Terça-feira, 30 de Março de 2004

AMOR NO REINO DA IGUALDADE

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O Engenheiro Raimundo é um moçambicano muito branco. Delicado, de cabelo loiro, olhos profundamente azuis, vagaroso nos gestos, reflectido nas falas que são medidas várias vezes antes de saírem transformadas em som. Mas sente-se tão moçambicano como os outros.

Nasceu na cidade da Beira, filho de pais de longínqua origem minhota. Ali foi menino e fez o liceu. A independência apanhou-o na força da juventude. Saudou a nova realidade e tornou-se activista da Frelimo. Colocou-se ao serviço da pátria emergente para o que desse e viesse.

Quando a Frelimo resolveu transferir a posse da Refinaria da Matola, em Maputo, das mãos de Boullosa para as das massas populares, tornou-se urgente formar novos quadros devotados ao povo que pusessem a unidade estratégica a funcionar e bem. Raimundo foi um dos escolhidos e seguiu com mais uma dezena de jovens moçambicanos para a Roménia tirar um curso de Engenharia de Refinação. Quando voltaram, a Refinaria não tinha aguentado a espera e tinha passado a monte de sucata sem préstimo nem retorno. Ainda hoje, Moçambique não tem refinação de petróleo e importa todos os derivados. E aquela dúzia de engenheiros refinadores espalhou-se por variadas funções e modos de vida.

