Sábado, 27 de Março de 2004

SOBRE O ARTISTA DO VOTO EM BRANCO

saramago_2[1].jpg

Não. Não vou falar sobre o Escritor. Porque não me sinto à altura de falar sobre um Nobel. É mesmo, perante um tamanho laureado, a minha timidez atávica vem-me ao de cima. E o respeito é uma coisa bonita.

Não. Não vou falar sobre o seu último livro. Apenas porque ainda não o comprei e não o li. Lá me chegarei a seu tempo, de acordo com a gestão dos euros disponíveis.

Não. Não vou falar sobre a pessoa. Porque não o conheço pessoalmente e, assim, inibem-se os juízos.
(Estive por um triz para o conhecer. Corria a década de oitenta do século passado. Ele era um dos inspiradores da dissidência da Terceira Via. Foi marcada reunião magna de conspiração na Biblioteca do ISEG, arranjada pelo Prof António Mendonça. Daí sairia a decisão de avançar com o efémero INES. Presentes alguns célebres conspiradores – António Graça, Raimundo Narciso, Miguel Portas, Pina Moura, Fernando Castro, Judas, António Hespanha e mais uns tantos “da base” que me incluía. Saramago não apareceu. Tinha “borregado”. E regressado à velha ortodoxia. Constou-se, depois, que uma conversa “face to face” com Cunhal tinha pacificado as suas divergências.)

Não. Não vou falar sobre o político. Porque ainda não vi bem contada a história do DN. Porque me lembro que ele abandonou a Presidência da Assembleia Municipal de Lisboa por discordâncias com o PCP. Porque ele é quase sempre (voltará a ser?) um eterno candidato não elegível pela CDU. Porque foi amigo de Fidel e depois disse “basta yá!”. Porque não o entendo, confiando que ele se entenda.

Então vou falar sobre o quê?

Pois vou falar sobre o Artista. Porque Saramago, além de escritor e político, é um Artista. Boa figura, pose assumida e com cambiantes de actor emérito, rosto e mãos fotogénicas, andar firme e imponente, frio e calculista, mulher bonita ao lado, mestre de marketing.

O Artista Saramago sabe como se vendem livros (quando se esquece, lá estará o Zeferino da Caminho para o ensinar). Há que estabelecer frisson previamente. Haja polémica antes de o ler para que se compre para o ler ou não o ler. Porque ninguém quererá passar ao lado de uma heresia ou de um escândalo. Dezenas de entrevistas, fotos a rodos, burguesia monopolista da comunicação aos seus pés, cada capitalista gordo e safado a mandar um dos seus jornais, revistas ou televisões rogar-lhe o privilégio de uma frase que faça cacha. O resto fica por conta da FNAC.

Porque o Artista Saramago compreendeu que um escândalo à posteriori (caso do Evangelho) vende mas não vende tanto como um escândalo à anteriori. Nada como aprender com a experiência.

Qual a ideia que o Artista Saramago desencantou desta vez para que o escândalo não falhe à volta da venda abundante do seu novo livro? Simples, tipo Ovo de Colombo: o que seria da Democracia se o voto em branco fosse maioritário? Nem mais, nem menos. Apenas.

Em abono da verdade, o coelho da cartola não é assim tão novo ou surpreendente como parece à primeira vista. O desconforto com a democracia é tão velho como a própria democracia. Ideologias simétricas governaram a Europa décadas a fio nesta base de insatisfação com o poder democrático. Esta ideia peregrina de sabotar o sistema de voto pelo “anti-voto” não é mais que uma redenção utópica e de sublimação de um poder desejado e frustado por outra legitimidade (os sovietes, pois então) de que se perdeu a esperança de reinar por vontade dos homens.

O que é espantoso é que a respeitável saudade política de um escritor laureado, transformado em Artista, resulte em pleno. Tiro o chapéu ao Marketing. Perante ele, o que somos nós, pobres consumidores leitores?
publicado por João Tunes às 01:47
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4 comentários:
De Joo a 28 de Março de 2004 às 22:45
Não quiz ser tão agressivo mas foi isso masi ou menos o que pretendi opinar.


De Carlos a 28 de Março de 2004 às 18:25
Acho a posição de Saramago muito coerente com as ideias que tem e que não se alteraram desde os tempos da Guerra Fria. Ele e o PCP, sempre foram contra a União Europeia. Estivesse o poder nessas mãos ainda estaríamos "orgulhosamente sós". Ir para lá fazendo a apologia do não-voto é demonstrar como é contra a Europa. Europa que lhe compra os livros e lhe dá de comer ! Portugal que quer representar mas onde não gosta de viver.


De Joo a 28 de Março de 2004 às 00:13
O mesmíssimo. Mas provavelmente votará em branco. Por uma questão de coerência e esperando ser seguido por mais 50% dos eleitores.Abraço.


De Teixeira Pinto a 28 de Março de 2004 às 00:03
É a primeira vez que vejo um candidato eleitoral (ela está na lista para as Europeias) a fazer a aplologia do voto em branco!!! Genialíssimo. Será o mesmo, ou há 2 Saramagos? Tu que o conheces, não saberás explicar-me? Abraço.


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