Quinta-feira, 8 de Abril de 2004

UMA ENTREVISTA

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Um indivíduo faz muitas figuras ridículas na vida. Todas as entrevistas que dei à comunicação social foram desastres completos. A diferença, entre elas, é que umas foram mais desastradas que outras. Um tipo não é profissional do ofício. Preparamos as coisas para passar a mensagem tal ou tal. Vêm os vivaços da poda. Trocam-nos as voltas. Aquilo que queríamos dizer não tem cabimento nem oportunidade. Levam-nos por caminhos que nos engasgam. Nunca sai o que achamos importante porque o jornalista tem outro critério de importância. Sai sempre um caldo de água choca comparado com as nossas preparações e expectativas. Cada um faz o seu papel e põe à prova os seus talentos. Entrevistador e entrevistado. E uma entrevista é sempre um jogo de gato com rato.

A minha experiência mais falhada de dar uma entrevista aconteceu em Moscovo nos anos oitenta. Numa altura em que a coisa já andava tremida, o Brejnev já tinha batido a bota e os velhotes do Politburo não viram outra solução que chamarem o boss da KGB (Andropov de seu nome) para tentar aguentar o barco.

Fui lá mandado para participar num congresso que tratava de um tema crucial e decisivo para os destinos do mundo e que era “A Energia e a Luta Pela Paz”. Vejam só. Ali estive de auscultadores nas orelhas a gramar traduções de discursos de tipos de todos os cantos da terra, cada um a debitar formas várias de relacionar consonâncias num tema arranjado a martelo. Tudo na solenidade da célebre Sala das Colunas, bem perto da Praça Vermelha. Enfim, quem não faz o máximo que pode para que haja paz?

Às tantas, um jovem russo, simpatiquíssimo e falando fluentemente o português, aborda-me para eu dar uma entrevista para a Rádio Moscovo. Uma honra, pois então. O nome da emissora tinha ressonâncias heróicas dos tempos em que nós nos agarrávamos à telefonia, na noite salazarenta, para darmos de comer à esperança e à fé. Com certeza, é um prazer. O jovem esclarece que pagavam cachet pela entrevista. Indignei-me. Nem pensar, ora essa, bastava a sensação de, em vez de ouvir a Rádio Moscovo, ser agora a minha vez de falar ao mundo através da Rádio Moscovo. Tudo preparado. E era fácil, pois a entrevista seria toda em português. O entrevistador saca da sua pergunta: o que é que eu achava das propostas apresentadas pelo Andropov aos americanos, na véspera e numa outra conferência a ter lugar perto dos lagos suíços, para que se verificasse o desarmamento multilateral quanto aos mísseis intercontinentais. O que parecia fácil, tornou-se num bico de obra. Não fazia a mínima ideia nem que estava a haver o tal encontro soviético-americano e, menos ainda, quais eram as propostas do sábio e sabido Andropov. Pedi ao jovem russo simpático para parar a gravação e me trocar por miúdos o conteúdo das tais propostas de que me solicitava parecer. Ele riu-se e confessou que também ele não fazia a mínima ideia, havia uma cópia lá na redacção mas ainda não tivera tempo nem paciência para ler. E acrescentou: diga qualquer coisa de simpático, isso chega. Não ia comprometer a missão do jovem e muito menos perder a oportunidade de falar pela Rádio Moscovo. Gravador ligado, o jovem repetiu a pergunta e saiu-me a única resposta que consegui dar: Se é para haver Paz, acho muito bem. Nem mais nem menos. Tarefa concluída.

Como não tinha aceite cachet para proferir aquelas palavras solenes e profundas, quiçá capazes de influenciarem o desfecho de uma certa Conferência em Genebra, o jovem russo convidou-me para bebermos um copo de vodka fresquinha que pagava ele, ou melhor, pagavam as ajudas de custo disponibilizadas pelo proletariado soviético para o trabalho de informação e construção da paz mundial. Não ia ofendê-lo. Que bem que soube. Melhor, que bem que afogou uma formiguinha a mexer cá por dentro e com um travo de ridículo. Garanto que brindámos pela paz.
publicado por João Tunes às 15:15
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