Raimundo andou por Ministérios, ganhou os vagares e os tiques defensivos dos burocratas, até que arranjou um lugar como Director Comercial. Das vezes que estive com ele, deparava com um olhar que tinha uma tristeza como fundo e que me parecia a marca do desencanto recalcado.
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<img alt="15g[1].jpg" src="http://botaacima.blogs.sapo.pt/arquivo/15g[1].jpg" width="280" height="204" border="0" /><br><br>O Engenheiro Raimundo é um moçambicano muito branco. Delicado, de cabelo loiro, olhos profundamente azuis, vagaroso nos gestos, reflectido nas falas que são medidas várias vezes antes de saírem transformadas em som. Mas sente-se tão moçambicano como os outros.<br><br>Nasceu na cidade da Beira, filho de pais de longínqua origem minhota. Ali foi menino e fez o liceu. A independência apanhou-o na força da juventude. Saudou a nova realidade e tornou-se activista da Frelimo. Colocou-se ao serviço da pátria emergente para o que desse e viesse.<br><br>Quando a Frelimo resolveu transferir a posse da Refinaria da Matola, em Maputo, das mãos de Boullosa para as das massas populares, tornou-se urgente formar novos quadros devotados ao povo que pusessem a unidade estratégica a funcionar e bem. Raimundo foi um dos escolhidos e seguiu com mais uma dezena de jovens moçambicanos para a Roménia tirar um curso de Engenharia de Refinação. Quando voltaram, a Refinaria não tinha aguentado a espera e tinha passado a monte de sucata sem préstimo nem retorno. Ainda hoje, Moçambique não tem refinação de petróleo e importa todos os derivados. E aquela dúzia de engenheiros refinadores espalhou-se por variadas funções e modos de vida.<br><br>Raimundo andou por Ministérios, ganhou os vagares e os tiques defensivos dos burocratas, até que arranjou um lugar como Director Comercial. Das vezes que estive com ele, deparava com um olhar que tinha uma tristeza como fundo e que me parecia a marca do desencanto recalcado.<bR<br>No convívio, conheci-lhe a família que me deu guarida e companhia numa inolvidável visita ao Kruger Park na África do Sul e à sua casa de campo perto de Maputo mas já junto da fronteira com a Suazilândia. A mulher do Raimundo era uma romena de traços evidentes de cigana, exuberante e que se movia com um extraordinário à vontade nos meandros da luta pela vida nas carências e armadilhas da sociedade moçambicana. Tinha um casal de filhos sempre impacientes de conviver com os pais e que pediam meças à exuberância maternal. Formavam uma espécie de tribo barulhenta em que os silêncios, os vagares e os zelos do Raimundo se diluíam e pareciam fora do contexto.<br><br>Percorri, com o Engenheiro Raimundo, muitos quilómetros através de Moçambique. Só numa das vezes, saímos da Beira em jeep e percorremos dois mil quilómetros em estradas esburacadas, por Chimoio, Gorongosa, Tete, Songo e Cabora Bassa. Tivemos muitas noites por nossa conta que deu para falarmos e conhecermo-nos cada vez melhor. Na Beira, mostrou-me a sua antiga casa paterna, o liceu, os sítios onde brincou e os locais onde tinha feito as suas reuniões da Frelimo. Tentou fazer-me imaginar, sem saudosismo, através da cidade em ruídas, o que era a Beira colonial. Falou-me da sua vida e do enorme desencanto com o projecto falido de independência que afinal tinha tornado os moçambicanos dependentes da corrupção e do saque dos frelimistas.<br><br>Confidenciou-me a sua história de amor com a sua mulher Dolores. Conheceu-a na Roménia quando estudavam os dois na mesma Universidade. Apaixonaram-se e fizeram uma jura mútua de projecto de vida comum a ter lugar em terras moçambicanas quando terminassem os seus cursos. O banal entre dois jovens estudantes que se encontram e se gostam. Mas havia um problema, pior dois problemas: Dolores era militante da Juventude Comunista Romena e sair do país para casar com um estrangeiro era uma heresia e uma ingratidão para com a classe operária que sustentava as despesas do ensino para todos; Raimundo era moçambicano branco e casar-se com uma estrangeira europeia simbolizava um acto de rejeição da africanidade e traiçoeira para com os camponeses e operários moçambicanos que construíam o homem novo da nova sociedade moçambicana. Raimundo foi mandado, repentinamente, apresentar-se em Sofia na Bulgária às ordens da Embaixada de Moçambique. Por lá esteve, encafuado num hotel secundário, sem saber porquê e para quê. Um dia, recebe ordens de se apresentar na Embaixada e entra uma reunião que reunia todos os estudantes moçambicanos a estudarem nos países socialistas e presidida por um manda chuva da Frelimo. O mandarim abre a reunião e diz que há um traidor entre eles. Um estudante em Sófia vira-se para Raimundo e aponta-o como um renegado da africanidade. Aquilo era um julgamento expedito e devidamente encenado. Raimundo defende-se e diz que o amor não tem cor, nem fronteiras e, muito menos, uma pátria. Ele era e seria africano e moçambicano mas nunca renegaria a mulher que amava. Mandaram-no regressar ao hotel onde o esperava um bilhete de avião para regresso imediato a Moçambique sem que pudesse fazer os exames finais do seu curso. Voltou, revirou meio mundo durante um ano e acabaram por o deixar ir fazer os exames finais. Terminou o curso, aproveitou para se casar e, depois, tentou trazer a sua companheira consigo. Nem a Roménia autorizava a saída de Dolores nem Moçambique lhe emitia visto de entrada. Raimundo voltou a Moçambique e esperou dois anos mais para poder viver com a mulher com quem se casara, formando a sua família.<br><br>Raimundo contou-me a sua história porque se tinha tornado meu amigo. Vagarosamente, com uma tristeza que ia tomando cada vez mais conta dos seus olhos à medida que cada palavra golfava lá de dentro. Rematou a conversa, oferecendo-me o livro de memórias do Dr. Hélder Martins, um médico moçambicano branco que aderiu à Frelimo nos primeiros tempos de luta, tinha sido grande amigo de Samora Machel e Ministro da Saúde e penara as dores da africanidade vivida por brancos. Tirar esse livro da estante e relê-lo é uma forma que eu tenho de matar saudades do meu amigo Raimundo. E de saudá-lo por não ter desistido de amar contra os dogmas e a estupidez dessa malta que, um pouco por todo o mundo, promete igualdade mais homens e mulheres novinhos e novinhas em folha luzidia feitos depois de derreterem, como sucata, os homens e as mulheres que somos. Fingindo não saber que o melhor que conseguem os candidatos a engenheiros de almas é aumentar o peso da ferrugem, tal como os seus camaradas da igualdade fizeram com a Refinaria da Matola.<br><br><b>(reedição de texto já publicado na antiga morada do Bota Acima)</b>
publicado por João Tunes às 21:44
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9 comentários:
De lou lopes a 26 de Janeiro de 2007 às 13:22
olha que engraçado encontrei aqui outro texto que me toca pessoalmente, olha que o meu pai tbm é africano e a minha mae é romena mas axo k o senhor esta a exagerar a historia que lhe contaram... realmente o socialismo era complicado... mas nao vamos misturar, confundir e nem dar uma imagem incorrecta as pessoas... ate porque cada historia é uma historia... n sei em que tempo passou-se essa, mas a que eu conheço é um pouco diferente... eles vao p Sofia pork era la k tratavam a documentaçao para o casamento... e na romenia so nao saiam as pessoas que eles axavam que tinham motivo para tal... os meus pais estao casados e ate hj moram em Angola felizes e eu vou p a romenia e sou considerada tao romena como qualquer um... este é um final mais feliz nao axa?


De Joo a 1 de Abril de 2004 às 12:59
Obrigado.


De Vicristo a 1 de Abril de 2004 às 09:41
Gostei do texto e da mensagem. Parabéns.


De Joo a 31 de Março de 2004 às 13:10
Abraço, caro Luis.


De LNT a 31 de Março de 2004 às 12:32
Não é no tamanho, é na qualidade! Aliás na sequência do anterior. Gostei muito.


De Joo a 31 de Março de 2004 às 12:12
Tens toda a razão, caro Luís. Não há meio de me disciplinar e colocar posts com textos mais pequenos. Prometo tentar. Abraço.


De LNT a 31 de Março de 2004 às 11:42
Grande texto.


De Joo a 31 de Março de 2004 às 10:37
Obrigado (pelo elogio e pela referência no seu blogue). Valeu a pena visitá-lo e ... tem direito a link. Saudação.


De xirico a 31 de Março de 2004 às 02:41
Gostei bastante deste texto e do anterior. Dois retratos bem conseguidos por quem esteve no terreno ... Parabéns !


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