Terça-feira, 13 de Abril de 2004

O ÍDOLO MORREU NO BARBEIRO

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Todas as crianças e adolescentes têm os seus ídolos. Até os adultos. E são vários e mutantes. Estão dentro de facetas variadas que permitem imaginar que ter fama e glória pode obter-se no passe de mágica de um sonho e de um forte desejo de mimetismo.

Os ídolos são fugidios, deixam marcas fortes e depois seguem viagem para dar lugar a outros. Vamos lidando com os nossos ídolos, gerindo a sua ausência e a sua intangibilidade. É o que nos dá paz por não sermos forçados a medir, taco a taco, a dimensão da nossa pequenez perante tanta grandeza, podendo viver com um pouco de fama emprestada.

O problema de lidar com os ídolos aparece se os temos à mão de semear. Se a distância desaparece e eles passam do sonho para a realidade. Ou caem com os seus pés de barro e adeus vindima, afinal são humanos como nós. Ou então são mesmo grandes e supremos e sentimo-nos mal porque a nossa auto-estima vai para o galheiro e depois é uma trabalheira para a recuperar, arranjando ídolo substituto que não ouse aproximar-se.

Arrasto, na minha memória, a sombra de todos os meus ídolos passados. Habitam comigo, dentro da minha pele.

Um dia, tinha para aí os meus onze anos, fui cumprir uma das obrigações terríveis que um miúdo tem de suportar devido à ditadura dos adultos. Havia um barbeiro bem junto ao campo do Barreirense com quem estava ajustado o contrato de, todos os meses, me cortar o cabelo. Aquilo era um tormento, o feitio do corte estava pré-escolhido, tinha um remoinho que era indomável, custava esperar ouvindo conversas intermináveis sobre assuntos que nada me diziam, parecia-me infindável aquele tanto tempo de tesouradas e aparadelas com uns toques agressivos na cabeça de cada vez que tendia a virá-la para o lado ou deixá-la descair.

O barbeiro tinha já iniciado a sua sessão de tortura quando se senta ao meu lado, ali mesmo ao pé de mim, um dos meus ídolos mais idolatrados. Era o José Augusto, famoso extremo direito, então ainda a jogar no Barreirense mas já a gozar de fama mais que merecida. Ia dando as minhas miradas de soslaio emocionado para o meu herói. O tempo foi passando e, enquanto eu ia sendo tratado secamente pelo profissional que cuidava da minha rebeldia capilar num crescendo de irritação, o colega que tratava do José Augusto era só mesuras e deferências para com o cliente famoso. E a minha tortura arrastou-se, nesse dia, muito mais que o normal pois quem cuidava de mim era todo vagares e intervalos para beber os pormenores que o José Augusto, ali ao lado, confidenciava sobre peripécias de jogos e treinos.

Não gostei da experiência daquela proximidade. Porque em vez de ganhar grandeza com a proximidade do meu herói, senti-me ainda mais desprezível e irrelevante. Nada tinha sido nem seria melhor por ter cortado o cabelo com o José Augusto ao meu lado. Pelo contrário. Naquele preciso momento, o jogador genial deixou de ser o meu ídolo. Ganhei-lhe até uma certa irritação. O corte foi total e absoluto quando pouco tempo passado sobre o episódio da barbearia, o José Augusto deixa o clube da terra para se transferir para o Benfica. De herói, o José Augusto passou a traidor. Reconheço que terá sido um grande artista, talvez o melhor extremo direito cá da terra lusa, mas ainda hoje não vou à bola com o sujeito. Apesar de também eu me ter transferido de amores (sem renegar o primeiro que nunca se apaga) para o clube que o foi buscar ao Barreirense e ele ser uma das glórias lá da Catedral.

Moral da história: devemos sempre manter os ídolos a uma distância conveniente. Sobretudo, não devemos cortar o cabelo ao pé deles.
publicado por João Tunes às 14:37
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