Terça-feira, 6 de Abril de 2004

A PRIMEIRA ENTRE AS MINHAS CIDADES

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Tenho lista de cidades que gostaria de conhecer. Mas dinheiro para gastos não abunda e a minha coluna (antes, uma hérnia discal lá enfiada) transforma uma viagem de avião num sofrimento difícil de suportar.

Assim, os meus projectos e sonhos andam mais pelas cidades da Europa que implicam viagens curtas.

Mas aquilo que me fazia mesmo ir de imediato fazer malas era uma hipótese tangível de tetravisitar Praga.

Praga é a cidade que conheço que mais me encantou. E prendeu.

Praga é urbe que nos agarra num sortilégio que não se esgota. E onde apetece sempre voltar. Pelas três vezes que lá fui, acho que conheço a cidade de cor e salteado e que me oriento lá como Lisboa. O enquadramento da cidade nas colinas que ornam o rio, o prazer de fazer parar o tempo na Praça Velha, o passeio através da ponte Carlos para culminar na subida da Mala Strana e abancar numa das muitas cervejarias ou entrar numa das muitas igrejas onde se ouve excelente música, são sensações únicas de bem estar connosco dentro da História.

Apesar dos milhões de turistas que entopem a cidade e da tristeza ensimesmada dos citadinos indígenas. Mas uma coisa e outra não resultam em ruído (em Praga, é-se, naturalmente, compulsado a falar baixo e andar devagar, até com alguma solenidade), pelo que turistas e checos, por muitos que sejam, não perturbam a contemplação.

A cidade tem uma modernidade que parece ter arrastado e conservado a Idade Média, trazendo-nos toda a história europeia de volta como se fosse um catálogo feito de colinas. Por isso, considero Praga a mais europeia das capitais europeias.

Praga sofreu muito. Guerras intermináveis, perseguições religiosas, ocupações (de Hitler e Brejnev) e muitas mudanças políticas.

(Conta-se que a ocupação pelos soviéticos em 1968 teve reflexos directos na história portuguesa pois Salazar terá caído da cadeira em S. Julião da Barra quando um assessor se aproximou dele e lhe disse “Senhor Presidente, os russos entraram com os tanques em Praga” mas deu-se a fatalidade de o velho ditador ter percebido Braga em vez de Praga e daí ao trambolhão foi um breve instante.)

Os habitantes checos parecem perdidos entre o peso histórico, o eterno medo de serem tomados de novo por uma grande potência, o peso de tantos estrangeiros idólatras e, naturalmente ou sobretudo, a herança cultural de Kafka, Kundera e Forman. Nesta perdição e abandono de ânimo, o estrangeiro encontra o espaço para tomar Praga como sua e frui-la, sentindo-se seu ocupante pacífico e na obrigação de a deixar como a encontrou. Voltando. Apetecendo voltar sempre.

Mas não foi fácil, descobrir os encantos de Praga. Da primeira vez que estive lá perto, encafuado a ver cinema no Festival de Karlovy Vari, estava condenado a só conhecer-lhe o Aeroporto. Para além do regalo da vila termal e de um ou outro passeio pelos arredores, até Pilzen (sim, a catedral da cerveja mas também de excelentes cerâmica e vidro) e Ostrov (fábrica Skoda de camiões pesados), custava-me estar ali na Checoslováquia (na altura ainda era) e sair de Karlovy Vari e não visitar Praga.

Fiz sentir esta frustação antecipada a um jovem jornalista do Rude Pravo, chamado Porybni. Promete-me ir ver o que se consegue. Poucos dias depois dá notícias a reservar-me um dia inteiro para visitar a capital da Boémia. Saída de Karlovy Vari em comboio de manhã cedo, dia todo para descobrir Praga e regresso nessa noite. Ele estaria na estação ferroviária de Praga à minha espera e seria o meu cicerone. Excelente, tanto mais que o bacano Porybni falava excelentemente o português.

Quando chego a Praga, Porybni aparece-me acompanhado de uma senhora idosa, estatura pequena e frágil, faces de uma resistente beleza, modos delicados, olhar a oscilar entre o doce e o triste e com os cabelos todos brancos. Pensei que fosse a mãe do jovem jornalista e que ele demonstrava tanta consideração por mim que tinha resolvido trazer a família para nos acompanhar no tour. A senhora pergunta-me, num português genuíno e sem ponta de sotaque, se a conheço. Digo que não. Esclarece-me que é portuguesa e representava a direcção do PCP na redacção da Revista Paz e Socialismo. Apesar de estarmos em Julho de 1975, a respeitável senhora ainda usava pseudónimo. Fica mais aliviada quando eu confirmo que não ligo a sua fisionomia ao pseudónimo e muito menos ao seu nome real. A partir daí, passou a ser Catarina e ponto final sobre a real identidade da personagem.

Fiz um inesquecível tour a descobrir Praga, sempre na companhia simpatiquíssima de Porybni e de Catarina. Ela perguntava coisas do nosso país com uma avidez e um fascínio profundamente emocionados. Confidenciou que vivia na Checoslováquia há bastantes anos mas que já tinha voltado uma vez a Lisboa depois do 25 de Abril. E descreveu-me a emoção de entrar legal em Lisboa dentro de um avião da TAP e que não tinha resistido a beijar as hospedeiras. Tentei fazer perguntas sobre o 1968 checoslovaco mas depressa percebi que o assunto não era conveniente e virámos a circulação por outros assuntos. À noite, convidou-nos para jantar num excelente restaurante da nomenklatura local e apareceu com o seu neto que devia ter uns cinco anos de idade. Ficou-me a imagem da sua enorme delicadeza e da quase aristocrática finura de trato. Prometeu ajudar-me na viagem de regresso. Não faltou, recebeu-me e tratou que uma funcionária do CC checoslovaco maneira de eu não me incomodar com as formalidades do passaporte, do visto e da bagagem. No final, despediu-se de mim com enorme demonstração de afecto e presenteou-me com algumas peças de artesanato checo. Regressei sem fazer a mínima ideia sobre a verdadeira identidade da simpática Catarina. O que, pelos vistos, era um importante segredo conspirativo. E segredos eram segredos.

Passaram-se meses até que o mistério se desvaneceu bruscamente. A televisão passava imagens sobre uma tal Cândida Ventura que era membro do CC e tinha acabado de cortar com o Partido e este com ela. Olho para a imagem da trânsfuga. A Cândida Ventura era a Catarina que eu tinha conhecido em Praga. Depois, fiquei a saber mais alguma coisa sobre o seu passado, nomeadamente que tinha sido uma das mulheres portuguesas que mais tempo havia passado nas prisões da Pide e que tinha sido barbaramente torturada. E acabei por ter as respostas que ela não me quis dar em Praga sobre os acontecimentos de 1968 quando li o seu livro “O Socialismo que eu vivi”.
publicado por João Tunes às 14:58
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