Terça-feira, 30 de Março de 2004

LIBIDO A BRANCO E PRETA

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Aparício funcionava com a libido a branco e preta. Assim, sim. Não havia mulher africana que o não excitasse. Quanto mais preta, melhor. Preta e catorzinha, então o céu baixava à terra. Mulher branca deixava-o indiferente, mais frio que o gelo que ele só usava para fazer barulho agitando o copo de gin. Dizia ele, com ar de entendido dogmático, “mulher clara não sabe a nada”.

(Ah, é verdade, Aparício gostava de pretas e de gin. Este, explicava ele, era o melhor remédio “natural” para prevenir o paludismo.)

Chamar-lhe Aparício é assim a modos que uma falta de respeito. Já fora Major Aparício e depois, convertido à sociedade civil, tornou-se Doutor Aparício. “Licenciado em pretas de Maputo”, foi assim que ele se me apresentou.

Foi parar a Maputo ao serviço de uma consultora, por lá ficou como director financeiro de uma empresa portuguesa. Não tenciona voltar. Não falta nos provimentos para a mulher e os filhos em Lisboa. Não falha um mês de férias com a família. Mas nos outros onze meses do ano, ninguém o arranca de Maputo. Porque “não há pretas mais bonitas que as moçambicanas”.

O director-geral da empresa onde prestei serviço, um barrigudo careca e meu patrício do Douro, uma espécie de Buda da comunidade portuguesa de Maputo, estava instalado com a mulher e a filha. Lá teria os seus esquemas mas a posição de director-geral e de patriarca, não lhe permitiam folias expostas. Na segunda semana, achou que cá o mano não podia andar para ali desabonado e disse-me solidário “Oh engenheiro, você não pode sair daqui sem provar as moçambicanas, não me convém dar nas vistas, na quinta-feira vai sair com o Doutor Aparício que não há quem o oriente melhor.”. Os constrangimentos de serviço não permitem frontalidades de negas mal-educadas e estudar o Aparício interessou-me. Aliás, nem tive de dizer sim ou não, ele tinha falado, estava falado.

O Doutor Aparício apareceu-me no Hotel Rovuma ao princípio da noite, banho tomado, escanhoado e a cheirar a água de colónia. Jeep estacionado e amabilidade a puxar para o servil. “Então vamos lá, senhor engenheiro”. Eu fui, cumprindo, como ele, ordens do director-geral.

O jantar foi bom. Levou-me a um restaurante especializado em peixe, bem perto da Embaixada de Portugal. A conversa de acompanhamento não teve qualquer graça. Porque o obcecado do Aparício, passou o tempo todo a falar das delícias da mulher negra. Eu só dizia “pois” e lá tentava travar-lhe a pedagogia, informando o homem que tinha feito serviço militar na Guiné. Às tantas, vejo que os olhos do Aparício se cravam na linda empregada adolescente que nos servia à mesa. O homem parecia ter cola nos olhos. Comeu-se o peixe, bebeu-se o vinho, sorveu-se o café, tomaram-se os digestivos (e venha outro, e venha outro) e o homem, com a língua cada vez mais solta, não se desfazia da sua obsessão – preta para cá, preta para lá. Começou a dar-me o sono e a chatice. O restaurante desertificou-se. Ficámos nós e os empregados. Às tantas, o Aparício pagou a conta, trocando contactos de mãos com a empregada que lhe ficara no goto.

