Terça-feira, 6 de Abril de 2004

DESOMENAGEM AOS CARIMBOS

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Não há burocrata que não goste de dar uma boa carimbadela e não faça desse ritual um momento grave e solene. A posse de um carimbo e a atribuição do seu uso são coisas sentidas como íntimas mas exibidas. São pequenos exercícios de poder. Só carimba quem tem delegação para isso. Só carimba quem pode por confiança de quem manda.

Para os burocratas, infelizmente, a necessidade da solenidade do acto de carimbar vai desaparecendo aos poucos. Em seu lugar, andam na voga as malvadas autenticações por leitura óptica, os códigos de barra e outras modernices. Ainda vai sobrando uma ou outra carimbadela necessária mas, queira-se ou não, o amado carimbo vai sendo objecto em uso decadente. O carimbo resiste mas tem a morte anunciada. Com a decadência dos carimbos, vai minguando a raça dos burocratas.

Conheci e contactei muitos burocratas e todos eles tinham o fetiche dos carimbos. Vi burocratas que exibiam os seus muitos carimbos em lugar nobre da secretária, empoleirados em suportes especialmente concebidos em forma de castelos para ostentarem aqueles troféus de poder ao lado das imprescindíveis almofadinhas de tinta. Outros, mais ciosos daquele poder único, escondiam e guardavam os seus queridos carimbos em gavetas fechadas a sete chaves.

Confesso que, talvez por nunca ter tido direito a um carimbo, os sons das carimbadelas sempre me irritaram.

Uma vez levaram-me a visitar uma fábrica têxtil nos arredores de Sofia, então em pleno socialismo real. Nunca percebi porque é que fui parar àquela fábrica, eu que não sou tecelão nem entendido em coisas de panos e similares. Mas os amigos búlgaros diziam que aquela era uma fábrica moderna e quiseram-me impressionar com o seu avanço tecnológico pois tinha maquinaria do último grito e toda automatizada. Lá fui. Fabricavam alcatifas. Era, disseram e eu acreditei, a melhor e mais moderna fábrica de alcatifas do mundo socialista. Não a achei mal, embora não tivesse qualquer experiência para comparar se a dita fábrica era mais ou menos moderna ou produtiva que as congéneres cá da terra nem de outros sítios. Aquilo estava automatizado, as fibras entravam por um lado e as alcatifas saíam enroladas por outro. Muito bem. Levam-me à secção de embalamento em que os rolos de alcatifas eram metidos em capas plásticas para seguirem o seu destino. Mas, antes do embalamento dos rolos de alcatifas, havia uma mesa ladeada por quatro operárias búlgaras vestidas de bata azul. Os rolos, saídos da maquinaria, eram depositados manualmente na tal mesa, três operárias ajeitavam o rolo virando do avesso um dos cantos da alcatifa e, catrapaz, outra operária (devia ser a mais graduada) imprimia-lhe uma solene carimbadela. Afinal, a fábrica, por mais moderna que fosse nos seus automatismos, tinha de trabalhar ao ritmo das carimbadelas. Questionei aquilo que, na minha santa ignorância, parecia um anacronismo que entupia a produtividade. Olharam-me como se estivessem a ver um corcunda a fazer o pino. “Somos a melhor fábrica de alcatifas do mundo socialista, temos de autenticar o material”, responderam-me veementes. Tudo bem, viva o socialismo, pensei eu, metendo a viola no saco.

Quando vou aos correios, ainda se ouvem alguns sons solenes de carimbaria. Dá-me sempre vontade rir. Não sei porquê. Provavelmente são tiques meus por viver numa sociedade em mudança.
publicado por João Tunes às 18:08
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2 comentários:
De Joo a 6 de Abril de 2004 às 18:31
A paciência voltou e em força. Tanta que limpei o post de ameaça de desistência. São fases. Abraço.


De Abrangente a 6 de Abril de 2004 às 18:27
Amigo João,
Bolas, para quem dizia pela manhã que não tinha inspiração nem paciência para aturar pseudo-libs
e escreve tudo isto hoje, é obra! Já lhe chegou a inspiração, pelo que vejo.
Parabens pelas memórias de viagens. Conheço o Rio.
É uma cidade maravilhosa, como diz a canção.
Gostei do relato feito sobre Bagdade.
Continue a zurzir nos neo-libs. É preciso marcar
as fronteiras.


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