Quarta-feira, 7 de Abril de 2004

JOGO DE CARTAS

king.GIF

Tudo estava bem com as transmissões, não havia novidades e o rádio até já tinha melhorado a sua sintonia com Bissau. Talvez a antena se tenha reorientado com a ajuda do vento. Mais uma noite de paz, disse para os meus botões mas, depois, resolvi falar alto, repetindo e completando: “Uma noite de paz, mas de king”. A frase mereceu sorrisos cúmplices dos subordinados de serviço. O furriel de transmissões arriscou-se a comentar com sorriso jocoso “então, meu alferes, hoje não há baile com as bajudas”. A provocação mereceu uma resposta curta e cordata, procurando mais a cumplicidade que impor distâncias “não, hoje é um dia de folga, calhou-me ter de jogar king”. Os subordinados riram-se em coro. Sabiam da história.

O Tenente Coronel Romeira, comandante do batalhão, era um militar que fizera quase toda a sua carreira na política situacionista, integrando a União Nacional beirã. Fora Presidente de Câmara e chefiara Serviços de Censura. Tinha feito uns tempos de quartel reduzidos à papeladas, paradas, marchas e manobras. Chegada a hora de ser promovido a Coronel, impuseram-lhe uma comissão nas colónias e calhou-lhe a Guiné. Grande gaita. Ele não percebia patavina de guerrilhas e de contra-guerrilhas, achando que era mesmo bom era a fazer despachos e a descortinar notícias disfarçadas de facciosos com o regime (que, tirando o Fundão, não abundavam na imprensa regional beirã).

Pois é, o Romeira foi comandar um batalhão para a Guiné mas com um medo danado da Guiné. Sobretudo, tinha medo da Guiné à noite. No escuro, ele estava sempre a pressentir passos de guerrilheiros. Apesar da sorte que teve, indo parar ao Pelundo naquela época. Fosse uns anos atrás (ou à frente, porque afinal a paz e a obediência eram mais aparentes que reais) e ninguém sabe como o medroso Romeira se ia safar. Além de medroso e desconfiado, o gajo era chato a conversar. Os assuntos dele esgotavam-se nas hossanas ao regime, na doutrinação colonialista e no racismo contra os pretos. Chato até dizer basta. Como não levantava muitas ondas e deixava a rotina correr, foi-se transformando num chato tolerado, a quem se dava desconto. E, na tropa, não há eleições para comandantes.

Os problemas com o Romeira chegavam com a vinda da noite. Após jantar, todo o oficialato se pisgava para não seroar com o chato do Comandante e, num ápice, este ficava sem companhia para enfrentar o escuro e os ruídos que vinham com a noite. Quem queria jogar às cartas, fazia-o na camarata. Quem queria ir a um baile africano, ala que se faz tarde porque as bajudas não podem esperar. E o Tenente Coronel ficava para ali, abandonado e sem coragem nem sono para se deitar.

Romeira, se era chato e medroso, também era imaginativo. E não demorou muito a encontrar forma de evitar as noites solitárias. A meio do jantar na messe, com todos os oficiais à volta e com ele a presidir, o Comandante olhava um a um e depois dizia seco “hoje, os nossos alferes fulano, sicrano e beltrano, ficam comigo para jogarmos king”. Na primeira vez, um mais impertinente ainda tentou enfrentá-lo “isso é uma ordem?”. Sim, era uma ordem. E como era ordem, ela tinha de ser cumprida. Foi assim que passou a haver uma escala nocturna para oficiais jogarem king. Escala arbitrária e que dependia, exclusivamente, do humor e caprichos do comandante. Que era cumprida com enfado mas com paciência. Que diabo, todos os problemas fossem esses na Guiné. E, terminado o segundo jogo, havia um alferes pré-combinado que interrompia a jogatana, pretextando sono, cansaço ou que tinha que se levantar cedo no dia seguinte. Mas, dois jogos de king com o Romeira, ah meus amigos, disso é que ninguém safava os oficiais escalados.