Saímos. O Aparício colocou o jeep mesmo à porta do restaurante e desligou. “Aguente aí, oh engenheiro, que esta está no papo”. Eu aguentei, é claro. Àquela hora, em que Maputo se torna perigosa, como ia atravessar a cidade até ao Hotel? A moça sai, o Aparício abre o vidro e diz-lhe “Anda!”. Ela hesita, ou finge hesitar, “vou apanhar táxi para casa, estou cansada”. E o Aparício, seco e corante: “Anda!”. E a empregada do restaurante sobe dócil para o jeep. Ranger dos pneus e ala para o “Sixty” (ou nome parecido). Sem voto na matéria (eu, como o Aparício, estávamos a cumprir ordens do director-geral), entro na discoteca escura e pouco frequentada. Poucos machos e muitas rapariguinhas aparentando entre os treze e os quinze anos. Todas conhecidas da empregada do Restaurante, porque todas se tratavam pelo nome e trocavam beijinhos. O Aparício trata de toda a logística, manda vir as bebidas e um grupo das “catorzinhas” e dispara-me “escolha lá, oh engenheiro”. Achei ser tempo de dizer basta. E disse para o Aparício: “desculpe lá, oh doutor, mas acha que tenho cara de pedófilo?”. O homem abriu a boca, espantado e desorientado. Parecia que nunca tal lhe tinha acontecido. Talvez não. Digo-lhe: “deixe-se estar que eu vou de táxi”. O Doutor Aparício, a contas comigo, com as “catorzinhas” e com as ordens do Director-Geral, diz “ora essa, quem o leva sou eu”. Levou-me, sem pio de fala, olhando de soslaio. Lia-se no seu olhar o pensamento contrariado: “agora, os gajos de Lisboa mandam para aqui engenheiros gays”. Deu-me uma enorme vontade de rir. Ri-me que nem um perdido até chegar ao Rovuma. O Aparício começou a ficar assustado. Não piava nem me olhava. Estacionou o jeep sob a protecção da branca Catedral. O Aparício ainda perguntou “Está tudo bem consigo?”. Então não havia de estar. Claro que estava. Conhecia melhor Maputo depois de conhecer o Aparício. E nunca pensei que o jantar de peixe me desse para tanto riso.
publicado por João Tunes às 20:15
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3 comentários:
De Vicente a 19 de Março de 2007 às 16:57
Não sei o quanto sabem sobre Moçambique mas...
Sim, em Maputo há uma certa tendência para turistas portugueses e outros homens mais velhos aproveitarem-se da falta de regulação que há para comprarem favores sexuais a menores, ou pelo menos a raparigas novas. Nada bonito e nós, Moçambicanos, achamos isso algo feio de se ver.
Lou: não tem nada a ver com o repugnar das pretas, entendeu mal. O tal licenciado em pretas é um espectáculo triste de se ver, mas generalizado (especialmente entre turistas portugueses e italianos).

Entretanto, a apreciação de Tete pareceu-me um pouco 'hostil', somente a mostrar o lado mau de moçambique. Mas já estamos habituados a isso vindo de Portugueses, que invevitávelmente comparam, num acto tanto ou quanto saudosista (sim), a beleza ultramar com a decadência de agora. Teria muito a dizer sobre isto mas foram também ex-colonos que fomentaram esta destruição generalizada, apoiando o apartheid, ajudando a criar a Renamo. A RTP só denegriu a imagem de Moçambique até que lhe fosse concedida os direitos de transmissão em Moçambique. Agora moçambique passou a ser o sítio para ir lembrar o que uma vez tinha sido, o próximo destino para se passar 10 ou 15 dias. Sou descendente de portugueses que cá ficaram e, quem cá ficou por amor à terra, sacrificou-se, mas também sabemos que além dos podres há muita coisa boa.

Quero também lembrar que a Frelimo (e não sou Frelimista) não é nenhuma santa, mas na época estava disposta a acolher todos os portugueses que quisessem ficar. Mas os 'dragões da morte', ex-PIDEs e comandos que não aceitaram a independência decidiram causar o terror. Sair à rua a practicar 'tiro aos pretos', como diziam. O ambiente de terror que isto causou, provocou o abandono da então colónia. Muitos dos quadros saíram, e como os pretos não deviam (ou podiam) educar-se, então ficou o país de rastos. Isto foi o que realmente iniciou a degradação. E podem consultar os vossos livros de História.


De lou a 26 de Janeiro de 2007 às 13:34
um homem gostar de negras é tal e qual um homem que gosta de loiras, ou um que sente atraçao por ruivas... n sei o k o repugna?...pense bem


De lou a 26 de Janeiro de 2007 às 13:32
pois axo k andar em más companias dá p isso hihihihi... diz-me com quem andas e digo-te quem es... há todo o tipo de mulheres neste mundo... axo k tem que fazer um upgrade na sua memoria, acredito k deve ser de outra epoca caso contrario saberia k hj isso ta assim por todo lado...hehehehe...em todo o caso cada artigo k leio fico mais impressionada com a mente humana, sinto pena n ter estudado psicologia hehehe mas temos k aprender a ver o mundo aos olhos de cada um...hum mais uma coisa, dar dois beijinhos em africa é muito comum, mesmo k n se conhecam, faz parte do cumprimento...assim como dar a mao...so k n é tao frio e distante...hehehehe


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