Segunda-feira, 5 de Abril de 2004

RECORDAÇÃO AVEIRENSE

Aveiro.bmp

Em 1973, vivia-se a excitação do Congresso da Oposição Democrática em Aveiro. A atmosfera andava carregada pela eminência do fim da sustentabilidade do regime. Aligeiravam-se as preocupações conspirativas.

Fui convocado para integrar a caravana de autocarros que iriam da Amadora até Aveiro. Começara a fazer crítica de cinema no “Notícias da Amadora”, desde que regressara da Guiné em 1971. O cineclubismo tinha-me espicaçado o gosto pela arte filmica, fui vendo cinema de empreitada e apurando o gosto estético que permitia distinguir um bom plano de uma treta amanhada em falta de talento. Quando dei por ela, tinha conquistado estatuto de dirigente cineclubista no ABC e de crítico de cinema com direito a coluna semanal no “Notícias da Amadora” que, então e teoricamente, era dirigido pelo jovem economista Carlos Carvalhas (Carvalhas era o director formal, enquanto o director de facto era o velho Orlando Gonçalves que estava proibido de exercer a função por ordem da Pide). Fui nos autocarros que partiram da Amadora, à mistura com outros jornalistas do “Notícias” e malta jovem da Sorefame, da Cometna e outras fábricas e escritórios da vila.

Chegados a Ílhavo, uma barragem da GNR de grande aparato, impunha meia volta volver aos autocarros e automóveis que demandavam Aveiro. A chamada “Veneza portuguesa” já vivia em estado de sítio. Restou-me mais aos meus companheiros, fazermos o percurso a pé até chegarmos à meta que era o Cineteatro Avenida, bem no coração de Aveiro.

As dormidas na cidade estavam mais que esgotadas. Há sempre solução, quando se quer e a idade o permite – aqueles que tinham conseguido chegar de automóvel e tinham arranjado cama, cediam as viaturas para albergar, durante a noite, os retardatários sem poiso. Quando a caravana pedreste da malta da Amadora chegou ao Cineteatro, a organização já tinha destinado, para cada um, as viaturas onde se iria dormitar.

O Congresso foi o que foi e representou o que representou. Sobre isso, não é preciso pôr mais na história porque documentos e testemunhos não faltam.

No domingo de manhã, estava prevista uma romagem ao cemitério de Aveiro para homenagear a memória de Mário Sacramento, falecido há pouco e que tinha sido a alma inspiradora e organizadora dos Congressos da Oposição Democrática. Tinha-se marcado um desfile desde o Cineteatro até ao cemitério que ficava do outro lado da ria. Claro que apetecia molho à malta do Congresso no desejo de desafiar a repressão. Antes da hora aprazada para o evento, ainda de madrugada, a cidade estava ocupada pela polícia de choque que impedia o acesso à ponte que separa as margens da ria e que era necessário atravessar para se chegar ao cemitério. Silhuetas de cordões policiais ameaçadores estavam bem expostos, como prova de que a ordem não dormia. O desfile compacto começou a descer a Avenida principal em direcção à ponte. Havia tensão e disposição combativa, muitos bolsos dos manifestantes tinham sido recheados com pedras para o que desse e viesse, os braços eram dados com firmeza para aguentar a intempérie policial mais que previsível.

Na quarta fila do cortejo, eu evitava desafinar no entoar do Hino Nacional cantado a todas as vozes. Marchava como os outros, com a firmeza que era possível. De repente, vejo a dois passos ao lado, um marchante com cara familiar. Nem mais, ali estava o Ferreirinha, meu antigo camarada de caserna no Pelundo e antigo capelão do exército agora convertido em activista pela liberdade. Um abraço saltou forte entre os sons dos “heróis do mar”. Um abraço forte mas sem companhia de palavras que não era tempo nem local para confraternizações particulares. Os olhos sim, esses brilhavam, e de que maneira, pelo gozo de partilha. Retomei o meu lugar no desfile. Voltei o olhar para trás para ver o tamanho da manifestação. Muita malta, isto está mesmo bom. No recolher do olhar, vejo, atrás de uns óculos escuros, o sorriso familiar e tímido, agora à paisana, do Major Pessoa que tinha sido meu superior em Catió. Só deu para trocar um breve olhar de afectividade cúmplice e dizer, para os meus botões, “querem ver que a malta da Guiné veio parar toda aqui à manif, no fim vamos ter de beber uns copos e matar saudades”. Mas, naquele momento, a prioridade era outra.

