Segunda-feira, 22 de Novembro de 2004

ESPANHA – GUERRA CIVIL (4)

Espanha4.JPG

OS SINAIS DE UMA GUERRA CIVIL

Um dos aspectos que mais me impressionou na leitura de “La última Batalla, Derrota de la República en el Ebro” ( por Kim Amor I Sagués, Edições Oberon), prende-se com a reconstituição da vida dos sobreviventes civis das vilas e aldeias onde se desenrolaram os violentos combates da batalha do Ebro em 1938 (abrangendo meia dúzia de localidades na margem direita e em que a mais importante era e é Gandesa, quase em linha recta a sul de Lleida e não muito longe desta cidade catalã).

A zona era habitada por gente vivendo da agricultura. Tratando-se de uma zona montanhosa e pedregosa, os cultivos eram à base de vinha, oliveira, amendoeira e avelaneira. Nos vales junto ao rio, cultivava-se milho e produtos hortícolas. Mal dava para a subsistência, mas ia-se vivendo. Com a violência dos combates, a população (algumas centenas de velhos, inválidos, mulheres e crianças pequenas) que não estava em condições de pegar em armas, e que não fugiu para a margem esquerda, refugiou-se em buracos, cavernas, túneis e casas de gado dispersas, sobrevivendo, os que sobreviveram, a alimentar-se de ratos, raízes e alimentos silvestres. Aí estiveram encafuados os quatro meses que durou a refrega, enquanto as suas casas eram reduzidas a ruínas e os campos dizimados pela metralha saída da artilharia e dos aviões. No final, praticamente não sobrou uma casa e uma árvore em pé. E os campos ficaram inaptos para a agricultura, ardidos, pisados por pés, tanques e peças de artilharia, retalhados por trincheiras e repletos de metralha, munições não deflagradas e cadáveres, muitos cadáveres. Praticamente não sobrou um palmo de terra para cavar e plantar. Sem casas e sem meios de subsistência, aquelas centenas de desgraçados tiveram de recomeçar as suas vidas abaixo de zero.

Como sobreviver no pós-guerra? Dadas as carências industriais da Espanha destruída, a sucata era um bem procurado e valorizado como matéria-prima para a recomposição da indústria siderúrgica. Então, aqueles agricultores passaram uns bons dez anos reconvertidos em recolhedores de sucata. Os homens (muitos deles, guerreiros sobreviventes, regressados com o fim da guerra) saiam para os campos, cavavam, cavavam e iam amontoando projécteis, estilhaços e restos de blindados, veículos e armamento, enquanto iam empurrando os cadáveres para o lado. Depois, vinham as mulheres e as crianças com cestos a recolher a “colheita” que era depositada em armazéns e depois vendida a sucateiros que a recolhiam mediante pagamentos mais ou menos simbólicos mas que assegurava a sobrevivência e a reconstituição dos seus suportes gregários. Muitos dos recolhedores de sucata (sobretudo crianças) foram despedaçados por projécteis que não tinham deflagrado durante a batalha. Foi essa a base de reconstituição das vidas daquelas gentes, até que a agricultura pudesse retomar as suas raízes. “Ir a lo hierro” chamavam eles à sua nova actividade. Uma actividade vivendo dos despojos da morte de cem mil espanhóis na Batalha do Ebro. Porque a morte continuou muito para além do fim da guerra. Aliás, a morte da Guerra Civil de Espanha, continua ainda hoje através da morte da memória, assassinada em cada dia mais de “esquecimento”.

(na foto, uma imagem da Batalha do Ebro)
publicado por João Tunes às 16:36
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