Terça-feira, 6 de Abril de 2004

CALOTE NA PLANÍCIE

f06[1].jpg

Adiar um ano só servia para adiar o inevitável. Tinha que bater lá com os costados, mais tarde ou mais cedo. A guerra estava para lavar e durar e tinha-se atolado num impasse lodoso. Mas enquanto o pau vai e vem, folgam as costas. Quem tem vinte e três anos, tem é pressa de viver e vive ao momento. Além de não ser nada entusiasmante a ideia de vestir farda, marcar passo e ir para África, dar e levar fogachada para alimentar teimosias de quem quer andar ao contrário dos ponteiros do relógio da História.

O “compromisso académico” estava feito. Tinha uma única disciplina pendurada, não valia um caracol, tinha sobrado por causa de uma precedência. Dava três horas de aulas por semana, a sebenta explicava tudo o que havia para saber sobre órgão de máquinas. A biela, a cambota, os pistons, etc. No Porto, não me deixavam matricular, o regresso às aulas em Lisboa estava condicionado à condição de não por os pés nas aulas e só lá ir para fazer as frequências. Não me marcariam faltas e eu que arranjasse apontamentos para me entender com as cambotas e as bielas. Tudo bem, o que interessava era o direito a mais um ano de adiamento na hora de vestir a farda, estupidificar na Ordem Unida, cheirar pólvora na carreira de tiro e o pior que se adivinhava vir a seguir.

Não ia ficar um ano de papo para o ar. Tanto mais que o casório estava previsto para se dar antes de me fardar. Emprego como deve ser, nem pensar, sem serviço militar cumprido ninguém aceitava mancebos. Jornais lidos de fio a pavio à procura de uma coisita qualquer para me entreter e ganhar uns cobres. Desato a responder a esmo aos anúncios em que vou encalhando.

Às tantas, recebo carta de Ferreira do Alentejo para apalavrar dar aulas um ano lectivo num colégio particular. Lá vou. Aparece-me o Cura da terra que acumulava com as funções de professor, director e proprietário do Colégio. Ajustamos o preço que era sovinado, e bem sovinado, pelo clérigo. Eu daria aulas até Junho seguinte e ele pagaria, nesse mês, os honorários das férias grandes. Para meu espanto, o meu Curso de Química pareceu-lhe apropriado a leccionar Geografia e Ciências Naturais, além da Matemática e da Físico-Química. Como a mão-de-obra era barata, ele aproveitava ao máximo. Acordo verbal feito, instalo-me em Ferreira, quarto alugado junto à Estação das camionetas da EVA e lugar contratado na mesa dos comensais do Regedor na companhia de meia dúzia de agrónomos que tratavam do regadio alentejano.

O Cura, homem de grande corpanzil e enérgico, tinha vindo do Norte para evangelizar as terras pouco crentes do Alentejo. Meteu-se-lhe na cabeça que havia de energizar a modorra alentejana e levar os ímpios sulistas ao bom caminho. Era presidente do clube desportivo da terra e dinamizador da criação de corais alentejanos pelas redondezas. Além, é claro, das suas funções de docência, directoria e embolso dos lucros do Colégio que tinha, como clientela, os ricos e remediados do sítio que queriam os filhos com o Liceu feito mas sem irem e virem todos os dias de Beja. Era o que hoje se chamaria, explorar um nicho de mercado.

A vida foi correndo sem sobressaltos que são coisas raras por aquelas bandas. A planície ditava o ritmo e o estar. Não tinha muito tempo livre e o que havia era consumido em lazeres de dominó num dos poucos cafés e uma ou outra escapadela, recta fora, até Beja, cuja diferença em vida relativamente a Ferreira é que era um bocado maior. Ainda tentaram levar-me para o Clube fino e privado da terra, pus lá os pés uma vez e bastou pois aquilo era sítio bocejante frequentado por agrários que falavam de negócios de cortiça e bebiam uns copos, mais as esposas dos mesmos que, à parte, punham a escrita em dia sobre mudanças sentimentais que metiam casamentos, divórcios e facadas nos matrimónios. Preferia pôr a literatura em dia no meu quarto que aturar as conversas previsíveis do tal Clube que as gentes da terra apelidavam, depreciativamente, de Clube dos Ricos. Além, é claro, de preparar as aulas, afincando-me na recordação dos temas geográficos e de ciências naturais, de que apenas tinha conhecimentos básicos e perdidos no tempo. De quinze em quinze dias, dava um salto até Lisboa, recorrendo às camionetas dos Belos e que demoravam um tempão a ir e a voltar.

No fim do mês era preciso avisar várias vezes o Cura para ele se descoser com os honorários, o que acabava por fazer, à terceira ou quarta espera à porta do gabinete directorial, sempre de mau humor e com olhar muito pouco santo.

O mais gratificante, nesta experiência, foi o contacto com as crianças e os jovens do Colégio, tanto mais que dava aulas desde o primeiro ao quinto ano. Quando estava com eles, sentia-me compensado do desterro.

O contrato foi cumprido até às vésperas da minha convocação para miliciar no Convento de Mafra. Contrato cumprido, é uma forma de dizer. O Cura acabou a dar-me uma banhada. Invocou dificuldades financeiras momentâneas mas que me mandaria o cheque dentro em breve para Lisboa. Achei que um Cura não ia pecar como caloteiro. Até hoje estou à espera dos honorários em dívida. Porque o acordo tinha sido verbal e porque me vi metido em ocupações de militar longe de Ferreira, não encontrei forma de obter os meus créditos. Acabei por considerar o dinheiro perdido como contributo para a caixa de esmolas da Igreja de Ferreira do Alentejo. Para desconto do meu pecado de lá nunca ter posto os pés. Aliás, há uns meses tive a notícia que o Cura se finou passados os noventa anos de idade. Que a terra lhe seja leve. Mas o calote, esse, anda por lá perdido na planície.
publicado por João Tunes às 12:51
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Setembro 2007

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30


.posts recentes

. NOVO POISO

. ESPANHA – GUERRA CIVIL

. ESPANHA – GUERRA CIVIL (1...

. ESPANHA – GUERRA CIVIL (2...

. ESPANHA – GUERRA CIVIL (3...

. ESPANHA – GUERRA CIVIL (4...

. ESPANHA – GUERRA CIVIL (5...

. ESPANHA – GUERRA CIVIL (6...

. ESPANHA – GUERRA CIVIL (7...

. ESPANHA – GUERRA CIVIL (8...

.arquivos

. Setembro 2007

. Novembro 2004

. Agosto 2004

. Julho 2004

. Junho 2004

. Maio 2004

. Abril 2004

. Março 2004

. Fevereiro 2004

blogs SAPO

.subscrever feeds