Quinta-feira, 15 de Abril de 2004

EM MEMÓRIA DO ANTÓNIO GRAÇA

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Estatura baixa, aspecto frágil, cabelos muito encaracolados e completamente brancos, lentes muito grossas por trás dos óculos que dominavam o rosto. Carregou, no corpo e na alma, os traços de muitos anos de clandestinidade, porrada brava dada pela Pide em inumeráveis sessões de tortura sem o conseguirem “rachar” e muitos anos de cativeiro em Caxias e em Peniche. A dureza da vida de clandestino e de preso político não lhe tiraram a curiosidade pela vida, a frescura e a ânsia dos afectos. Amou as mulheres que foi tendo e as filhas que foi fazendo. Adorava ter amigos à sua volta, com comes e bebes para alimentarem a fraternidade e as rodas intermináveis de cavaqueiras e de procuras incessante dos caminhos que evitassem os becos sem saída. No meio de tudo e de tanto que o António era, até nos esquecíamos que ele era um Dirigente. Porque o António Graça era membro do Comité Central do PCP. Até bater com a porta, depois de ter sido a alma e a chama da cisão da “Terceira Via”.

A vizinhança e a empatia permitiram o convívio a miúdo e o melhor conhecimento, misturando famílias, amigos e cumplicidades. A malta abancava na sua casa de Miratejo (que funcionava como centro gregário de uma teia de amizades), os nossos filhos amanhavam-se em brincadeiras (chegaram a fazer, entre si, uma admirável peça de teatro), a Cristina (uma sueca médica que foi companheira do António e mãe da sua filha mais nova) organizava os petiscos, os adultos circunspectos faziam política solta e ás vezes conspirativa, ia-se sabendo as últimas. Noutras vezes, o António vinha sozinho até minha casa, petiscava e bebia um copo de bom tinto, e ali ficávamos - ele, eu e a Cecília - até às tantas da matina, nós deslumbrados com o desbobinar de factos e episódios que saiam organizados e em catadupa daquela memória fora de série. Sempre com o rigor escrupuloso de quem está habituado a testar e confirmar toda e qualquer informação. Mesmo para com os seus adversários políticos, o António cortava cada vez que se acrescentava um ponto, nunca se guiando por rumores, apenas por certezas e factos confirmados. Para mais, o António parecia que conhecia toda a gente. Em grande parte, aqueles ficheiros imensos e armazenados no seu cérebro tinham a ver com a sua tarefa de responsável pelos serviços de informação do PCP.

Foi clandestino antes do 25 de Abril, depois, pela natureza da sua missão partidária, o António foi uma espécie de semi-clandestino. Reconduzido como membro do Comité Central após vários congressos, para o retirar da ribalta pública e não se assumir que o Partido tinha um serviço de informações, o António nunca era eleito durante os congressos, era sempre cooptado segundo uma quota criada internamente para o efeito. Estratagema criado para ele e para outros (aqueles que controlavam os militares, dirigentes da CGTP e alguns outros). Foi através do caso dele que soube que nem os militantes nem o povo conheciam a composição total do Comité Central. Os cooptados, durante as reuniões oficiais, eram mantidos à parte noutra sala durante o tempo em que os jornalistas entravam no consistório para olharem os dirigentes e lhes tirarem as fotografias da praxe. E os membros cooptados nunca eram referidos publicamente como dirigentes do Partido. Fazia parte das “regras conspiratórias” cumpridas mesmo em democracia.

Durante a clandestinidade, tinha sido responsável na margem sul. Quantas vezes, o António me apontava para este ou aquele prédio surgido na febre do betão e me dizia: olha, aqui havia um pinheiro onde eu costumava pregar um aviso para a confirmação da realização de um encontro clandestino. A seguir a 1962, teve problemas no Partido pois advogou a passagem a formas superiores de luta contra o fascismo (luta armada) e foi integrado no rol dos que se tiveram de se autocriticarem por “desvio de esquerda”. E foi, por um triz, que a Pide não o apanhou em Almada numa casa cheia, até ao teto, com tubos de dinamite.

Depois da “perestroika”, tornou-se crítico da direcção e sobretudo do despotismo magestático e estalinista de Cunhal. Foi a alma inspiradora da “Terceira Via” que agregou muita gente, o máximo de gente que uma dissidência no PCP jamais aglutinou. Teve os seus passos e a sua casa, vigiados por fiéis da direcção comunista. Outros vigilantes tinham sucedido aos pides para vigiarem os movimentos e as relações do António. Acompanhei-o nesse projecto. Criticou-me quando abandonei as hostes partidárias por não estar para aturar insultos e suspeições sempre que defendia a liberdade de se apresentarem teses alternativas ao Congresso ou o voto secreto contra o sagrado voto de mão levantada, sobretudo porque não aguentei mais a companhia de dirigentes que me convocaram à Sede para inquéritos policiais sobre as minhas relações e fontes de informações. Ele achava que o património do PCP não podia ficar entregue aos estalinistas, eu entendi, antes dele, que aquele estalinismo era congénito. Mas, embora mais tarde que eu, também ele acabou por achar que tinha chegado a hora de dizer basta e bater com a porta.

Não quis acompanhar a caminhada da maior parte dos “terceiras vias” que foram até ao PS. Idem quanto aos foram para o Politica XXI e depois para o Bloco de Esquerda. Nisso, mantivemo-nos no mesmo barco. Ou seja, sem barco.

Já fora do PCP, recusando apoios oferecidos de novos mandarins no PS (os “terceiras vias” que se abrigaram nos governos de Guterres), aos 55 anos de idade, o António meteu-se no mercado de trabalho para sobreviver. Passei a vê-lo menos vezes. Trabalhava que nem desalmado numa agência de composição gráfica para ganhar a bucha. As vezes que o via, perguntava-lhe quando passava a escrito o muito que aquela memória tinha armazenado. Ria-se e dizia que não tinha tempo.

Um lamentável equívoco não me permitiu acompanhar o António à sua última morada. Uma notícia de jornal dizia que o corpo sairia de Benfica e afinal o funeral partiu de Belém.

Resta-me a memória do António Graça, a saudade de o ouvir e ver aqueles olhos pequeninos (reduzidos pela forte miopia compensada por lentes grossíssimas) a brilharem e a acompanharem um sorriso irónico e terno. Um sorriso, aquele sorriso, que resistiu à ditadura fascista e ao cunhalismo.
publicado por João Tunes às 23:21
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3 comentários:
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De Joo a 18 de Abril de 2004 às 02:23
Bebamos o máximo que se possa beber e merecer ser bebido enquanto por aqui andamos. Pela parte que me toca, o meu maior desejo é deixar tudo seco e que não sobre uma gota para brindarem à minha ausência ou imitação de saudade. Depois, se quiserem, brindem-me com água do Tejo, com um pouco de vento da Serra do Marão ou um olhar sobre a planície alentejana no tempo das papoilas e do rosmaninho. Deixem-me os copos para mim. Para os me querem, que bebam poesia, apanhem uma bebedeira dela que me compense o desgosto que hei-de levar comigo por não ter sido o poeta que não fui.


De jpt a 17 de Abril de 2004 às 00:14
aqui na vidinha tão mais modesta e pacata quando rebentar cedo espero ter um amigo assim que beba um copo à minha anterior (já que não me vou em futuras)
à nossa


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