Quinta-feira, 8 de Abril de 2004

OS TOMATES DO MAJOR PINHEIRO

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O Major Pinheiro era o tipo de oficial pançudo que abana o rabo, a acompanhar movimentos enérgicos dos braços, no esforço inglório de tentar imitar um porte marcial. Tinha andado pela GNR, fizera uma comissão em Luanda e agora era segundo comandante no batalhão do Pelundo. Ali, era a máxima autoridade a seguir ao Tenente Coronel Romeira.

De guerras, pouco tinha aprendido. Restava-lhe a prosápia da ordem unida, dos regulamentos e do semi-bigode apensado em cima de um lábio vermelhusco e sempre húmido. Mas adorava os tratos de couves e demais hortaliças, num esforço fanático para conseguir a auto-suficiência alimentar das nossas tropas.

Chegado ao Pelundo, o Major Pinheiro tomou, como ocupações exclusivas, os melhoramentos (com a construção de uma igreja na frente das prioridades) e, como não podia deixar de ser, a implantação e conservação de uma enorme horta que vitaminasse o pessoal. Quem queria encontrar o major hortelão, não tinha que hesitar, ele havia de estar, pela certa, a peito descoberto no meio do batatal, camuflado entre os feijoeiros ou então, em última hipótese, ele havia de estar emaranhado no meio dos ramos dos tomateiros.

O Major Pinheiro era um subserviente relativamente ao Comandante e à ordem estabelecida. Fazia contas e mais contas ao pé-de-meia amealhado com os ganhos e poupanças dos soldos das comissões em África e que o levava a sonhar alto com compras de mais courelas na sua santa terrinha, lá para os lados de Águeda.

Ninguém tinha em grande conta o Major Pinheiro, excepto ele próprio. Não dava duas para a caixa a conversar e não percebia nada da poda dos assuntos da guerra. Era um chato, a caminho do labrego típico. Só acertava, em cheio, no dueto esdrúxulo que formava com o Tenente Coronel Romeira. Os dois, cada um a seu modo, eram como a fome e a vontade de comer.

Na calmaria ronceira do quartel do Pelundo, a tropa habituava-se à boa rotina, esperando que o tempo da comissão tivesse termo. Entretanto, iam crescendo as hortaliças do Major Pinheiro.

A calmaria de uma noite, aí pela hora de mudar de dia, foi repentinamente cortada pelo som de uma rajada de metralhadora ecoada no escuro e não longe do quartel. A tropa assustou-se por causa da falta de hábito. Os ouvidos ficaram atentos à espera de réplicas. Mas não, a rajada não teve irmãs a incomodarem a noite. Como se previa, o militar mais assustado era o Tenente Coronel Romeira. Apareceu nervoso, vestido de camuflado, ordenando a formação das tropas. Fez o seu discurso: os cabrões dos pretos estão a atacar-nos, vamos retaliar, viva Portugal. Chamou os oficiais de parte, ordenou ao Alferes Frederico apronte o seu pelotão de atiradores e avance para revistar todas as palhotas da aldeia africana e, pelo caminho, vá dando umas boas coronhadas na pretalhada para eles aprenderem a não albergarem turras e, se encontrar suspeitos, traga-os vivos ou mortos. Era um discurso despropositadamente ridículo, a merecer gargalhada, não fosse o poder de mando que o homem tinha.

O Alferes Frederico, homem corpulento e que tirara o curso para professor de Educação Física, ficou a olhar para o Romeira, hesitou, mas acabou por fazer continência de obediência. E abalou para pôr em acção o seu pelotão de atiradores que andava sedento de emoções depois de estar saturado de patrulhamentos inúteis. Fariam o que lhes mandassem fazer.

Apercebi-me do absurdo que vinha a caminho. Representando o papel de dedicação à façanha guerreira projectada, pedi ao Tenente Coronel licença para acompanhar os operacionais na sua missão, a fim de assegurar as boas transmissões com o posto de comando do quartel. Os olhos do Romeira brilharam de orgulho por tanto altruísmo dos seus oficiais. E respondeu com um enérgico e cúmplice Claro que está autorizado a acompanhar as forças em combate.

No caminho, fomos estabelecendo cavaqueira em voz baixa. Veio logo à baila, o absurdo das ordens dadas e da missão atribuída. Que aquilo deitava a perder o relacionamento com os manjacos. E a malta nunca mais ia ter condições de sair à noite e mamar uns bailaricos. Etc e tal.

Entrando dentro de uma meia dúzia de palhotas, confirmou-se que os africanos e as africanas estavam mas era a dormir ferrados no sono, em descanso absoluto e longe de tentações de desfazerem a boa vizinhança com os militares. Obviamente, a rajada tinha sido um acto isolado de um qualquer guerrilheiro perdido da mãe. Pelo menos, era o que todas as evidências mostravam. Não havia qualquer sustentação para fazer mal àquela gente.

O Alferes Frederico não sabia o que fazer. Maltratar os africanos, não fazia sentido. Mas, ordens são ordens. Como explicar-se perante o Romeira? E depois, não era ele que ia apanhar uma porrada e bater com os costados em Guileje?

Lembrei-me de uma solução para sair da embrulhada e salvar a honra do convento, sem desmotivar o pessoal que tinha saído ansioso por combater. A malta ia, mas era, assaltar a horta do Major Pinheiro, fazer uma ceia de tomatada crua, aguentar uns tempos, faziam-se uns disparos para o ar e depois lá se ia prestar contas ao cagarola do Romeira. Concordância absoluta, obra feita e completada.

A tropa voltou ao quartel, contendo risos, apresentou-se ao comandante, o Alferes Frederico disse que estava tudo espancado e tudo foi para a deita.

No outro dia, durante o almoço, todos os oficiais discutiam o verdadeiro significado dos acontecimentos da noite anterior. Ninguém tinha explicação para o sucedido, mas o certo é que a população continuava a dar mostras de bom relacionamento, apesar da operação das NT da noite anterior. Às tantas, o Major Pinheiro pediu silêncio e transmitiu a sua interpretação solene sobre a origem da rajada nocturna: aquilo foi acto isolado de um cabrão de um turra que me assaltou os tomates, eu já fui hoje à horta e não sobrou um para amostra. Risada geral, incluindo o Romeira. Mas o Alferes Frederico e eu não conseguimos partilhar o riso colectivo. Como se estivéssemos pré-combinados, desatámos a correr até ao meio da parada, sentámo-nos no chão e só parámos de rir quando o sol ameaçou queimar-nos as caras. Foi uma das festanças mais lúdicas vividas naquela terra. Com a ajuda, há que ser justo, dos tomates do Major Pinheiro.
publicado por João Tunes às 00:05
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