Quinta-feira, 8 de Abril de 2004

JULINHO, O JARDINEIRO

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Júlio, conhecido por todos como Julinho, é jardineiro no Bairro, cuidando dos ralos espaços verdes da maior parte dos condomínios. Não porque Julinho seja um grande artista da jardinagem. Julinho é jardineiro sobretudo pela comiseração pública para com a sua pouca sorte. Um dos poucos exemplos em que a comunidade resolve proteger os mais infelizes, ajudando-os a sobreviver.

Julinho, em termos de crescimento, nunca passou do metro e quarenta mal medido. Ficou-se por ali e, como um mal nunca vem só, cedo lhe veio uma doença de má visão. Assim, o Julinho, além de minúsculo, não enxerga além de três palmos à frente do nariz. O que não impede o Julinho de ser zeloso nas suas fainas e cumpridor dos seus compromissos. A falta de vista é que não dá para grandes perfeições nem grandes apuros estéticos. Mas lá vai arranjando jardins de condomínios que lhe dão para a bucha, tanto mais que recebe abaixo da tabela.

Só uma vez, o Julinho foi despedido. Injustamente, diga-se. O dono do restaurante A Pérola do Índico (antigo colono em Moçambique como se depreende), resolveu plantar salsa e coentros no pequeno jardim plantado em frente como recheio ecológico do passeio e local preferido pelos caninos desejosos de se verem livres de apertos nas entranhas. O Julinho meteu a maquineta de aparar relva a eito e não viu as verduras aromáticas pelo que também estas foram cortadas rente à raiz. O antigo colono tinha coração de pedra e não suportou (por causa dos custos) ter de aumentar a conta no lugar de hortaliças, coisa que ele não tinha previsto no orçamento.

Os honorários da jardinagem mal dão para sobreviver e ainda menos para extravagâncias. A troco de um (mais outro e outro) copito de vinho, o Julinho conta as suas histórias sempre repetidas mas que ajudam a matar o tédio de comparsas dispostos a suportar pequenas despesas em troco de uma gargalhada garantida e quando se esgota a conversa sobre bola. Assim, pode-se dizer, com toda a propriedade, que o Julinho, além de jardineiro, também é um animador cultural cá do Bairro.

Sempre que o primeiro copo lhe é posto à frente do nariz, Julinho começa a desfiar as suas estórias. Fala então da sua Amareleja natal e das lutas dos trabalhadores de jorna contra o fascismo e os latifundiários. Diz que o pai e o tio estiveram presos pela Pide e que foi assim que ele adquiriu o seu espírito rebelde. Ele nunca foi comunista de cartão mas também fez greve pelas oito horas diárias de trabalho, espalhava Avantes durante a noite e esteve várias vezes detido no posto da GNR. Poucas horas de cada vez. É que o Chefe do Posto, apesar de ser um duro, acabava por ter pena da pequenez e da falta de vista do Julinho e não o imaginava como grande perigo para a ordem pública.

Mas o que a malta gosta mesmo de ouvir é o Julinho contar as suas histórias do tempo de tropa e que ele guarda para o fim para fazer render o peixe.

Julinho, por causa da escassez que havia de mancebos em boas condições físicas, foi incorporado como apto para o serviço militar e mobilizado para Moçambique. Para servir a pátria, como ajudante de cozinheiro num quartel na zona de Tete. Logo Tete e quando os guerrilheiros aqueciam a zona à fogachada para tentarem impedir a construção de Cabora Bassa. Diziam os comandos militares que, para descascar batatas, o Julinho servia perfeitamente. E mesmo que elas fossem mais ou menos para dentro do tacho, a tropa era tolerante com carências das NT na ânsia de dar cabo do IN. Um dia, os frelimos lembraram-se de atacar forte e feito o quartel onde estava o Julinho, deu uma de cagaço e pânico nas NT, deram todos à sola e deixaram o pequeno ajudante de cozinheiro abandonado entre os tachos e as panelas. O Julinho não esteve com meias medidas, quando ouviu as rajadas de Kalash já demasiado perto, atirou-se para dentro da panela maior de confecção do rancho e ainda teve artes de puxar para o seu posto a tampa da panela. Diz Julinho que os frelimos andaram a farejar na cozinha mas não se lembraram de destapar a panela abrigo. Permaneceu horas no seu refúgio, tanto mais que, tendo conseguido lá entrar, faltava-lhe arte para de lá sair. Nem sequer assomar, pois a tampa era pesada para burro. De regresso, depois de terem escorraçado os frelimos invasores, as NT contaram as baixas e acabaram por dar por falta do Julinho que esteve próximo de entrar na contabilidade dos desaparecidos em combate. Quase. A fome apertou, o rancho impôs-se, a panela grande foi destapada e o Julinho extraído lá de dentro.

Não se pense que, tanto devendo à sorte, ao acaso e à piedade dos vizinhos, o Julinho é um conformista. Mantém um porte altivo próprio de velho lutador contra a exploração latifundiária e de antigo combatente. E termina sempre as suas estórias com indignações hiper exclamativas contra as injustiças do mundo. E não perdoa aquela que lhe parece ser a maior das injustiças que lhe fizeram. É que o Julinho, terminado o serviço militar, meteu os papéis para se alistar na GNR. Opção devida talvez às lembranças da boa vida que eles levavam na sua Amareleja natal e pensar que tem uma dívida de gratidão para com a corporação que teve, nos seus quadros, um cabo generoso que o soltava em vez de o entregar à Pide. Certo é que a GNR o recusou para os seus quadros, por falta de altura e de visão. E quando chega a este ponto das suas narrativas, é que o Julinho levanta a voz: então eu servi como ajudante de cozinheiro em Tete e não sirvo para ser mais um pançudo da Guarda? E se algum parceiro lhe comenta: oh Julinho, como é que tu te ias dar ao respeito e passares as multas?, ele tem a resposta pronta: ora, ora, fazia vista grossa como os que lá estão.

Por falar no Julinho. Lá vai ele, rente ao passeio para se orientar melhor face aos obstáculos, mangueira enrolada a tiracolo e os restantes apetrechos de jardinagem bem seguros nas mãos. Aprumado, fazendo juz à sua condição de antigo militar. Dentro de fatos maiores do que ele e cedidos por vizinhos amigos. Vai para as suas lides.

A GNR não sabe o que perdeu. Quem sabe se o Julinho não lhes vai fazer falta lá no Iraque. As batatas podiam não ficar descascadas na perfeição, mas tinham as estórias do Julinho para levantar o moral das NT mobilizadas para as terras da Mesopotâmia.
publicado por João Tunes às 15:45
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