Terça-feira, 13 de Abril de 2004

VIAGEM PARA UMA TERRA COM UM LARGO

Bus_Station.JPG

Com os meus sete anos de idade tive direito às minhas primeiras férias no Algarve. Iria para Sagres a banhos durante dois meses nas férias grandes. Na altura, Sagres ainda não era terra para turistas (e a maioria do Algarve, tirando a Praia da Rocha e pouco mais) e os naturais viviam da pesca e da agricultura. Viver, viviam, mas mal. O nível geral era de pobreza remediada. O mar era difícil, os campos pouco mais davam que figos.

A razão de ir parar a Sagres tinha a ver com a Dona Francisca, uma algarvia nómada que fazia umas temporadas de costura como modista em Lisboa, recolhendo-se à sua terra durante o verão. Como a senhora costurava por encomenda para a minha Tia Ana, foram ajustadas umas férias para o sobrinho enfezado e a quem talvez o iodo e umas braçadas ajudassem a encorpar.

Fui metido mais a mala de bagagem na camioneta da carreira dos Belos que saia de Cacilhas e ia até Faro. A mala foi guardada no tejadilho da camioneta juntamente com as tralhas dos restantes passageiros. De cada vez que a camioneta parava, o motorista subia ao tejadilho através de uma escada metálica e descarregava as malas e embrulhos dos que se apeavam e carregava os trastes dos novos passageiros. Tinha a recomendação que devia descer em Lagos, onde me esperavam para me levarem para Sagres. Era a minha primeira viagem entregue a mim próprio. Perguntei como é que eu saberia que tinha chegado a Lagos. Explicaram-me que Lagos era uma terra grande e a camioneta parava num largo. Tentei fixar estes pormenores que eram fundamentais para me orientar. Repeti para comigo diversas vezes: Lagos é uma terra grande e lá, a camioneta para num largo.

Feitas as despedidas, a camioneta arrancou. Ao passar por Setúbal, a viagem já me parecia muito comprida. Fixei-me bem na vista pela janela pois já não devia faltar muito para o meu destino. O Algarve devia ser um bocado mais à frente mas não muito mais. Dentro de Alcácer e sem me ter apercebido do nome da terra em que tinha entrado, vejo compridos casarios e dou com a camioneta a parar num largo. Apresto-me a sair, suando com o receio de passar Lagos e ir parar a um destino mais longínquo. Peço ao motorista que me tire a mala do tejadilho. Indico qual é a minha maleta e num instantinho já a tinha ao pé de mim. Olho em volta e não vejo sinal da Dona Francisca ou de quem, a seu mando, desse sinais de me esperar. O motorista prepara-se para retomar a marcha mas um sexto sentido fá-lo reparar no meu ar de aflição. Desce da camioneta e pergunta-me se está tudo bem. Eu explico que não vejo quem me vinha buscar a Lagos para me levar para Sagres. Lagos? Sagres? Estamos em Alcácer. É a minha vez de não entender o que se passava. Alcácer? Mas eu quero ir para Lagos. O motorista volta a carregar a maleta no tejadilho da camioneta, manda-me subir e diz para estar tranquilo que, quando chegasse a Lagos, me avisaria.

A viagem pareceu-me interminável. E em quase todas as terras onde a camioneta parava, havia largos. Fixava crispado o motorista pois estava sempre com um tremendo medo de o homem se esquecer de mim e passar à frente de Lagos. A solução era fixar, placa a placa, os nomes de todas as terras. Mas os nomes que ia vendo desfiarem-se perante os meus olhos nada me diziam. Cercal seria antes ou depois de Lagos? E Milfontes? E Aljezur? A concentração e o nervoso eram tantos que não toquei na merenda que me tinha sido preparada para a viagem para os confins do Sul. Não me podia distrair e o nervoso afugentava a fome.

Lá cheguei a Lagos. E passada mais uma viagem adicional, já estava instalado na casa da Dona Francisca para início das minhas primeiras férias algarvias.

No regresso, tudo foi mais fácil. A camioneta dos Belos parava em Cacilhas e imobilizava-se a olhar para o Tejo, a bisbilhotar os passageiros dos cacilheiros. No meu raciocínio de então, formulei o juízo definitivo de que as camionetas estavam muito mal organizadas. Elas deviam sair de um sítio até outro sem paragens pelo meio que só serviam para baralhar os passageiros.
publicado por João Tunes às 23:34
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4 comentários:
De Joo a 14 de Abril de 2004 às 21:26
E eu não passo sem consultar a Sebenta. Abraço.


De cgama a 14 de Abril de 2004 às 18:46
A tarde era azul. Lembro-me da água do Atlântico naquele dia de Agosto. Lagos. Por ali andei, ando, nos dias de Agosto, sem rumo certo. Almoço no Charco, foto das pequenas junto ao Rei no meio do "nevoeiro" que o tragou além-mar...
cgama
leitor fiel e diário do Bota Acima.
um abraço


De Joo a 14 de Abril de 2004 às 14:11
Romantismo não é bobagem. É apenas um modo de estar. E não tenho nostalgia das minhas lembranças. Não me vejo é livre delas. Saudação amiga.


De Demter a 14 de Abril de 2004 às 13:29
Eu sou mesmo uma boba romântica... fico emocionada com a nostalgia das suas lembranças...


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