A frente da manifestação já estava frente ao cordão policial que impedia a passagem pela ponte. O desfile parou e foi-se acumulando tensão e nervosismo nos dois lados da barreira. Aquilo tinha de ter um desfecho. Apareceram cartazes dizendo FIM À GUERRA COLONIAL, seguros em mãos crispadas por cima do mar de cabeças. O que se esperava, aconteceu. Tinha que ser. A polícia carregou em toda a força, acompanhada de cães enraivecidos. A manifestação inverteu o sentido de marcha em correrias pela Avenida acima. Uns tantos foram presos, outros ficaram de cabeças partidas, alguns entraram através de montras estilhaçadas. O costume. Enfiei-me por uma porta aberta, subi escadas e enfiei-me dentro de um apartamento, cuja porta os locatários aveirenses tinham aberto para recolher eventuais fugitivos. Espreitei discretamente pela janela sobre a Avenida. A polícia varria os mais vagarosos e renitentes. Pedras saiam de bolsos e voavam. Os cães pareciam lobos enlouquecidos. Depois, veio uma espécie de calma entre os destroços. Havia que esperar um pouco até haver condições de sair. Os donos do andar tremiam de medo, de rostos pálidos com um rito de indignação. Só diziam: “fique o tempo que for preciso mas não faça barulho, senão os gajos vêm cá cima”.

Passaram uns minutos mais. O silêncio tinha voltado à Avenida. Os polícias já só faziam guarda nas esquinas. Pides e oficiais fardados, à mistura no mesmo grupo, conferenciavam, aparentando estarem a fazer o balanço da refrega. “Voltei à Guiné ou quê?”, disse alto, esfregando os olhos e enquanto me despedia dos hospedeiros salvadores. Havia que retomar as lides.

Menos de um ano depois, aquela outra guerra também iria acabar. O regime estava podre.
publicado por João Tunes às 16:09
link do post | comentar | favorito
|
2 comentários:
De Joo a 5 de Abril de 2004 às 21:54
Pois. Não tenhas dúvidas. Abraço.


De Teixeira Pinto a 5 de Abril de 2004 às 21:10
Faço uma pequena ideia do que se passou antes do 25 de Abril... Em 1982, no Porto, devido a uma disputa territorial entre UGT e CGTP, a polícia de choque faz 2 mortos e 80 feridos, e sem o mínimo motivo. Foi na véspera do 1º de Maio, na Avenida dos Aliados. Quando decidem bater parecem cães enraivecidos.


Comentar post

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Setembro 2007

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30


.posts recentes

. NOVO POISO

. ESPANHA – GUERRA CIVIL

. ESPANHA – GUERRA CIVIL (1...

. ESPANHA – GUERRA CIVIL (2...

. ESPANHA – GUERRA CIVIL (3...

. ESPANHA – GUERRA CIVIL (4...

. ESPANHA – GUERRA CIVIL (5...

. ESPANHA – GUERRA CIVIL (6...

. ESPANHA – GUERRA CIVIL (7...

. ESPANHA – GUERRA CIVIL (8...

.arquivos

. Setembro 2007

. Novembro 2004

. Agosto 2004

. Julho 2004

. Junho 2004

. Maio 2004

. Abril 2004

. Março 2004

. Fevereiro 2004

blogs SAPO

.subscrever feeds