Segunda-feira, 5 de Abril de 2004

O MAGNÍFICO REITOR NÃO GOSTAVA DE TOSSES

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Tempo de cumprir obrigações mais alguns voos de hedonismo e rebeldias juvenis e estudantis. A rotina das aulas das oito de manhã até às oito da noite com vários furos pelo meio. Grande parte dos professores faziam daquele ofício um segundo emprego pelo que as partes mais sobrecarregadas dos horários eram o início da manhã e o fim da tarde. Para lá, o autocarro apanhado frente a casa às seis e meia da manhã, os trinta e cinco minutos de barco do Barreiro até Lisboa, com um breve retomar do sono, o eléctrico para a Estrela ou os Prazeres e descida na Rua Buenos Aires. O regresso com o trajecto virado ao contrário, chegada a casa pertinho das dez da noite, comer qualquer coisa, ler isto ou aquilo e o cansaço e o sono a enviar-nos, com toda a urgência autoritária, para dentro da cama.

Estudar umas vezes, faz de conta outras, era pelos cafés espalhados por Campo de Ourique e Estrela e uma ou outra sortida até às fronteiras com a Madragoa ou a Lapa. Lá dentro do casarão, professores liam apontamentos debitados em registo ensonado e monocórdico (comprem a sebenta, comprem a sebenta) e faziam suspirar pelas horas consumidas em gozo intenso nas muitas aulas práticas a fazer experiências para identificar aniões e catiões e o imenso deslumbramento, vendo a matéria a transformar-se através de jogos de soluções e reagentes que mudavam de cor. Formavam-se precipitados, líquidos que passavam a vapores e vapores que se liquefaziam, enquanto gases atravessavam líquidos e mudavam-lhe a cor e o aspecto e havia pedaços de sais cristalizados que se dissolviam sem deixar rasto ou apareciam e reapareciam repentinamente a exigir liberdade do líquido que os aprisionava.

Os tempos eram de controlo sobre a malta nova que não merecia a mínima confiança de um regime governado por velhos caquéticos de ideias que asseguravam a eternidade da velha e decrépita ordem. Os pides porteiros vigiavam entradas, saídas e movimentos suspeitos. Segundo eles, era subversivo um comunicado estudantil, um fugidio tocar de mãos entre um casal de jovens ou uma passa num cigarrinho. Tinham a função de vigiarem a ordem estabelecida, os castos costumes e a saúde da mocidade. Por isso, o alívio morava sobretudo lá fora, pelos cafés ou pelas avenidas do Jardim da Estrela quando o clima era amigo. Dentro do casarão, restavam as aulas práticas de química, em que jovens de ambos os sexos, fardados de batas brancas, circulavam com inevitável desenvoltura que ajudava a ultrapassar constrangimentos aos contactos e apelavam a convites de afectos. E a Associação de Estudantes, quando não era fechada pelo uso de liberdade ou lhe eram impostas comissões administrativas formada por “piolhos verdes” da Mocidade Portuguesa. Além do mais, a Associação de Estudantes dava passaporte para se conviver e partilhar lutas com a malta das Faculdades, fazer surtidas até à Cidade Universitária ou ao Técnico que acabavam normalmente com correrias para fugir à porrada da polícia de choque.

Uma dessas sortidas deu-se por convocação para se encher a Aula Magna da Cidade Universitária porque o Ministro tinha proibido a comemoração do Dia do Estudante e tinha-a substituído pelo Dia da Universidade que pretendia ter um espírito corporativo amplo, juntando alunos, professores e demais pilares da instituição. O lógico era que a resposta dos estudantes se exprimisse pela ausência de boicote. De certeza que a ideia governamental dava isso como garantido e a representação estudantil seria confiada aos obedientes com medo de perder bolsas e uns tantos arregimentados entre a Mocidade Portuguesa, os Jovens de Portugal e as juventudes católicas mais conformistas. Com espanto, veio a indicação de que todos deviam lá ir e em força. Estava-se mesmo a ver que se pretendia molho.

