Segunda-feira, 22 de Março de 2004

SOBRE UM POETA QUE ASSASSINOU UM JORNAL

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Ele cita várias vezes, sempre a propósito, porque há frases que têm sempre um propósito, o grande poeta Mandelstam - tão grande poeta que Estaline não suportou que existisse – e que um dia atirou ao ar a frase: “A poesia é poder”.

Este poeta, revoltado, do poder e na oposição, não o russo mas o trovador nascido em Águeda, desfia as suas memórias de resistência que me acompanham como um fio de voz (para mim, a mais bela voz de homem de quem ouvi a fonia do canto a falar) impresso, indelével e irredutível, desde as noites do fascismo, trazido nas ondas da Rádio Voz da Liberdade, agora em romances de poesia. Embora, desde Abril de 1974, só me liguem a Manuel Alegre os seus livros (o que é mais que muito). Com edição Dom Quixote, aí está “Rafael”.

Manuel Alegre, o poeta que foi responsável pela Segurança do PS nos anos de brasa, com desempenho brilhante a tecer fios entre militares desconsolados, serviços secretos americanos, ingleses e alemães e armas distribuídas aos militantes da contra-revolução, lembra-nos como se tornou um revoltado em trabalhos revolucionários contra a ditadura. E disse quase tudo sobre como tantos (mas sempre em minoria) passaram do ócio estudantil entremeado entre farras, namoros e a conquista do “canudo”, para coluna vertebral da luta contra o fascismo. E talvez seja, por causa deste mesmo passado, que a Direita deste país ainda não prestou a devida homenagem ao muito (ou tudo?) que deve a Manuel Alegre.

Manuel Alegre, o poeta que assassinou um jornal (O Século) quando esteve num governo, mete-nos pelos olhos dentro um capítulo que será (para mim, é) a melhor cena da vida militar durante a guerra colonial e que retrata a sua prisão, em Luanda, por um capitão de Cavalaria. Depois deste capítulo, tudo o mais que se vier a escrever sobre a guerra colonial e as forças armadas, será complemento, adjectivo ou interjeição. Desta maneira, o poeta que assassinou um jornal também deu por extinta a literatura sobre a guerra colonial e sobre como apareceu esse fruto exótico chamado MFA. Porque ele disse quase tudo sobre tão dolorosos e complexos temas.

Manuel Alegre, o poeta-amigo que chorou agarrado ao pescoço de Paulo Pedroso e continua dono da retórica mais ridícula da saudade abrilista, pincela o caminho errante das grandes figuras da resistência e como ela se compôs e se dividiu, através dos furúnculos abertos pelo exotismo narcisista e valente do General Delgado, pela invasão de Praga, por Maio de 1968 e pela deriva maoísta. E como tudo isso foi sanado e ultrapassado pelos militares fartos da guerra, menos poetas mas mais pragmáticos.

Manuel Alegre, o poeta que foi revoltado, revolucionário, contra-revolucionário e poder e agora é relíquia da oposição, tem todas as razões para citar vezes sem conta a frase desesperada de Mandelstam.

Como eu lamento, em nome do som da sua voz aos microfones da Rádio Voz da Liberdade e em nome da melhor poesia que saiu da sua cabeça a transfigurar a língua portuguesa, que Manuel Alegre não tenha circunscrito o seu poder de poeta à sua lira. Porque Manuel Alegre consegue transformar a nossa língua naquilo que ela não é no uso ordinário que dela fazemos. Com Manuel Alegre, a língua que usamos para invejar, intrigar, mal-dizer e sermos rascas, torna-se em algo cantante, plástico, estético e belo, muito belo. Com Manuel Alegre, cada português é um poeta. Se a poesia é poder, porque raio este poeta se meteu em poderes e em contra-poderes?
publicado por João Tunes às 14:27
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De jpt a 22 de Março de 2004 às 15:29
quem anda a escrever textos destes pede explicações? este bota acima já anda mas é a pedir lombada [mas não lhe deixe por as letras douradas sff]
abraço


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