Quinta-feira, 18 de Março de 2004

NÃO PERDOO MAS PERDOO

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Não perdoo ao Governo Cubano, a Fidel Castro, a Che Guevara e aos seus companheiros, as ilusões traídas que levaram parte da minha geração (a que combateu o salazarismo e o marcelismo) a acreditarem que aquela “ilha” seria o exemplo da luta pela liberdade e pela igualdade segundo um modelo “romântico” em que revolução rimava com libertação.

Não perdoo aos “revolucionários barbudos” terem-me levado a colocar o poster de Che na minha sala nos tempos de resistência, como um ícone, para ter o gozo de ver a cara dos pides darem de frente com os seus focinhos contra o rosto mítico do “Cristo Revolucionário” quando me entrassem pela casa dentro.

Não perdoo aos castristas de, em vez de liberdade e de igualdade, terem suprimido as liberdades e degradarem, cada vez mais, as igualdades.

Não perdoo à súcia de burocratas, de polícias e de torturadores, desde Raul Castro até ao último dos pides cubanos, transformarem a mítica “ilha da liberdade” numa ilha de prisões e com o maior índice per capita de prisioneiros por delito de opinião.

Não perdoo ao ditador Castro arrastar o seu país agarrado ao seu destino humano de um dia ter de deixar o reino dos vivos, impedindo até ao seu último suspiro que Cuba respire a democracia e as liberdades e possa ter uma transição pacífica em vez de levar os cubanos ao ajuste de contas.

Não perdoo a Fidel Castro ter feito uma Revolução no seu país para se portar pior (muito pior) que Fulgêncio Baptista.

Não perdoo aos “revolucionários-polícias” cubanos destruírem a liberdade de imprensa e aprisionarem jornalistas independentes e outros que pensam diferente, cumprindo-se hoje um ano desde a data em que 75 opositores foram condenados a penas até 28 anos de prisão e que, no seu conjunto, perfazem 1.475 (MIL QUATROCENTOS E SETENTA E CINCO) anos de presídio.

Não perdoo aos “polícias-revolucionários” cubanos deixarem os seus presos políticos morrerem de doença e com falta de assistências médica, internados em masmorras distantes em 500 quilómetros das suas residências, alguns em celas solitárias de 3 por 4 metros.

Não perdoo aos “polícias-polícias” cubanos não permitirem que os presos políticos sejam visitados pela Cruz Vermelha Internacional ou pela representante do Alto Comissário das nações Unidas para os Direitos Humanos – a magistrada francesa Christine Chanet.

Não perdoo ao pulha cínico que é Ministro dos Negócios Estrangeiros de Cuba, Señorito Camarada Pérez Roque ter afirmado ontem em Genebra, na reunião da Comissão de Direitos Humanos da ONU, que "Cuba reivindica el derecho a aplicar sus leyes para defenderse de la agresión, así como a enjuiciar a los mercenarios que colaboran con el bloqueo y la política agresiva de la superpotencia que quiere reconquistar y subyugar a su pueblo", falando assim de jornalistas e de opositores.

Não perdoo ao cantor Sílvio Rodriguez, também deputado à “Assembleia Nacional”, que tenha dito cobardemente "He defendido a este gobierno porque creo que encarna lo mejor de nuestras esencias como país y como historia. No soy más abiertamente crítico porque tengo más que claras las manipulaciones que inmediatamente aparecerían". Porque demonstrou que, em vez de causas e de valores, está rendido ao maquievelismo do poder e do jogo das dicotomias redutoras “Bush ou Fidel”.

Não perdoo à maioria dos jornalistas portugueses, recebendo as suas folhas de salários dos grupos económicos que controlam a maior parte da comunicação social, que guardem silêncio “politicamente correcto” sobre a (triste) sorte dos seus camaradas cubanos.

Não perdoo aos que evocam Caxias, Peniche, Aljube e Tarrafal, e não levantam um susurro sequer contra as prisões políticas cubanas.

Não perdoo aos defensores das amplas liberdades aqui, mas que, na Ilha, acham a liberdade contra-revolucionária.

Não perdoo aos que alimentam a “economia do dólar” da Cuba Prisão, gozando as delícias de Varadero e conseguem ir lá, dançar a salsa, beber rum e fumar “habanos”, sem sentir uma dor no estômago pelos gemidos da tortura, da doença e do isolamento dos presos políticos cubanos.

Não perdoo os que se manifestam contra Bush, Durão e outros malfeitores, mas não levantam uma simples folha A4, ou emitam um post de uma linha nos seus blogues, a exigir, HOJE, a libertação dos presos políticos cubanos.


Não perdoo? Perdoo. Perdoo tudo. Por causa do Inimigo Principal. A América, pois claro. Os cubanos que se lixem, CONTRA BUSH, MARCHAR, MARCHAR!
publicado por João Tunes às 21:47
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6 comentários:
De Joo a 22 de Março de 2004 às 14:42
Ternura é sentimento que vc tem para dar e emprestar. Que bom é não estarmos sempre de acordo. Significa que não somos burros. Saudação amiga.


De Demter a 20 de Março de 2004 às 19:20
Sem perder a ternura, hein João!? Passar por aqui é um verdadeiro prazer. Gsoto das suas posturas, da forma como você defende suas idéias, embora nem sempre concorde com elas. Hoje estamos a 100%. Agora só posso me deleitar com seus posts nos finais de semana e ainda faço uma ginástico, entro no antigo para poder chegar aqui... Preciso aprender a mudar os links... Um beijo cheio de saudade.


De Joo a 19 de Março de 2004 às 12:40
Estão todos perdoados. Até porque Sábado há manifs contra Bush.


De jpt a 19 de Março de 2004 às 07:55
Perdoe João, perdoe. Se

"bem aventurados os filhos da puta que deles será o reino dos céus"

para quê blasfemarmos contra eles?


De Joo a 19 de Março de 2004 às 01:13
Claro que não vamos ficar parados. E a liberdade é o mais belo de todos os cristais. Abraço.


De Werewolf a 19 de Março de 2004 às 00:13
Bravo meu caro João. Bravo! Agora já percebeu que cristalizar é ficar parado e nós não queremos ficar parados, pois não?


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