Voltei a atravessar a parada, agora em sentido contrário e rumo à messe de oficias, para cumprir as ordens superiores. Tinha que jogar king e, a essa hora, o Tenente Coronel já devia estar impaciente pela demora do parceiro à força. Já era noite e as únicas luzes eram os holofotes de vigia e as luzes nas casamatas e nas messes de oficiais e de sargentos.

No percurso, os pensamentos divagavam algures, misturando Lisboa, a casa, a família, os amigos, a puta da Guiné e o baile perdido. Depois, os pensamentos focalizaram-se nas lindas e personalizadas bajudas manjacas. Paciência, amanhã, é outro dia, disse, cá para mim. Até que, como oficial, não podia abusar e, muito menos, atingir o finalmente. Nem queria, pois tinha vindo para a Guiné casado de fresco. Mas que era muito bom sentir o roçar dos mamilos rijos das bajudas atravessar a camisa e aquecer o peito, calor que depois subia para a cara e descia para a virilha, isso era um facto. Ou uma evidência. Muito melhor que emborcar uma garrafa de uísque ou jogar um king com o cagarolas do Romeira. E quanto não valia, depois do baile, ficar com a memória mais apetecida para enfiar na cama, adormecer e esperar o sonho, o sonho desejado, em que as lembranças eróticas dos mamilos das bajudas cediam espaço à lembrança dos mamilos da mulher. Só isso e não era pouco. Não dava para mais. Mas, não faltava muito para gozar férias de um mês em Lisboa. Porque o descabaçamento das bajudas era obra para furriéis que as recolhiam já maduras dos braços dos oficiais. Depois, as ex-bajudas descabaçadas passavam a mulheres grandes e a ganhar dinheiro na lavagem de roupa para as tropas. E era então, só então, que chegava a hora do festim para cabos e soldados. Percebia-se a cadeia de funções no jogo do sexo porque eram muito raros os furriéis, os cabos e os soldados que tinham dinheiro para passarem férias no continente. E quase todos os oficiais faziam duas vezes férias durante a comissão, porque o podiam fazer e, assim, podiam aliviar atrasos acumulados de relações sexuais junto das mulheres, amigas disponíveis, companheiras de ocasião ou prostitutas brancas. Como em tudo na tropa, também, no tocante a sexo (melhor dizendo, à expressão da supremacia sexual da potência colonial), a cadeia de posse, os ritos hierárquicos e as condições sociais, tinham os seus preceitos e equilíbrios.

