Sexta-feira, 13 de Fevereiro de 2004

VIAGEM AO BARREIRO

No quadro da concentração industrial proteccionista adoptada por Salazar, Alfredo da Silva obteve a fatia gorda da indústria química. E foi no Barreiro que instalou o seu império fabril.

Terra pacata de fragateiros e outros dolentes misteres de gente vivendo do rio, o Barreiro transformou-se na maior concentração fabril do país. Os perfis dos mastros das fragatas ribeirinhas ancoradas e de velas recolhidas cederam o seu contraste, nos céus do Tejo, às chaminés fumarentas. As primeiras vítimas terão sido as gaivotas que se encheram de ódios justos para com a fumarada agressiva e rumaram a novos poisos.

O império CUF foi crescendo e transformou-se no maior gigante industrial de Portugal. Estreitamente aninhado no proteccionismo estatal, costas livres das facadas da concorrência, estreitamente ligado à rapina das matérias coloniais e à exploração das pirites alentejanas, o morgadio industrial implantado por Alfredo da Silva e legado à família Mello, tornou-se no principal monopólio da estrutura económica do Estado Novo.

As actividades do império CUF não pararam de crescer e foram-se diversificando em actividades que estavam presentes em quase todas as actividades chave. A cereja no cimo do bolo foi a sua posição bancária (Totta) que transformou o grupo no mais poderoso barão da concentração económico-financeira.

Os fragateiros sem fragatas e deserdados da companhia das gaivotas não chegavam para prover a imensa sofreguidão de mão-de-obra que a industrialização do Barreiro exigia. Numa época de trabalho operário intensivo e extensivo, uma numerosa classe operária era necessária e enquanto o diabo esfregasse um olho. O Alentejo dos deserdados de terra e feudalizados pelos lavradores de cortiça e trigo, com hectares de terra a perder de vista e cuja extensão só tinha comparação com a preguiça dos donos e a sofreguidão de estroinarem os ganhos, estava ali mesmo à mão de semear. Foi do Alentejo que veio a grande massa operária de camponeses rapidamente transformados em alimentadores de fornos e das suas labaredas. Vieram aos magotes, ansiosos em apagarem a memória das fomes passadas. E das praças da jorna transitaram, deslumbrados, para uma nova identidade que forjaram num estar, sentir e ser barreirense que foi perdendo a sua matriz fragateira para se transformar num bastião do Grande Monopólio e de sentido de pertença proletária.

Os novos povoadores do Barreiro não deixaram adormecer as suas mãos de luta e de protesto, calejadas que estavam pelo hábito da resistência contra a fome imposta pelos terratenentes. Rapidamente, sentiram que de uma exploração tinham passado para outra. Então, como se fosse um destino traçado, o Barreiro tornou-se no principal bastião da luta operária. Foi a contra-senha da benesse salazarista dado aos Mellos. A vila operária passou a viver numa assanhada dicotomia, com altos e baixos: os Avantes nos bolsos da ganga dos operários, a GNR e a Pide a vigiarem pelo sossego dos lucros patronais.

O desenvolvimento industrial fez crescer o Barreiro, rapidamente tornado porto de abrigo de muitas gentes sedentas de trabalho.

O desenvolvimento das fábricas da CUF e as inovações tecnológicas impuseram um novo tipo de proletariado mais apto e mais produtivo que a primeira legião de camponeses importados. O Ministério da Educação adaptou-se aos desígnios da CUF para fabricar uma segunda geração de produtores. Liceu era para formar gente destinada a mandar, o Barreiro não necessitava disso, os quadros importavam-se onde os houvesse. O Barreiro não teve direito a ter um Liceu. O que o Barreiro precisava era de operários ali à mão, se possível educados, desde pequenos, no culto do império industrial. Assim foi criada a gigantesca (para a época) Escola Industrial e Comercial Alfredo da Silva (o nome era uma marca). Ali se formou a segunda geração de mão-de-obra, em cursos de serralheiros, analistas químicos e amanuenses. O Estado formava, a CUF recrutava. O círculo ideológico de osmose entre o fascismo e os monopólios fechava-se em todas as suas partes.

A democracia trouxe as bandeiras vermelhas para as ruas para se agitarem ao ritmo da brisa ribeirinha. Com a afirmação comunista, veio o sectarismo estremado como que a querer recuperar gritos engolidos durante décadas. O punho erguido fez preguiçar o pensamento político. O império CUF tornou-se num anacronismo impossível de adaptar às novas regras da economia.

Hoje, o velho Barreiro não existe mais ou somente perdura em algumas memórias. As fábricas foram, na sua maioria, comidas pela ferrugem. O Barreiro tornou-se um dormitório e passou a Cidade. O ensino secundário está unificado. A marginal virada para o Tejo lá está e mais bonita, mas quando se calam os sons dos passos das lentas passeatas dos operários reformados nos seus rituais de conservação da memória, o barulho faz-se ouvir pelas frestas da movida em bares e discotecas. O PS é maioritário na Câmara Municipal. O Barreirense anda pela II Divisão B.

Quase tudo mudou. Como tinha de ser. Ficou a vista esplêndida sobre Lisboa através do Mar da Palha porque ainda não se lembraram de enxertar prédios no meio do rio. E as gaivotas, enxutos os fumos ácidos, regressaram ao Barreiro. Só que andam atordoadas na escolha dos poisos. Provavelmente incomodadas com o barulho de uma aldeia agigantada em cidade e com dificuldade em carpirem a saudade dos mastros das fragatas pré-industriais.
publicado por João Tunes às 11:57
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2 comentários:
De Joo a 17 de Fevereiro de 2004 às 22:53
O ego andava embaciado sem a sua companhia e o seu incentivo. Obrigado pelo afago. Vamos á luta. Beijo amigo.


De Isabel a 17 de Fevereiro de 2004 às 13:44
Caro João,

Lindo. Aí está a história resumida da minha terra, com o final menos feliz. São as voltas do progresso que nem sempre avança no sentido que queríamos. Fica-me na memória as lições de vida recebidas de uma terra viva feita de pessoas simples.
Infelizmente estive afastada do blog quase uma semana. Adoro esta nova casa - está linda, bem arranjada e com imagens!!!!
Parabéns!!!!
Um beijo amigo
Isabel



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