Segunda-feira, 5 de Abril de 2004

UMA NAMORADA DE CIRCUNSTÂNCIA

parella[1].jpg

1962 tinha sido um ano em grande. O refluxo era inevitável. 1963 fora fraquíssimo. Era preciso que, este ano, a maré voltasse a subir.

Na última semana de Abril, o colega Caracol monta o estado-maior em casa de uma colega nossa e minha namorada, convocando a malta de confiança. Tudo escolhido a dedo. Tínhamos trabalhinho para toda a noite, foi o aviso. Distribuem-se os tempos de chegada, com cinco minutos de intervalo. Não convinha ir tudo à molhada e recomendava-se que cada um partisse de um sítio diferente e aparecesse com ar de ir passar uma noite de farra estudantil.

Quanto estávamos todos reunidos, oito no total, o Caracol destapa uns jornais velhos e mostra uma série de sacos de lona cilíndricos que na altura se usavam para levar toalha e outros apetrechos para os banhos na praia. Os grupos já estavam seleccionados, aos pares de um rapaz e uma rapariga. Cada grupo recebe a indicação da zona para onde vai actuar, um saco a tiracolo de cada um, fingindo tratar-se de um par de namorados e toca de, a partir da meia noite, enfiar as convocatórias para o Primeiro de Maio impressas em papel bíblia por tudo que fosse porta, vão de escada e pátio. Era preciso que, na manhã seguinte, quando Lisboa acordasse, o povo ser todo convocado para o Primeiro de Maio na Baixa.

O Caracol ficaria no estado-maior com a dona da casa. A mim calhou-me emparceirar com a Isabel, namorada do chefe das operações de agitação. Não me pareceu mal aquela troca de namoradas por imposição de trabalho político. Fomos destacados para espalhar a papelada a começar no Largo da Graça e ir descendo até à Mouraria. Tínhamos os dois bairros por nossa conta e risco.

Os sacos, atafulhados de papéis até à boca, pareciam pesar toneladas. Desde a Estrela, fomos a pé até ao Largo da Graça. Sempre de mãos dadas, tentávamos disfarçar o nervoso miudinho que teimava em fazer baixar tremeliques até às pernas, com risadas discretas e pseudo olhares românticos para encenar estado de enamoramento. Volta e meia, parávamos a olhar para uma montra e confiar que não tínhamos seguidores. No Largo da Graça foi tempo de descansar uma meia hora e esperar pela meia noite. Sentámo-nos num banco de jardim, tentando sossegar o coração porque o mais difícil estaria para vir. Eu sempre com o braço por cima do ombro da minha camarada agitadora e ela encostando-me a cabeça com ademanes românticos.

A noite foi passada a calcorrear pátios, ruelas e becos. A fraca iluminação ajudou ao trabalho. Um ia dentro de um pátio ou vão de escada meter a papelada enquanto o outro ficava de vigilância. Os papéis eram tão leves que os sacos pareciam não ter meio de se esgotarem. Quando se escutavam passos atrás de nós, o coração saltava e era altura de pararmos para darmos um abraço com uma força danada que servia para representar paixão embora para nós fosse apenas medo o que nos impelia ao vigor da força do abraço. Quando os raios dos sacos ficaram vazios, a madrugada já espreitava Lisboa. Voltámos para o estado-maior, cada um a arrastar os pés doridos e sem as mãos dadas pois a papelada comprometedora já tinha tido os seus destinos e já não era preciso continuar a representar a paixão nocturna.

Feito o ponto de situação no estado-maior, tudo tinha corrido bem. O camarada Caracol felicitou toda a equipa pelo excelente trabalho. Rimos como se ri toda a malta com vinte anos. Ordem de sairmos em intervalos de cinco minutos. Lisboa vivia já na azáfama das manhãs. Abril estava a chegar ao fim. Mais uns diazitos e chegaria o Primeiro de Maio.

O camarada Caracol continuou com a namorada dele e eu com a minha. O medo não é bom incentivador de paixões mesmo com uma noite passada a dar as mãos e aos abraços.
publicado por João Tunes às 15:17
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4 comentários:
De Joo a 5 de Abril de 2004 às 23:22
Tenho paredes de vidro, caro amigo.


De Teixeira Pinto a 5 de Abril de 2004 às 22:35
A minha pergunta tinha um propósito modesto, que se esgotava com a primeira linha da tua resposta. Mas com a interpretatção que lhe deste respondeste a todas as dúvidas. Abraço.


De Joo a 5 de Abril de 2004 às 22:02
Nada sei da "namorada de circunstância". É a vida. Já agora aproveito para declarar que professo a religião da monogamia. Uma de cada vez, sempre. Quanto à "namorada de facto", ela depois foi minha mulher durante 18 anos. Em novo ciclo da vida, vou na segunda mulher com quem vivo há também 18 anos. Agora desisti dessa história dos ciclos e estou numa de estacionamento privativo. Além de monogâmico, tornei-me exclusivo e exclusivista. É a idade ou a maturidade. Abraço.


De Teixeira Pinto a 5 de Abril de 2004 às 20:29
Já lá vão 40 anos!... Não há dúvida de que valeu a pena arriscar, nem pergunto. E a "namorada de circunstãncia" ainda existe, isto é, não lhe perdeste o rasto?


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