Sexta-feira, 13 de Fevereiro de 2004

A PAZ QUE VEIO POR CAUSA DE UM QUARTEL NO MEIO DA FÁBRICA

O longo caminho junto à muralha que dava para o Tejo era sítio preferido pela miudagem nas suas formas próprias de entreter o tempo e inventar aventuras. O baixo casario em fieira corrida concedia um amplo espaço em terra e erva brava para todas as guerras de índios e futeboladas em que cada um se sentia o José Augusto ou o Faia. Para mais, um moinho antigo mas conservado estava ali prontinho para inspirar fantasias quixotescas.

Vinha-se em bando deste a Igreja da Senhora do Rosário e só se parava depois de passar a Igreja Matriz no Arco Casal e então era tempo de pausa a olhar o cais sempre cheio de enormes barcos a despejar minérios para as fábricas da CUF e a levar sacos e mais sacos de adubos para fertilizar roças coloniais. Uma estirada pela marginal do Barreiro dava e sobrava para se chegar ao fim com vontade de ir para casa matar sedes e afagar o estômago. O dia já estava ganho.

Seguir mais adiante, mesmo quando vontade sobrava, raramente calhava. Depois de se estar cheio de água do Tejo por dentro dos olhos e as botas escalavradas recheadas de pés doridos a pedirem descanso, ali na fronteira entre a vila e a Fábrica, pouca vontade havia de entrar na zona negra de pó e fumo.

Mas uma vez ou outra, em que os ímpetos estavam mais afoitos e com pouca vontade de desmanchar a tribo, lá íamos pela estrada incrustada dentro da Fábrica até ao Bairro Operário disputar território a outras maltas. No nosso maniqueísmo tribal, a marginal era nossa, a malta do Barreirense, enquanto a garotada do Bairro Operário só podia estar enfeudada ao rival Desportivo da CUF. Nós éramos vermelhos e bons, os outros eram verdes e não valiam um caracol. Não tinha nada que saber.

A estrada que retalhava a Fábrica era atravessada, a meio, por uma linha férrea de via reduzida por onde se levavam e traziam produtos entre o armazém e o cais. O movimento de comboios de mercadorias era constante pelo que a incursão tinha o aliciante suplementar de nos encher os olhos com o mistério que vinha à mistura com o vapor das locomotivas.

Passada a linha férrea, erguia-se, num dos lados e integrando as instalações da CUF, um enorme quartel da GNR com sentinelas diligentes e espingardas a tiracolo. Demorou tempo até que entendesse o que fazia aquele enorme Quartel metido dentro de uma Fábrica. Se ali se trabalhava, os guardas vigiariam os fumos e os adubos? Se a população vivia dos dois lados da Fábrica, e, em princípio, seria aí que os meliantes fariam das suas, porque raio os gnrs se encafuavam no meio dos sacos de adubo?

Era a idade da inocência. Faltava-me saber que, ali na Fábrica, a malta enfarruscada que punha a Fábrica a deitar fumo, uma vez por outra, também fazia greve. E isso era coisa tão grave que se tratava primeiro à coronhada, depois em arrastos, por levas, para os cabecilhas serem entregues à PIDE.

Quando me explicaram a razão porque havia um Quartel plantado no meio da Fábrica e passei a notícia aos da minha tribo, todo o bando ganhou respeito pelos adversários do Bairro Operário. Decidimos que não era justo afrontá-los mais. Bastavam e sobravam os olhares aterrorizadores dos gajos da espingarda ao ombro. Claro que não podíamos ficar com a fama de cobardolas e a justificação que demos para nós próprios foi que afinal a rapaziada do Bairro Operário também era do Barreirense. Ora a malta do mesmo Clube não anda à batatada uns aos outros.
publicado por João Tunes às 11:43
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