Segunda-feira, 12 de Abril de 2004

QUINTINO COBRA AS QUOTAS

Camaleao[1].jpg

O Quintino já tinha o cabelo branco antes de chegar a Revolução. Não era tão velho quanto parecia. O cabelo é que tinha embranquecido precocemente. Era hereditário, segundo ele, explicando que o mesmo tinha acontecido ao seu pai e seu avô. Além de branca, a cabeleira também era escassa. Todas as manhãs, num ritual que ia repetindo ao longo do dia, Quintino dedicava uns minutos vagarosos a acamar, pacientemente, os poucos cabelos brancos de um lado para o outro do crânio, de forma a melhorar o seu visual capilar.

Também não descurava outras vertentes quanto ao seu aspecto. Modesto escriturário, sonhando com uma carreira que lhe melhorasse o futuro, ele sabia que, para atingir os seus fins, a apresentação exterior era importante. Nunca chegaria a chefe de secção ou de departamento se causasse má impressão à observação atenta dos seus superiores. Assim, Quintino andava, por regra, vestido com fatos claros e usava, sempre, um lenço de seda (oferta de Natal) a compor-lhe o pescoço. Achava que aquele adereço era preferível à banal gravata como sinal de aptidão para ser chefia.

A empresa onde trabalhava estava fortemente conotada com o antigo regime e os seus usos e costumes. Quintino não queria destoar e para o tornar evidente aos olhos dos chefes, tinha sempre pendurado, e bem à vista, um enorme terço pendurado no vaso pintado (oferta de Natal) onde guardava as esferográficas e que se destacava na arrumação impecável da sua secretária.

Quando a Revolução chegou, Quintino percebeu num ápice para onde sopravam os ventos e que a empresa, tão conotada que estava com o anterior regime, só podia dar uma volta de cento e oitenta graus.

Ainda o Salgueiro Maia andava nos seus trabalhos frente ao quartel do Carmo, já o terço tinha desaparecido da secretária do Quintino e o aristocrático lenço de seda saído do pescoço. A ganga substituiu o fato claro e as camisas passaram a ser de flanela aos quadrados e desapertadas no colarinho (só num Natal, a mulher ofereceu-lhe três). No lugar antes ocupado pelo terço, passou a habitar um cravo vermelho feito em papel.

Não tardou que o Quintino pedisse conselhos sobre como se poderia inscrever no PCP. Conseguida uma proposta, a sua admissão como militante foi congelada pela forte resistência que provocou dado o seu comportamento anterior.

Quintino aguentou com paciência, muita paciência, as resistências que foi encontrando pela frente no caminho para se tornar comunista. Falava sempre nos Plenários, exaltando os novos ventos da democracia, do controlo operário e das nacionalizações. Ia, de t-shirt vermelha, às comemorações litúrgicas no Couço e em Baleizão. Dessas peregrinações, trazia fotografias que mostrava aos seus colegas de trabalho, confiando que o Partido se dispusesse a acolhê-lo no seu seio.

Embora com opiniões muito divididas, Quintino conseguiu entrar no Partido. Tornou-se um militante cumpridor, concordando sempre com a linha do Partido. O seu apoio exprimia-se com redobrado vigor quando a reunião tinha a assistência e o conselho político de um camarada do Comité Central.

Quintino chegou a chefe de secção e depois a chefe de departamento. No Célula, era o responsável pelos fundos e demonstrava zelo extremo na cobrança das quotas.

Quando os computadores invadiram a empresa e revolucionaram o trabalho administrativo, Quintino achou que uma revolução lhe tinha bastado. Pré-reformou-se e foi fazer trabalho político na sua área de residência. Ali, é ele o responsável por cobrar as quotas entre os militantes reformados, desempregados e domésticos.

Quintino voltou a usar um lenço de seda ao pescoço (prenda do último Natal). Ainda não perdeu a esperança de vir a ser Presidente da Junta de Freguesia. Não falhou na mobilização feita pelo Partido para se encher o Auditório Municipal na sessão de lançamento do último livro de Saramago.
publicado por João Tunes às 00:37
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De ines a 13 de Julho de 2006 às 01:20
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