Quinta-feira, 18 de Março de 2004

A LIÇÃO DA CARÍNTIA

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Reflectindo ainda sobre a aliança contra-natura e oportunista na Caríntia (Áustria) entre o Partido Social Democrata Austríaco e o FPOe de Haider, não vou por muito mais na escrita sobre a obscena aliança. Aliás, já vimos disso por outras bandas. O problema é politicamente congénito pelas bandas social-democratas e, de vez em quando, têm recaídas. Mas as suas ressonâncias talvez justifiquem trocarem-se algumas ideias.

O que gostaria de sublinhar é a justificação dada para este casamento de prostitutas. Nada menos o facto de que “na Caríntia existem ainda muitos pangermanistas e até mesmo cidadãos saudosos do III Reich”.

Será verdade. A Áustria tem sempre, neste domínio, surpresas desagradáveis quando menos se espera. Lembram-se de um Senhor austríaco que conseguiu, anos a fio, ser Secretário-Geral da ONU e depois se descobriu que tinha sido oficial das SS durante a Segunda Guerra Mundial?

Também é verdade que a Áustria, país hoje pequeno, tem problemas culturais e históricos que são de complicadas soluções. Por um lado, a sua tradição imperial e militarista que foi humilhada no final da Primeira Guerra Mundial. Por outro, a forte componente de pertença germânica de vastos sectores que permitiu o Aushluss (anexação da Áustria ao Terceiro Reich) em Março de 1938. Em paralelo, têm uma forte e histórica corrente social democrata, que já foi extraordinariamente combativa, e uma cultura de largas tradições embora com uma enorme tendência para se cristalizar. E foi por um fio que, no após-guerra, a Áustria escapou a ser incorporada no bloco das “democracias populares”. Pois, e Hitler era austríaco por nascimento.

No ressurgimento austríaco após 1945, a social-democracia (fortíssima em termos sindicais e políticos) fossilizou pelo poder prolongado, aburguesou-se e apostou no isolacionismo, no seu papel de charneira de vias de comunicação inter-europeias e em turismo de valsas, violinos, coros de meninos e passeios de bilhete-postal. Foi perdendo causas e valores. Os restantes europeus assistiram impávidos e deram à Áustria o papel do destino turístico monumental e musical com tratos de estimação. Viena tornou-se local de peregrinação turística que qualquer pequeno burguês europeu ainda hoje não dispensa. Até que os austríacos, sem grande convicção, lá aderiram à União Europeia. Bons rapazes, portanto.

O braço nazi austríaco foi dos mais fortes do Partido Nacional-Socialista. Os oficiais austríacos gabavam-se de serem a aristocracia do Exército Alemão e muitos foram os austríacos que se destacaram nas SS. Pelos vistos, muita dessa gente hoje tem peso político (sobretudo na Caríntia) suficiente para terem “fabricado” Haider e levarem os sociais-democratas lá do sítio a andarem agora, de esfregona nas mãos, a limparem os mármores para as passeatas dos saudosos da Grande Alemanha e dos reformados do Terceiro Reich.

Os direitinhas de momento andam para aí a falar do “espírito de Munique” a (des)propósito do resultado eleitoral em Espanha. Mas, se querem ver “Munique”, olhem para Caríntia. Aí sim, temos os herdeiros da “besta” e uma cambada de sabujos a lamberem-lhes a mão. Até quando? Até onde?

(Nota: A imagem que ilustra este post mostra a entrada triunfal de Hitler em Viena de Áustria depois da anexação deste país pela Alemanha; esperemos não a voltar a ver em versão actualizada com Haider no lugar do gajo do bigodinho e com os dirigentes do PSDA a conduzirem-lhe a viatura.)
publicado por João Tunes às 01:45
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