A Aula Magna estava repleta e na máxima compostura com a rádio a transmitir em directo. O painel de fundo da Aula Magna abre-se e entra, vindo da escadaria que dava acesso à Reitoria, um cortejo solene de profs vestidos a rigor e o Magnífico Reitor a comandar a procissão. No estrado, sentam-se as altas individualidades alinhadas em duas alas laterais e com o Cardeal destacado, sentado num cadeirão isolado. O Magnífico Reitor Paulo Cunha prepara-se para iniciar o seu discurso e começa a leitura com o habitual “minhas senhoras e meus senhores”. Dito isto, um acesso de tosse colectiva apodera-se da assistência pondo à prova a excelente acústica da sala. O Magnífico Reitor para, a tosse da estudantada dura uns tempos e depois extingue-se e um silêncio absoluto volta à sala. O Reitor repete a saudação “minhas senhoras e meu senhores” e a tosse colectiva regressa com mais vigor que da vez anterior. A cena repete-se mais três vezes com tosses cada vez mais enérgicas. O Magnífico Reitor dá ordem para o fim da cerimónia, o painel de fundo abre-se e a procissão dos ilustres, incluindo o Cardeal, faz a sua retirada de cena. A estudantada levanta-se e grita para o cortejo: “Liberdade! Viva o Dia do Estudante!”. A cerimónia tinha sido rápida. As ordens são seguir para um almoço de convívio colectivo na Cantina Universitária ali ao lado.

Quando os estudantes, aos magotes, chegam à Cantina, os empregados em pânico dizem que tiveram ordens para abandonarem o serviço e irem todos para casa. Largam os apetrechos e os víveres e retiram-se nervosos e em pânico antes que a porrada chegasse. Tudo é imediatamente contra-organizado e com eficácia, tanto mais que as refeições estavam confeccionadas. Uns tantos montam a caixa, outros empratam a comida, outros servem aos tabuleiros e, passado pouco tempo, receita depositada, toda a gente está sentada e silenciosa a comer, enchendo a Cantina que nunca havia conhecido clientela tão cívica e de tão boas maneiras. Quando as refeições estão a terminar, tudo sentado em silêncio de chumbo, a polícia de choque já havia formado três cordões de cerco à cantina. A ordem é para que tudo fique sentado. Sair dali dava direito a coronhada certa. Um oficial com a trela de um cão polícia numa mão e uma matraca na outra, assoma ao varandim. Era capitão do Exército, cabelo louro com melena descaída sobre a parte esquerda da testa e comandava a tropa de choque. Ordena que se formem filas para toda a gente passar à sala ao lado. Os choques entram e forçam a organização das filas. A fila levava junto de uma mesa onde se encontrava o Magnífico Reitor ladeado por pides com olhares que oscilavam entre o sinistro e o provocatório. Paulo Cunha interrogou um a um, estudante a estudante, vingando-se naquele exercício policial da humilhação dos ataques de tosse dessa manhã. Pedia identificação e perguntava por que estava ali. Os pides iam bichanando ao ouvido do Reitor os argutos conhecimentos que tinham armazenado sobre cada um. Depois do exercício de interrogatório sobre cada estudante, este recebia uma ordem entre duas alternativas: seguir para casa (os da Universidade Clássica), ou ir entrando nas carrinhas da polícia estacionadas à porta (os outros). Os estudantes que iam sendo metidos nas carrinhas policiais foram sendo transportados para o Governo Civil vizinho ao Teatro de São Carlos. As dezenas de estudantes que aí se foram amontoados acabaram divididos em novos dois grupos pelos critérios de uma brigada da Pide. Uns foram libertados no início da noite e outro voltou a entrar nas carrinhas e seguiu para a Caxias para novo rastreio pidesco (foi o que me calhou na lotaria). Depois, todos penariam os processos disciplinares que lhe seriam instaurados.

Que diferença, e ainda bem, das contestações antipropinas de hoje. Pena é que grande parte dos líderes dos contestatários de agora se tenham lembrado dessa peregrina ideia de se vestirem à moda dos tempos em que o ensino universitário, então concentrado em Coimbra, era exclusivo de padres, frades e seminaristas. Ao mesmo tempo que se generaliza a prática de praxes sádicas sobre caloiros ainda não saídos da adolescência. Sempre pensei e sonhei que a condição de estudante em democracia evoluísse para afirmações mais modernas e mais dignas que o retorno aos tempos vetustos e a cheirar a bolor medieval. No fascismo, levava-se porrada e era-se preso para haver direito a democracia. Em democracia, a esperança era que se lutasse por mais democracia, sempre mais democracia e não a atracção estúpida pelo regresso à Idade Média. Mas, eles lá sabem.
publicado por João Tunes às 15:33
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2 comentários:
De Joo a 5 de Abril de 2004 às 21:55
Abraço, amigo Teixeira Pinto.


De Teixeira Pinto a 5 de Abril de 2004 às 20:53
O primor do detalhe com que descreves aquele belo dia da tosse orquestrada é uma delícia. E o último parágrafo é certeiríssimo. Parabéns.


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