Sexta-feira, 5 de Março de 2004

UMA GATA QUE FALTOU AO RESPEITO AO POETA

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O José Teixeira, ilustre cultivador da língua portuguesa em terras do campesinato, do operariado, dos pequenos e médios comerciantes e industriais e das gloriosas Forças Armadas de Libertação lá em Moçambique, já me tinha enviado por mail esta deliciosa prosa a propósito de um prémio que lhe atribuíram em tempos idos. Ele foi desenterrar o texto como agradecimento irónico a um prémio que aqui a Bota Acima atribuíra ao seu excelente blogue. Na altura, não a publiquei por não ter o necessário visto do autor. Serviu, no entanto, para uma deliciosa e bem educadíssima troca de mails que teve o grande mérito de nos ficarmos a conhecer melhor além do exercício recíproco de vocabulário vernáculo adequado a canastas e chás dançantes. A partir daí, o José Teixeira entrou na lista dos meus estimados blogamigos.

Agora, o José Teixeira resolveu dar o tal texto à estampa e lá aparece a irónica menção à minha modesta Bota. Assim, já dá direito a transcrição por o texto já ter sido tornado público pelo seu autor. Fica também um abraço para o talentoso blogueiro que emite a partir de Maputo.

“Roupa Velha 11: Mensagem

Há alguns anos decidiu o Estado agraciar-me com uma comenda em reconhecimento pelo exercício das elevadas funções de que estive incumbido por estas paragens. Também a iniciativa privada nacional aqui instalada considerou assinalar tamanha actividade, tendo-me então obsequiado com um magnífico exemplar da Mensagem pessoana, polissémica obra para quem vasculha a alma lusa e respectivos Impérios e desencantos, neste caso acoplada aos sonhos do grande Pomar, Júlio este, sete vistas da referida lusitanidade.
Reconhecido e respeitoso nem o livro assinei, evitando macular tal artística iniciativa, assim julgando-me bibliófilo. Apressei-me a depositar a obra na nossa estante Altamira, brilho de qualquer sala pequeno-burguesa, e na qual vamos, como se negligentemente, oferecendo às visitas as reluzentes lombadas acumuladas, ali a intervalarem o nosso altar de antepassados, fotograficamente convocados para defesa da paz e sucessos deste lar.
Há pouco, decerto por razões climáticas, assomou-me o fastio e lá retirei o citado livro para um lento e distraído desfolhar no descanso da varanda sobre o Índico, após o qual lhe dei um indevido abandono, impróprio ao pintor e não menos ao poeta.
Nisto precipitou-se a Gata Joana, personagem moçambicana dominadora desta casa, porventura farta de lusófonas construções ou de heteronómicas mitologias, e, no fervor do seu mui frequente cio, decidiu urinar o belo exemplar, talvez reclamando a sua propriedade, quiçá reclamando-se Ofélia.
Agora, e enquanto o livro seca no sol da varanda, questiono-me. Que fazer à comenda?
Setembro 2001

[sai com um abraço ao blogocompanheiro BotaAcima]”
publicado por João Tunes às 12:49
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