defenderam uma e outra posição, curiosamente algumas das vozes mais avalizadas contra a utilização da bomba atómica foram proferidas por alguns americanos profundamente "anti-americanos".
Não duvido que se tivessem sido outros a chegar primeiro ao fabrico da BA não hesitariam em utilizá-la, particularmente os alemães que estavam mais desesperados e avançados nas suas investigações, mas eu só posso analisar factos, não suposições.
Não há boas ou más bombas, a atómica só é pior pelo grau de devastação que provoca, por isso não defendo a utilização de outras bombas em vez das atómicas.
Nunca o meu pensamento este comprometido com nenhuma organização política, nunca militei em lado nenhum, apenas militei, e milito, de forma espontânea, desorganizada, individual e anárquica na defesa dos direitos do homem e da liberdade, As minhas opções vão sendo tomadas caso a caso independentemente de coincidirem com este ou com aquele.
Pronto, já desabafei um pouco, Abraço meu caro João.


De Joo a 12 de Agosto de 2004 às 16:36
Caro Carlos, os seus argumentos têm o peso do quase óbvio e estou, no essencial de acordo com eles e se ler o que escrevi, mutatis mutandi, está lá. A única diferença visível é que eu não concentro "culpas" num dos lados - o lado que hoje, por questões de antipatia geopolítica, interessará para efeitos de propaganda. O bombardeamento de populações civis é uma das tragédias das guerras do Século XX. Guernica, pela experiência do seu horror e pelos seus efeitos, foi o começo de uma série que, depois, foi usada por todos os contendores quando calhou. Sem excepção. Usaram-na os nazis e os italianos na Abissínia. Usaram-no os ingleses, americanos e soviéticos contra a Alemanha Nazi. Colónia e Dresden foram bombardeadas pelos anglo-americanos já com os nazis praticamente derrotados e causaram centenas de milhares de mortos entre a população civil. Berlim foi arrasada pelos soviéticos com os nazis ainda mais enfraquecidos e morreram nos escombros da capital alemã velhos, mulheres e crianças na ordem das centenas de milhar (mais que em Hiroshima e em Nagasaki). Depois, os americanos bombardearam Hanói e os soviéticos arrasaram cidades, vilas e aldeias afegãs que estavam habitadas. E os portugueses, nos treze anos de guerra colonial, sempre utilizaram como meio de combate mais poderoso o bombardeamento de civis africanos (dentro e fora fronteiras), incluindo o uso do heli-canhão que permitia que se fizesse "tiro ao alvo" sobre civis suspeitos de apoiarem a guerrilha. Mais recentemente, os americanos bombardearam Bagdad por mais de uma vez. Porque não têm a mesma força do símbolo de horror associado a Hiroshima e Nagasaki? Porque a nossa indignação distingue entre a bomba atómica e as outras bombas. Porquê? Porque a bomba atómica é mais forte no impacto psicológico do espectáculo massivo da destruição e da morte? Porque fomos perdendo a sensibilidade para com as mortes de civis bombardeados pelas bombas convencionais? E a ser assim, não estamos a enfraquecer o sentido de indignação e de recusa da guerra, a guerra como meio de resolver conflitos, sujeitando-a ao crivo dos meios utilizados para fazer a guerra? Não estamos, por sensibilidade e por psicologia, a aceitar, de facto, que há guerras mais indecentes que outras? Pois não estou nessa, para mim a guerra é um mal em si. Porque um afegão, um alemão, um japonês, um iraquiano ou um espanhol, quando morto é apenas e sempre um morto. Bombardeado com bomba de sopro, de fragmentos ou com ogiva nuclear. Recuso a morte, não sou selectivo através da apreciação da tecnologia de provocar a morte.