Fui recebido pelo Tenente Coronel Romeira com um seco e cortante “já está atrasado, nosso Alferes, sente-se”, seguindo-se a explicação agreste que já tinha baralhado, cortado, dado cartas e que era ele a sair. Antes de me sentar, justifiquei-me “demorei-me por causa da antena, ela já está boa, vamos a isto”, o que provocou um coro de gargalhadas de todos os outros oficiais que fizeram raciocínios automáticos e indecentes entre a antena e a falta do baile com as bajudas. Na Guiné, ria-se por tudo e por nada. Sempre que se podia. Para compensar as vezes em que não se conseguiam evitar lágrimas.
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<img alt="king.GIF" src="http://botaacima.blogs.sapo.pt/arquivo/king.GIF" width="328" height="223" border="0" /><br><br>Tudo estava bem com as transmissões, não havia novidades e o rádio até já tinha melhorado a sua sintonia com Bissau. Talvez a antena se tenha reorientado com a ajuda do vento. Mais uma noite de paz, disse para os meus botões mas, depois, resolvi falar alto, repetindo e completando: “Uma noite de paz, mas de king”. A frase mereceu sorrisos cúmplices dos subordinados de serviço. O furriel de transmissões arriscou-se a comentar com sorriso jocoso “então, meu alferes, hoje não há baile com as bajudas”. A provocação mereceu uma resposta curta e cordata, procurando mais a cumplicidade que impor distâncias “não, hoje é um dia de folga, calhou-me ter de jogar king”. Os subordinados riram-se em coro. Sabiam da história.<br><br>O Tenente Coronel Romeira, comandante do batalhão, era um militar que fizera quase toda a sua carreira na política situacionista, integrando a União Nacional beirã. Fora Presidente de Câmara e chefiara Serviços de Censura. Tinha feito uns tempos de quartel reduzidos à papeladas, paradas, marchas e manobras. Chegada a hora de ser promovido a Coronel, impuseram-lhe uma comissão nas colónias e calhou-lhe a Guiné. Grande gaita. Ele não percebia patavina de guerrilhas e de contra-guerrilhas, achando que era mesmo bom era a fazer despachos e a descortinar notícias disfarçadas de facciosos com o regime (que, tirando o Fundão, não abundavam na imprensa regional beirã).<br><br>Pois é, o Romeira foi comandar um batalhão para a Guiné mas com um medo danado da Guiné. Sobretudo, tinha medo da Guiné à noite. No escuro, ele estava sempre a pressentir passos de guerrilheiros. Apesar da sorte que teve, indo parar ao Pelundo naquela época. Fosse uns anos atrás (ou à frente, porque afinal a paz e a obediência eram mais aparentes que reais) e ninguém sabe como o medroso Romeira se ia safar. Além de medroso e desconfiado, o gajo era chato a conversar. Os assuntos dele esgotavam-se nas hossanas ao regime, na doutrinação colonialista e no racismo contra os pretos. Chato até dizer basta. Como não levantava muitas ondas e deixava a rotina correr, foi-se transformando num chato tolerado, a quem se dava desconto. E, na tropa, não há eleições para comandantes.<br><br>Os problemas com o Romeira chegavam com a vinda da noite. Após jantar, todo o oficialato se pisgava para não seroar com o chato do Comandante e, num ápice, este ficava sem companhia para enfrentar o escuro e os ruídos que vinham com a noite. Quem queria jogar às cartas, fazia-o na camarata. Quem queria ir a um baile africano, ala que se faz tarde porque as bajudas não podem esperar. E o Tenente Coronel ficava para ali, abandonado e sem coragem nem sono para se deitar.<br><br>Romeira, se era chato e medroso, também era imaginativo. E não demorou muito a encontrar forma de evitar as noites solitárias. A meio do jantar na messe, com todos os oficiais à volta e com ele a presidir, o Comandante olhava um a um e depois dizia seco “hoje, os nossos alferes fulano, sicrano e beltrano, ficam comigo para jogarmos king”. Na primeira vez, um mais impertinente ainda tentou enfrentá-lo “isso é uma ordem?”. Sim, era uma ordem. E como era ordem, ela tinha de ser cumprida. Foi assim que passou a haver uma escala nocturna para oficiais jogarem king. Escala arbitrária e que dependia, exclusivamente, do humor e caprichos do comandante. Que era cumprida com enfado mas com paciência. Que diabo, todos os problemas fossem esses na Guiné. E, terminado o segundo jogo, havia um alferes pré-combinado que interrompia a jogatana, pretextando sono, cansaço ou que tinha que se levantar cedo no dia seguinte. Mas, dois jogos de king com o Romeira, ah meus amigos, disso é que ninguém safava os oficiais escalados.