Sexta-feira, 13 de Agosto de 2004

UMA VELHA E NOVA QUESTÃO

horadapapinha.jpg

Em comentários colocados neste blogue e com diferentes propósitos, apanhei estas duas frases lapidares:

- “Para lá da formalidade da democracia política existe a imposição da ditadura económica.” (diagnóstico do Werewolf)

- “A questão central que hoje a esquerda europeia e americana não-alinhada discutem é a alternativa ao regime. Por isso tanto se fala hoje (excepto em Portugal, está claro) em democratizar a democracia, na participação directa dos cidadãos, em democracia e economia participativa.” (remédio do Anátema)

Elas exprimem ideias que me interessam discutir, na medida em que resultam de uma insatisfação, que partilho, sobre o estado democrático das coisas.

O Werewolf levanta a questão da supremacia do económico sobre o político nos regimes democráticos, parecendo-me que ele acha que isso os reduz a “formalidades”. O Anátema aponta uma alternativa consubstanciada em “democracia e economia participativas”.

A questão é velha mas sempre actual. E como nunca teve solução satisfatória, volta à baila, volta e meia.

O lamento do Werewolf entende-se mas não passa de mera constatação de uma situação de facto. E se não se contesta a democracia política (mesmo entalada nos limites da representação de participação), então a volta a dar estará em “democratizar a economia”. E aqui, não se vê como é que a “democratização económica” possa ser feita fora do quadro político. Logo, todos os problemas (“políticos” e “económicos”) são apenas “problemas políticos”. Então, penso, a dualidade levantada é uma falsa questão, havendo apenas que “vender ideias” e, depois, tentar ganhar votos. Correndo o risco de que a maioria queira manter o “status quo”. A menos que se defenda a superação da dualidade contraditória, através de uma revolução. Mas isso muda a questão. Porque uma revolução não se discute, faz-se ou não se faz.

Já quanto às ideias do Anátema, elas relevam o contraditório das utopias. E uma utopia, como a fé, não se discute, confia-se nela ou não. A ideia de “democratizar a democracia” é tão simpática quanto oca para os não fiéis. Mas percebe-se melhor quando ela é apontada como uma espécie de “alternativa ao regime” e que passa pela substituição da “democracia representativa” pela “democracia participativa” e apear o aparelho económico existente, substituindo-o por uma “economia participativa”. Soam como ideias do PREC, e se hoje não se discutem no nosso país já se discutiram e muito. Mais, tentou-se e esboçou-se a sua concretização. E aqui, a revolução já não é uma hipótese de superação mas uma condição inevitável. Então a “participação na economia” não exige voltar-se à estaca zero quanto à apropriação dos meios de produção?

Ideias interessantes sem dúvida. Mas era bom que falassem claro. A não ser que “revolução” também caiba no conceito de “democracia”. E se queira uma “revolução democrática”. Obra para revolucionários, não para democratas. Melhor, luta de classes como motor da história. Ou dito de outro modo: democracia avançada no Século XXI com meios defendidos nas querelas do Século XIX. Mas então o Século XX não ensinou nada? Fim de provocação.

O Carlos comentou este post:

"Se há algo que o "Séc. XX" me ensinou, é que por vezes há gerações que dizem 'não', e então a utopia sonhada onanisticamente torna-se sonho colectivo. A "ditadura económica" de que fala o Werewolf poderá submergir esse devaneio revolucionário, mas, enquanto ele subsiste, sabe (soube) bem partilhar um imaginário social com o dia-a-dia, então extraordinariamente colorido. Mas isto é um comentário lateral que está a omitir a questão central: que reforma é possível neste espartilho doutros interesses que manietam a democracia representativa. É o 'clubismo' associado à massificação ideológica que permitem a repetição 'ad eternum' de campanhas empolgadas e resultados insatisfatórios? É a 'classe política' que, corporativamente, alonga e ameaça perpetuar o distanciamento entre eleitos e eleitores, governantes e governados, em fac-símile de relação contratual de trabalho? Palermices que eu pensei ao ler a questão aqui colocada. Mas parei a recordar quando o sonho foi rei, e não me desagradou inteiramente essa memória. Penso que é cíclico, e há gerações que são motores de transformação social. Eu fui um privilegiado em viver duas revoluções, simultâneas. Ambas soçobraram no mais puro dos seus ideais mas foi bom vivê-las, e frutos geraram. A próxima, que dá sinais de urgir, que aproveite o positivo herdado, que solte o sonho de novo mas que tenha presente a força da economia, para que afaste a opção desta pela 'ditadura' de que nos queixamos. Isto é pragmatismo duma idade que trouxe inevitável desilusão ideológica de matiz radical, ie, revolucionária no sentido generalizado de profunda revolução social. Mas que o sonho persiste, isso..."
publicado por João Tunes às 17:35
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2 comentários:
De Carlos a 15 de Agosto de 2004 às 18:00
Se há algo que o "Séc. XX" me ensinou, é que por vezes há gerações que dizem 'não', e então a utopia sonhada onanisticamente torna-se sonho colectivo. A "ditadura económica" de que fala o Werewolf poderá submergir esse devaneio revolucionário, mas, enquanto ele subsiste, sabe (soube) bem partilhar um imaginário social com o dia-a-dia, então extraordinariamente colorido.
Mas isto é um comentário lateral que está a omitir a questão central: que reforma é possível neste espartilho doutros interesses que manietam a democracia representativa. É o 'clubismo' associado à massificação ideológica que permitem a repetição 'ab eternum' de campanhas empolgadas e resultados insatisfatórios? É a 'classe política' que, corporativamente, alonga e ameaça perpetuar o distanciamento entre eleitos e eleitores, governantes e governados, em fac-símile de relação contratual de trabalho?
Palermices que eu pensei ao ler a questão aqui colocada. Mas parei a recordar quando o sonho foi rei, e não me desagradou inteiramente essa memória. Penso que é cíclico, e há gerações que são motores de transformação social. Eu fui um priviligeado em viver duas revoluções, simultâneas. Ambas soçobraram no mais puro dos seus ideais mas foi bom vivê-las, e frutos geraram. A próxima, que dá sinais de urgir, que aproveite o positivo herdado, que solte o sonho de novo mas que tenha presente a força da economia, para que afaste a opção desta pela 'ditadura' de que nos queixamos. Isto é pragmatismo duma idade que trouxe inevitável desilusão ideológica de matiz radical, ie, revolucionária no sentido generalizado de profunda revolução social. Mas que o sonho persiste, isso...


De Werewolf a 13 de Agosto de 2004 às 17:56
Poderá estar aqui o início de mais um animado debate. Não acham?


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