Sexta-feira, 13 de Fevereiro de 2004

CONTRIBUTO PARA UMA REFLEXÃO PELA ESQUERDA

Pode nem parecer mas uma sucessão de eleições estão aí à porta.

Numa perspectiva de esquerda, as coisas, provavelmente, nunca estiveram tão turvas nos prolegómenos do momento da escolha.

Exactamente na altura em que a inépcia da direita raramente terá oferecido tantas possibilidades de alternância e em que ressalta o sufoco do PSD em libertar-se do abraço fétido da extrema-direita à Portas.

O PCP segue, inexorável, o triste caminhar outonal da decadência lenta, não querendo mudar. Porque sabe que, se muda, apaga-se ainda mais depressa. É um peditório de política triste e previsível que só merece o respeito porque algumas das suas bandeiras que vão caindo não deviam apodrecer no chão.

O PS está preso duma cegueira que o leva a uma existência virtual. A liderança finge que existe mas tenta que os seus gritos não pareçam demasiado gritantes para que lhes esqueçam as asneiras não emendadas. Desde as argoladas (politicamente graves e irrecuperáveis) do caso Casa Pia que o PS ficou sem líder de facto. E o que lhe vai valendo, mas custando caro, é o arreganho do Dr. Soares, de novo transformado em pai e protector do PS. Ferro Rodrigues ficará para sempre como responsável de não ter a capacidade de se libertar do sentimento de posse sobre o Partido que dirige, arrastando-o na sua incapacidade de lidar com dramas pessoais, politizando-os. Provavelmente, a esta forma de apego ao Partido e de o confundir com as causas e os dramas dos seus responsáveis, não será estranha a cultura de irmandade introduzida pela sua fortíssima componente masson em que as solidariedades internas sobrelevam a solidariedade para com os que sofrem os efeitos da política neo-liberal.

O Bloco de Esquerda terá a oportunidade de ter o seu melhor resultado. Sem que isso represente grande mérito político dos bloquistas. Trata-se, apenas, de recolher as sobras dos desencantos, no PCP e no PS. A menos que haja capacidade de abrir, na esquerda, uma invenção política com um projecto de governar e gerir a mudança, o Bloco será aquilo que é mais característico dos seus bloqueios bloquistas e daí não passará. Ou seja, enquanto a matriz do domínio trotzkista não se diluir, o BE continuar a ser um albergue dos gays e não houver capacidade de assumir responsabilidades de governar em substituição da cultura do protesto.

Prevejo que o reposicionamento da esquerda passará pela eventual confluência de dinâmicas próprias no PS e no BE. E, talvez, pelo papel que a esquerda social (CGTP e UGT) queira jogar nesta reconstrução de caminhos políticos, dependendo da capacidade de resistência a esta fusão social-político por parte da corrente estalinista-obreirista da CGTP (que quererá que a CGTP mantenha a função de ser uma cortina que oculte a decadência do PCP) e do peso da componente PSD para manter a UGT na zona amarela.
publicado por João Tunes às 11:55
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