Sexta-feira, 13 de Fevereiro de 2004

UMA LEITURA E DOIS ANDAMENTOS

PRIMEIRO - MARIA EUGÉNIA VARELA GOMES

Uma mulher excepcional. Uma vida excepcional. Talvez sintetizável na imagem de um vulcão feito vida. Vida de luta, sofrimento, luta. Uma indomada e indomável. De uma clareza e frontalidade absolutas. Concorde-se ou não com todos os seus olhares sobre a sociedade e a política.

Conhecer o percurso da vida de Maria Eugénia Varela Gomes será uma forma simples e directa de saber o que foi o fascismo português, lido do lado dos que se lhe opuseram. Para mais, ela foi uma lutadora permanente sem nunca ter sido, por não ter querido ser, uma mulher de Partido.

O livro CONTRA VENTOS E MARÉS, Edição Campo das Letras, é um depoimento de enorme interesse. Escrito a "duas mãos", entremeando notas autobiográficas com uma entrevista conduzida por Maria Manuela Cruzeiro. Recomendo-o vivamente a todos aqueles que acreditam que, entre as portuguesas, há grandes mulheres.

SEGUNDO - CHAPI VARELA GOMES

Uma pessoa arranja amigos, quando arranja, sem saber como nem porquê. Engrena-se e pronto, nasce a empatia e a cumplicidade.

Fiz um amigo em casa de outro amigo. Era um homem de silêncios que vivia sobretudo do olhar vivo e atento. Apagava-se no grupo. A gaguez não ajudava, pelo contrário. A sua timidez era ostensiva. No grupo numeroso de convívio, deu-nos para a simpatia um pelo outro. Sem alardes, nem efusões, nem sufocos de presenças. Na maior parte das vezes, o grupo seguia a sua dinâmica convivial e nós íamos para um canto trocar as nossas sentenças. Embora ele fosse quase da outra geração a seguir à minha, parecia que tínhamos andado juntos desde a escola primária, tal a cumplicidade dos códigos da comunicação e do sentir.

Engenheiro de Máquinas, era um técnico perfeccionista e altamente politizado. Permanentemente insatisfeito consigo e com os projectos em que se envolvia e que permanentemente fazia e refazia. Inquieto, sempre inquieto. Tentei ajudá-lo a encontrar um rumo profissional mais consistente mas ele parecia preferir andar de desconsolo em desconsolo.

Encontrava-o sobretudo nas idas ao mercado para os abastecimentos de frutas e hortaliças. Normalmente, ele por ali andava com o seu filho pequeno, dando as suas voltas. Quando nos víamos, o tempo e os objectivos paravam, a conversa desfiava-se solta sobre tudo e sobre nada. Era um radical e um pão pão queijo queijo. Parecia-me ouvir, atrás das suas falas, o discurso conhecido, radical e frontal, do Pai. Criámos e desenvolvemos um afecto sem agenda e que se resumia a conversas soltas nas voltas dos encontros de vizinhança em que ambos os nossos olhares se iluminavam pelo gosto da presença do outro. Umas alturas, encontrávamo-nos com alguma frequência, noutras só nos víamos muito espaçadamente.

De repente, a notícia e o murro. O Chapi Varela Gomes tinha-se suicidado, pendurando-se numa árvore da Serra de Sintra. Ficou-me uma dor funda de um bom amigo perdido nos mistérios da vida.

Agora leio o livro da sua Mãe e aprendo porque perdi este amigo. Maria Eugénia Varela Gomes não foge a enfrentar a sua perda e diz:

"Tinha que ser. E ele também sabia que eu sabia. Sabíamos ambos porque ele era parecido muito comigo. Só tinha uma coisa, é que eu - talvez porque muita gente me bateu - habituei-me a reagir e a dizer: -Não sou tão má como vocês me fazem-; e ganhei um certo treino e acabei por, melhor ou pior, gostar um bocadinho de mim. Mas o meu filho não gostava nada dele. E para viver é preciso gostar um bocadinho de si próprio..."

Perceber o Chapi só aumentou a minha saudade da sua amizade. Inútil, eu sei. Não, não sei. Sei lá o que sei. Sei que a vida às vezes é uma grande merda.
publicado por João Tunes às 11:19
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