Domingo, 7 de Março de 2004

AGORA GRAMSCI...

gramsci[1].jpg




O José Costa entrou na discussão sobre Trostski e trotsquismo. E trouxe Gramsci à baila. Não tenho argumentos de substância para discordar dele (do José Costa, entenda-se) quando diz:

“O trotskismo, caso fosse aplicado, não podia falhar. Não por qualquer substracto metafísico de razão eterna. Não. Falhava e falharia porque, na génese, não há trotskismo: há, e com pudor, anti-estalinismo.
De facto, sob o capote de Trotski reuniu-se a oposição Marxista-Leninista anti-estalinista, que mais não era do que isso: alinhavam, com efeito, sob chavões culturais, sob posições contraditórias, sob posições lineares ou, extraordinariamente, sob pulsões intelectuais. Mas, do ponto de vista científico, pouco ou nada foi feito - e a prova, tal como refere João Tunes, são os chavões actuais, que pouco oferecem aos postulados materialistas -.
Gramsci, nos anos 20, disse três "coisas curiosas" (entre muitas outras que davam, só por si, para um Blog), que os próprios trotskistas renegaram:
1 - "Neste momento (1925) o povo italiano não luta pela ditadura do proletariado, mas pela democracia. Não compreender isto, é não perceber o significado dos acontecimentos que se verificam ante os nossos olhos";
2 - "Marx é um mestre da vida espiritual e moral, não um pastor armado com um cajado, um Messias que deixou uma série de parábolas cheias de imperativos categóricos, de normas indiscutíveis, absolutas, fora das categorias do tempo e do espaço";
3 - " O que necessitamos é de uma nova Weltanschauung proletária, uma nova cultura integral que tenha as características da massa da Reforma Protestante e do Iluminismo Francês e as características do Classicismo da cultura grega e do Renascimento italiano; uma cultura que sintetize Robespiérre e Kant, uma nova Ordem Mundial."
Ora estas simples frases dizem mais do que o trotskismo todo junto. Mas, e simplesmente porque tal era pretensão, deixam mais por dizer e preencher do que a obra de Trotski inteira.
Esta questão não pode ser subalternizada; Trotski confunde-se com os trotskistas por querer, mas também por saber que a sua obra não tinha autonomia dogmática: limitava-se a tornear, levitando-o, Lenine.
E isto é importante discutir: no ponto charneira, havemos de ler Trotski em banda desenhada (o que até não me repugna) mas ninguém há-de saber que houve caminhos diferentes para a construção do Materialismo Marxista. Só será diferente se houver quem saiba dizer não.”

Temos assunto com pano para mangas, acha o Bota Acima, assim haja vontade de outros darem corda ao tema. Por cá, no meu ponto de vista, o interesse maior sobre o tema estará em saber-se se o bloquismo vai mudar alguma coisa com a recolha à casca do PSR.

Se olharmos para o PT brasileiro, não é difícil ver como vai longe a matriz trotsquista de nascença desde que houve vontade real dos “petistas” em subirem aos cadeirões do poder. E, hoje, Lula e o PT “oficial” vão largando os trostsquistas da hora da sua criação e do seu primeiro crescimento. Talvez porque aquela Igreja mais ou menos ligada à teologia da libertação, há muito que ocupou o papel dos grupúsculos do protesto, contribuindo para a sua institucionalização e o jogo da democracia formal. Mas as realidades políticas e sociais entre os dois países são tão diferentes…
publicado por João Tunes às 23:03
link do post | comentar | favorito
|
4 comentários:
De Joo a 8 de Março de 2004 às 23:08
Utiliza à vontade, caro amigo. Eu até já perdi a esperança de vir a pertencer à Comissão Política do PCP. Falando ainda mais verdade, até já não tenho como certo que ainda viva o suficiente para integrar o Secretariado da Comissão Concelhia de Corroios dos Reformados, Desempregados e Idosos do PCP e que seria a meta política mais conforme com o meu estauto social e político. Abraço.


De Teixeira Pinto a 8 de Março de 2004 às 19:09
"Leninismo sem estalinismo é como dieta alimentar para pôr um coxo a andar" - Brilhante, meu amigo. Acho que um dia utilizarei esta citação. Abraço


De Joo a 8 de Março de 2004 às 15:26
E era possível? A minha resposta é que não. Gramsci foi um "eurocomunista" antes de tempo. Mesmo Togliatti só lhe deu alguma razão na última fase da sua vida depois de esta ter sido quase toda consumida a praticar o kominternismo estalinista. E as águas do PCP (depois da fuga de Cunhal de Peniche) sempre foram navegadas no primeiro Togliatti porque quanto ao último Togliatti e as suas sucessores, sabe-se o que a casa gastou. Li Gramsci na minha juventude e tive por ele algum fascínio e lembro-me bem como era olhado de lado por causa disso. Gostar de Gramsci era parecido com simpatizar com Piteira Santos ou com Fogaça. E, mais uma vez, era o PCP que tinha razão. Porque o estalinismo, a meu ver, nunca foi uma deformação do leninismo, pelo contrário foi a sua continuidade na lógica perfeita da luta pelo poder e da sua conservação. Leninismo sem estalinismo é como dieta alimentar para pôr um coxo a andar. Penso eu. Abraço.


De Teixeira Pinto a 8 de Março de 2004 às 12:44
Pena que em Portugal o PC nunca tivesse entendido as ideias de Gransci...


Comentar post

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Setembro 2007

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30


.posts recentes

. NOVO POISO

. ESPANHA – GUERRA CIVIL

. ESPANHA – GUERRA CIVIL (1...

. ESPANHA – GUERRA CIVIL (2...

. ESPANHA – GUERRA CIVIL (3...

. ESPANHA – GUERRA CIVIL (4...

. ESPANHA – GUERRA CIVIL (5...

. ESPANHA – GUERRA CIVIL (6...

. ESPANHA – GUERRA CIVIL (7...

. ESPANHA – GUERRA CIVIL (8...

.arquivos

. Setembro 2007

. Novembro 2004

. Agosto 2004

. Julho 2004

. Junho 2004

. Maio 2004

. Abril 2004

. Março 2004

. Fevereiro 2004

blogs SAPO

.subscrever feeds