Segunda-feira, 19 de Abril de 2004

ESCLARECENDO...

OpiniaoVM[1].jpg

Às vezes, vezes de mais, a arrumação das palavras não sai como deve ser. Outras vezes, aquilo que se quis como imagem ou metáfora, é levado à letra. É o risco da escrita solta.

Vital Moreira comentou-me, num tom um pouco agastado, sobre um post que coloquei sobre a “Dissidência Comunista”:

“continuando intrigado como é que o argumento da “peneirice parlamentar” podia ter pegado contra mim dentro do Partido em 1987-90, quando eu tinha abandonado por decisão unilateral minha o parlamento em 1982, logo depois da revisão constitucional, por discordância do voto contra do partido...”

A imagem da “peneirice parlamentar” foi apenas uma imagem. Provavelmente infeliz. E não tem rigor factual. Pretendeu, apenas, dar uma amostra da atmosfera da altura. E a época que referi é anterior ao período apontado por Vital.

Sabe-se que no PCP, igual ou parecido noutros PC’s, a intervenção parlamentar é um foco de contradição. Por um lado, é a presença pública de maior impacto e de afirmação política mediática. Quer-se sempre mais votos, mais deputados, mais iniciativas, mais propostas de lei, mais debates, mais entrevistas. Porque é a forma mais prática de haver mais PCP servido aos olhos e ouvidos dos portugueses. Além de o legitimar como “força democrática”, a mais democrática. Mas, na concepção marxista-leninista, a Solução não passa por aí. Sabe-se onde está: na classe operária, nas Comissões de Trabalhadores, nos Sindicatos, nas greves, nas manifestações, na revolta, em todas as revoltas, que crescerão até chegarem à Revolução. A intervenção parlamentar é, apenas, uma “frente”, uma frente visível mas transitória e precária. A base de fé é sempre “isto não vai lá com votos”, mas e apenas até lá, quantos mais votos melhor. O brilho, quando excessivo, do trabalho parlamentar dos deputados comunistas sempre foi olhado internamente com desconfiança. Quer-se, no Parlamento, brilho qb. Quando a luz do brilhantismo parlamentar passa das marcas, há que pôr as coisas no sítio e no justo equilíbrio. Para que o Parlamento não ganhe ribalta à próxima concentração de trabalhadores, esses sim, os genuínos motores da História. Olhando para o passado democrático, se nos lembramos dos parlamentares comunistas mais brilhantes (Vital Moreira, Veiga de Oliveira, Zita Seabra, Carlos Brito, João Amaral, Octávio Teixeira), onde param eles ou onde foram parar enquanto vivos e intervenientes? Pois. Agora, sim. O equilíbrio e o bom senso na gestão dos quadros parlamentares, entrou nos eixos. Tirando a honrosa excepção de Lino Carvalho (bom parlamentar, demasiado apagado ou contido, opinião minha), temos Bernardino Soares e Odete Santos. A fidelidade medíocre mais a truculência ortodoxa. Como convém.

No caso de Vital Moreira, o seu brilhantismo da primeira fase (já o seu regresso pela bancada do PS foi uma enorme decepção, opinião pessoalíssima) sempre suscitou desconfianças por excesso de protagonismo numa frente que se queria “secundária” e “subalterna”. Na época, gostar demais da intervenção de Vital Moreira, era visto como um sintoma preocupante de “desvio social-democrata”. E quando ele quebrou a unanimidade numa votação num Congresso ou Conferência do PCP, abstendo-se num ponto qualquer, então foi a confirmação do “pior”. Eu estava lá, como convidado. E senti (embora não partilhando) a indignação estampada naquela malta habituada a que a “unidade do Partido” fosse expressa por um mar de cartões vermelhos, todos os cartões vermelhos, dos delegados a aprovarem (por unanimidade e aclamação) as propostas do Burô Político. Contar uma abstenção foi um choque e um trauma. Depois, passou sempre a haver uns tantos (poucos, muito poucos) cartões a destoarem no voto. Mas, aqui, é justo que se assinale que Vital foi o precursor. E reconheço que, na época, este gesto foi um acto de coragem política.

Penso ter sido mais claro. E mais justo.
publicado por João Tunes às 16:03
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4 comentários:
De Joo a 19 de Abril de 2004 às 23:07
Eh pá, não me fales mais em culpas e nos conflitos do Eu, do Nós e do Eles. Eu sou um pobre químico retirado das lides. E não vou ao psicanalista, chegam-me as duas psicólogas que tenho cá em casa. Mas elas não dão consultas no domicílio. Felizmente. Um grande abraço para ti. Força com esse excelente Abre-Latas e anexos. Até para a semana. Vou deixar-vos em paz durante uns dias.


De Teixeira Pinto a 19 de Abril de 2004 às 22:32
Não! A "bota leninista" é a que deve ser renagada por toda a Humanidade. Bota Acima é um óptimo nome de um blogue que sabe fazer juz às boas intenções onde eles existem. João, p.f., deixa-te de ironias de estilo "camarada". Ou a efeméride dos 30 anos de Abril está a comover-te ao ponto de te sentires culpado de seres livre? Bem, agora sou eu que estopu irónico? Abraço.


De Joo a 19 de Abril de 2004 às 22:10
É mesmo? Então é de pensar mesmo em mudar o nome do blogue para "Bota Renegada". Abraço.


De Teixeira Pinto a 19 de Abril de 2004 às 20:31
"(...)na concepção marxista-leninista, a Solução não passa por aí. Sabe-se onde está: na classe operária, nas Comissões de Trabalhadores, nos Sindicatos, nas greves, nas manifestações, na revolta, em todas as revoltas, que crescerão até chegarem à Revolução" - Ora, esta frase, justamente porque retrata uma situação verdadeira, suscita tem inúmeras implicações: (1) O PCP não é capaz de assumir publicamente que as suas regras de jogo não são as da democracia representativa/parlamentar; (2) Este tipo de "confissões" só se OUVEM entre militantes, mas só se ESCREVEM entre ex-militantes; (3) assim se compreende o ridículo de muitas situações (por exemplo, o C. Carvalhas a apoiar tudo o que é aumento de despesa pública e simultaneamente a apoiar o "manguito" dos semi-mafiosos taxistas que, coitadinhos, consideram um direito adquirido não pagar impostos. Muitas mais implicações são extraíveis desta singela confissão voluntária... Por isso, digo: vale sempre a pena ler os excelentes posts do João Tunes. Grande abraço.


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