De Carlos a 12 de Agosto de 2004 às 14:30
Nada justifica uma resposta deste tipo. Matar milhares de inocentes num ataque cobarde. Por acaso foram os americanos que utilizaram as bombas mas fosse qual fosse a nação teria a minha reprovação. O regime japonês era fascista e imperialista e aliada ao regime nazi, mas na minha opinião é inconcebivel que alguém encontre uma justificação racional para o lançamento das bombas nucleares sobre o japão. Não se trata aqui de maus e de bons, nas guerras não existem bons, todos matam para nao morrer, mas esta mancha negra na historia da civilização foi de mais uma coisa monstruosa que espero que nunca mais se repita. Pois continuo com a minha que não é a matar inocentes e com bombas que se resolvem as guerras e entristece-me muito ver que foi mesmo assim que a guerra mundial acabou. Têm de haver outros meios. É verdade que os japoneses declararam guerra atacando os americanos, mas como resposta os americanos cometendo um acto destes, na minha opinião, é de uma brutalidade sem precedentes, que naturalmente deveria ter sido julgada, mas ao invés, todos ficaram contentes porque a guerra acabou e afinal de contas quem morreu foram os milhares de japoneses, os que eram maus da fita porque tiveram o azar de nascer japoneses liderados pelo regime fascista... Não encontrem explicações razoaveis para o que se passou em 45 em hiroshima e nagasaki, temos é de aprender com os erros e saber que nao é assim que se devem resolver os problemas, independentemente dos ataques que se possam sofrer, o alvo do contra-ataque nunca pode ser as pessoas inocentes.


De Joo a 12 de Agosto de 2004 às 13:18
O Daniel tem toda a razão na sua última frase. Mas podia continuar e explicar sobre "o quê" é que aquela democracia (em guerra!) lançou as bombas. Sobre uma ditadura imperial e fascista, expansionista, aliada de Hitler, que declarou guerra e atacou a América (foi o Japão que declarou guerra aos EUA e assim o forçou a entrar na guerra), que recusou render-se mesmo depois da Alemanha nazi o ter feito. Ao prolongar uma guerra perdida, os fascistas japoneses quiseram hara-kiri, matando e morrendo, arrastando o seu povo para o suicídio fanático, fazendo de cada japonês um kamikaze, sabendo que o "inimigo" possuía a bomba atómica. Hiroshima e Nagasaki foram grandes tragédias mas serviram para parar a tragédia do prolongamento da guerra. Provavelmente, as vítimas não seriam as mesmas, mas com a guerra a prolongar-se poderia igualar ou ultrapassar o número de vítimas. O que impressiona é que, assim, as vítimas da guerra foram por atacado (e pouparam-se baixas americanas, é claro). Se há culpas americanas pelo uso das bombas, elas têm de ser repartidas com os fascistas japoneses que provocaram a guerra e que só desta maneira se renderam. As bombas eram americanas mas o alvo foi criado e oferecido pelos fascistas japoneses. Não concordo que Hiroshima e Nagasaki seja uma estória de "bons japoneses" que foram vítimas de "maus americanos". Numa guerra não há bons, por isso a única coisa boa numa guerra é ela nunca começar. E ao lado das vítimas de Hiroshima e Hagasaki não se pode olvidar o ainda maior número de vítimas provocadas pelos japoneses (sobretudo coreanos, chineses e outros povos asiáticos). Hiroshima e Nagasaki são sobretudo problemas de lidar com símbolos, símbolos de morte no caso e que é terrível. E a propaganda que bem que aproveitou este símbolo. Obrigado pelo contributo que ajudou a prolongar a conversa.


De IO a 12 de Agosto de 2004 às 10:04
"No meu entender, as bombas sobre Hiroshima e Nagasaki não foram péssimas por terem sido americanas, foram-no por terem sido bombas" _ assino em baixo.


De daniel tecelo a 12 de Agosto de 2004 às 01:41
O mundo ficou unipolar,e curiosamente mais perigoso.
O equilibrio era e a paridade foi.
Podemos especular até ao tutano,mas os factos são:
As unicas bombas atómicas lançadas até hoje,caíram em Hiroshima e Nagasaki,e foram lançadas por uma democracia.


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