<br><br>Voltei a atravessar a parada, agora em sentido contrário e rumo à messe de oficias, para cumprir as ordens superiores. Tinha que jogar king e, a essa hora, o Tenente Coronel já devia estar impaciente pela demora do parceiro à força. Já era noite e as únicas luzes eram os holofotes de vigia e as luzes nas casamatas e nas messes de oficiais e de sargentos.<br><br>No percurso, os pensamentos divagavam algures, misturando Lisboa, a casa, a família, os amigos, a puta da Guiné e o baile perdido. Depois, os pensamentos focalizaram-se nas lindas e personalizadas bajudas manjacas. Paciência, amanhã, é outro dia, disse, cá para mim. Até que, como oficial, não podia abusar e, muito menos, atingir o finalmente. Nem queria, pois tinha vindo para a Guiné casado de fresco. Mas que era muito bom sentir o roçar dos mamilos rijos das bajudas atravessar a camisa e aquecer o peito, calor que depois subia para a cara e descia para a virilha, isso era um facto. Ou uma evidência. Muito melhor que emborcar uma garrafa de uísque ou jogar um king com o cagarolas do Romeira. E quanto não valia, depois do baile, ficar com a memória mais apetecida para enfiar na cama, adormecer e esperar o sonho, o sonho desejado, em que as lembranças eróticas dos mamilos das bajudas cediam espaço à lembrança dos mamilos da mulher. Só isso e não era pouco. Não dava para mais. Mas, não faltava muito para gozar férias de um mês em Lisboa. Porque o descabaçamento das bajudas era obra para furriéis que as recolhiam já maduras dos braços dos oficiais. Depois, as ex-bajudas descabaçadas passavam a mulheres grandes e a ganhar dinheiro na lavagem de roupa para as tropas. E era então, só então, que chegava a hora do festim para cabos e soldados. Percebia-se a cadeia de funções no jogo do sexo porque eram muito raros os furriéis, os cabos e os soldados que tinham dinheiro para passarem férias no continente. E quase todos os oficiais faziam duas vezes férias durante a comissão, porque o podiam fazer e, assim, podiam aliviar atrasos acumulados de relações sexuais junto das mulheres, amigas disponíveis, companheiras de ocasião ou prostitutas brancas. Como em tudo na tropa, também, no tocante a sexo (melhor dizendo, à expressão da supremacia sexual da potência colonial), a cadeia de posse, os ritos hierárquicos e as condições sociais, tinham os seus preceitos e equilíbrios.<br><br>Fui recebido pelo Tenente Coronel Romeira com um seco e cortante “já está atrasado, nosso Alferes, sente-se”, seguindo-se a explicação agreste que já tinha baralhado, cortado, dado cartas e que era ele a sair. Antes de me sentar, justifiquei-me “demorei-me por causa da antena, ela já está boa, vamos a isto”, o que provocou um coro de gargalhadas de todos os outros oficiais que fizeram raciocínios automáticos e indecentes entre a antena e a falta do baile com as bajudas. Na Guiné, ria-se por tudo e por nada. Sempre que se podia. Para compensar as vezes em que não se conseguiam evitar lágrimas.<br<br>Aquela era uma noite não. Lisboa teimava em ocupar a cabeça e eu, para ali, feito parvo e a fazer de dama de companhia a um oficial cagarola. E até achava que o Romeira era dos poucos que não tinha direito a ser cagarola. Eu, isso sim, é que tinha direito ao medo, mais os outros milicianos, tudo gente fardada à força e enviada para o matadoiro estúpido da Guiné. Agora, um tipo da carreira militar e que comandava tropas no fito de uma promoção, esse não tinha direito a ter medo.<br><br>Por causa do mau humor, jogava por jogar, as cartas iam caindo quase por inércia, os pontos negativos acumulavam-se e cada vez sentia mais a situação estúpida em que estava colocado. Só faltava mandarem-me para a Guiné para jogar king com aquele caramelo. Assim, o último remédio era evitar olhar a cara do sujeito. Para não mandar à merda aquela fantochada.<br><br>Da aldeia manjaca, vinham sons difusos dos bailes nocturnos organizados por africanos e africanas e, para os quais, alguns militares eram convidados. Para os bailes (sei lá porquê, se nunca fui bailarino), eu tinha sempre livre trânsito, fruto das amizades que ia fazendo na aldeia. O que me chateava era estar ali, amarrado a uma mesa de jogo, enquanto o baile devia estar no seu melhor e que era sempre quando estava prestes a acabar. O jogo prolongava-se e aumentava o aborrecimento. Restava engolir em seco. Porque o pior mesmo era pensar como seria bom estar em Lisboa naquele preciso momento. Ah Lisboa, sabias bem melhor que mil bailes na tabanca.