Sexta-feira, 19 de Março de 2004

TOPONÍMICAS

MarxundEngels[1].jpg

Uma nova e grande cidade leva tempo até que nos habituemos à topografia e ao ordenamento. Quando a estadia é curta e quando me afoito a sair do hotel para desbravar a cidade em passeios curtos (em que normalmente descrevo uma quadrícula fácil de memorizar para facilitar o regresso), tenho cuidado de ir munido de um mapinha onde se assinale, bem visível, a localização do local de pernoita para a eventualidade de me perder e ter de pedir ajuda.

Nos passeios de descoberta de uma nova cidade, vou lendo atentamente os nomes das Avenidas e Ruas por onde passo para me ir orientando, ocupação que me esgota os neurónios e me rouba parte da disponibilidade para a descoberta do diferente e do imprevisto que é o melhor que tem a visita ás cidades. Mas isso faz parte dos custos do turismo ou da mania de vaguear pelas cidades.

Se a viagem é feita de carro, então a preocupação sobe em exponencial porque há que registar onde fica o hotel e onde se estaciona a carripana. E foram já vezes sem conta que baralhei as orientações e as toponímicas e suei a bom suar até que descubra a malvada da viatura que, na maior parte das vezes, me aparece frente aos olhos com um riso rasgado na carroceria a ostentar um enorme e metálico ar de gozo.

Claro que há casos e casos. Há cidades ordenadas geometricamente e com toponímias fáceis de decorar que se dominam como quem bebe um copo de água. Nova Iorque será o caso mais flagrante em facilitar a vida ao forasteiro.

Passei as passas do Algarve em Praga, em Sófia e em Atenas, por exemplo. Não pelo ordenamento da cidade, mas pelos alfabetos usados ou pela fonética impossível de decorar por um debutante triglota como é o meu caso.

Nas temporadas que passei em Maputo, aquilo pareceu-me sempre fácil, tanto como beber uma ginginha (com elas). A cidade está bem ordenada e os nomes das ruas e avenidas eram-me todos familiares. Aquilo parecia tão fácil como circular nas tendinhas da Cidade Internacional das Festas do Avante, quando o Socialismo estava na maior. Marx para aqui, Engels a seguir, Ho Chi Minh ao virar da esquina, Kim Il Sung lá ao fundo, Lenine é logo ali, siga e encontra Che Guevara, e por aí fora. Para mais, tinha lido grandes calhamaços dos gajos quase todos e de alguns havia comprado bustinhos e “postais de santinhos” para “ajudar o Partido”. Ena pá, aquilo é que era toponímica marxista-leninista e muito mais completa que a que havia encontrado nas cidades onde os gajos fizeram obra. O problema é que eu já andava numa de revisionista e fraccionista e trocava-lhes sempre os nomes. Queria ir pela Lenine, metia pela Che Guevara, queria ir para a Che Guevara e dava comigo na Ho Chi Minh. Uma chatice ml, sempre vos digo. Até era célebre e assunto nas noites quentes e sequiosas de Maputo, as pressões que a Embaixada do Reino Unido fazia para que lhe trocassem o nome de Lenine onde estava situada. O argumento british era que a Rua se devia passar a chamar Churchil tanto mais que o gordo fumador de charutos havia visitado a cidade quando era jovem e aventureiro. Nada feito. Ainda não estavam reunidas as condições para tão radical mudança. Resultado: a Embaixada abriu uma nova entrada para outra Rua que tinha um nome menos fóbico de um dirigente africano qualquer. O que me safava era que uma das Avenidas principais escapavam ao portfólio dos vetustos socialistas científicos e revolucionários e chamava-se familiarmente “24 de Julho”. Andei um ror de tempo convencido que tinham baptizado assim aquela Avenida para facilitar a vida aos portugas cooperantes e negociantes. Resolvi fazer a confirmação junto dos meus amigos moçambicanos. Qual quê. A data tinha a ver com o Dia das Nacionalizações e assim se mantinha até que lhe trocassem a data pelo Dia das Privatizações que já não me lembro quando foi. Havia quem defendesse que se devia varrer os nomes de antigamente e substitui-los por nomes de árvores e de flores. Quando deixei de ir a Maputo, o ml ainda dominava a toponímia e não tenho informação sobre o panorama de hoje. Não me admira se em novo regresso tenha de memorizar nomes como Avenida do Imbondeiro, Rua das Acácias e Travessa das Papaias. Bem mais fácil para o visitante, está mais que visto.
publicado por João Tunes às 16:17
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8 comentários:
De Joo a 22 de Março de 2004 às 14:38
Obrigado pelas achegas, caro José Teixeira. É verdade, aqui faltou respeito pelo músico que o salvou aí pela inércia burocrática. Às vezes, os burocratas preguiçosos fazem mais pela cultura que os frenéticos incultos da "nova política". Abraço.


De Joo a 22 de Março de 2004 às 14:35
Inteiramente de acordo, caro Teixeira Pinto.


De jpt a 20 de Março de 2004 às 15:05
O bairro do Jardim (ao jardim zoológico) já tem esses nomes vegetais todos [ainda do tempo colonial].

E deixe-me lembrar-lhe a pérola da ironia toponímica em maputo: os serviços culturais dos EUA (?!?!) estão na esquina da Mao-Tse-Tung com a Kim-Il-Sung

E já agora, a ex-minha engels não só é a mais bonita e recatada (burguesa, pelo charme) de maputo. É também a da residência do embaixador americano.

Mas já agora, e não fiz post porque não tenho máquina digital: a rua vianna da mota ainda lá está, perpendicular à 24 de Julho, em frente da Interfranca. Aqui não lhe mudaram o nome. Aí também?


De Teixeira Pinto a 19 de Março de 2004 às 23:36
Não acredito que vá a essa manif. Eu fui no ano passado. Mas a de hoje já é mais ums espécie de revivalismo que procura aproveitar a maré dos acontecimentos recentes...


De Joo a 19 de Março de 2004 às 23:33
Isto não é nada, caro Teixeira Pinto, isto não é nada. Já publiquei posts XXL que estão perdidos no baú do antigo endereço. Qualquer dia regresso ao tema. Hoje não que estou a escolher a t-shirt para a manif de amanhã. Abraço.


De Joo a 19 de Março de 2004 às 23:31
Oh Cathy, vc é uma simpatia. Saudação amiga.


De Teixeira Pinto a 19 de Março de 2004 às 20:16
Afinal, João, também tens memórias da marca "ml" e de tamanho "XL"...


De Cathy a 19 de Março de 2004 às 19:48
Adoro esse seu humor inteligente...
;)


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