<br><br>A autorização tácita do comandante para a saída do quartel, pela noite dentro, para os bailaricos, era restritiva e só abrangia oficiais e furriéis. Cabos e soldados estavam proibidos de o fazer e tinham de estar todos dentro do quartel até às nove da noite. Coisas das hierarquias militares, estúpidas como quase todas as outras. Eu não concordava com aquela regra porque entendia que quando chega a noite, ela chega para todos. Mas, alferes é alferes, comandante comandava. Recomendava apenas aos meus subordinados que quando se desenfiassem, soubessem fazê-lo.<br><br>Os sons dos bailes foram-se extinguindo. Até que o silêncio dominou a aldeia. Os militares bailarinos foram regressando em pequenos grupos vagarosos. A messe de oficiais, onde decorriam os jogos de king, ficava muito perto da porta de armas. Por norma, o Romeira sentava-se frente à porta de armas para poder controlar as entradas fora de horas.<br><br>Em dado momento, vejo o vulto do Cabo Martins, um subordinado operador de transmissões, a procurar escapar-se da luz dos holofotes e a tentar entrar pela surra no quartel. Sorri para dentro, conivente, e desejei bom sucesso ao Cabo apara aquilo não acabar em chatice. Mas, o Romeira tinha vista apurada e também viu o Cabo Martins.<br><br>O Tenente Coronel poisou as cartas bruscamente e disse-me de rajada: “nosso alferes, vai ali um dos seus homens, vá imediatamente dar-lhe uma chapada para ele aprender a respeitar os regulamentos.” Aquela ordem caiu-me brutal e seca dentro do mau humor. Sacana do oficial cagarola. Um turbilhão, quase um ciclone, entrou-me dentro da cabeça e levantou mil ideias misturadas a granel, como se fossem folhas secas levantadas do chão. Não tive tempo de respirar fundo e disparei: “eu não bato nos meus subordinados, vá o meu comandante dar-lhe a bofetada se for capaz, mas depois tem de se entender comigo por ter batido num homem sob meu comando.” O serão dos oficiais terminou em silêncio de raivas contidas. Enquanto o Cabo Martins se esgueirava lesto para dentro da caserna. Sem chapada.<br><br>No dia seguinte, no início da manhã, recebi ordem para me apresentar ao Comandante. Com olhar distante, Romeira informou que tinha acabado de me aplicar, devido a crime de insubordinação, a pena de um dia de prisão que ia ser cumprida logo que houvessem condições. É que não havia prisão dentro do quartel do Pelundo. Uma casamata foi despejada das tralhas e transformada em local de isolamento e prisão adaptada. Ao fim da tarde, o Segundo Comandante comunicou que estavam criadas as condições para iniciar o cumprimento da pena de prisão. Mas havia um pormenor adicional, a prisão não seria de um dia mas sim de três dias, pois a punição tinha sido agravada pelo General Spínola.<br><br>Aquela prisão alvoraçou o quartel. Desde os oficias milicianos que fizeram questão de partilhar a casamata-prisão em petiscadas contínuas até tropa armada (comandada pelo médico!) irromper de repente dentro da casamata para “libertar o nosso alferes”. Mas, tudo excitado e depois acalmado, os três dias de prisão acabaram por ser, apenas, um festim folclórico. O pior veio por arrastamento e como sequela da prisão: tinha de abandonar o batalhão e ser colocado noutro local da Guiné, perdia o direito a férias (a primeira filha tinha acabado de nascer e isso equivalia a prolongar o tempo sem a conhecer) e a duração da comissão na Guiné era aumentada em três meses.<br><br>Cumprida a prisão, despedi-me do Pelundo e rumei a Teixeira Pinto para apanhar avião para Bissau, onde seria definido o seu novo destino. O Tenente Coronel fez questão de se despedir, tentando dar-me um abraço, lavado em lágrimas, com garantia de sentimento de grande amizade e consideração. Mas o Romeira foi o único militar do Pelundo de quem não aceitei a despedida. Apenas lhe fiz e lhe permiti as continências da praxe.<br><br>Já em Bissau, aguardando a minha sorte, fui convocado para trabalhar numa Repartição do Estado Maior do General Spínola. Achei surrealista, mas lá me apresentei e meti-me ao trabalho (?) que durou duas horas, misturado com a nata da elite spinolista. Um Major, esbaforido, rapidamente desfez o equívoco. Tinha havido um engano. Eu seguia, mas era, e no primeiro avião, com destino a Catió, bem ao sul, onde seria colocado na zona conhecida como “reino do Nino” e em que a guerra ardia em fogo aceso. Parecia, aos senhores da guerra, que Catió era o melhor lugar para oficiais que não davam chapadas em cabos.
publicado por João Tunes às 16:24
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