Terça-feira, 27 de Abril de 2004

ISTO ESTÁ A FICAR GIRO

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Dá gosto ver a pluralidade da blogosfera. E como ela se estrutura, se desenvolve e ganha conteúdo e consistência. Pela velocidade de comunicação, a imprensa, manietada pelos bonzos do costume que peroram nas cátedras jornalistas com a borla de “comentadores”, quase todos chatos e previsíveis, os blogues passaram-lhe à frente e, houvesse maior massificação no acesso à Internet, poucos substituiriam um blogodebate pela leitura soporífera dos “comentadores políticos” que abancam nos jornais de referência. Claro que as excepções existem, aqui como em toda a parte e em todas as questões.

E bons exemplos dados pela dinâmica blogueira são os daqueles que abancam nas duas tendas. Compare-se o JPP dos jornais e da TSF e o do “Abrupto”. Ou, mais evidente ainda, Vital Moreira antes e depois de se meter em blogomilitâncias na “Causa Nossa”. Infelizmente, Francisco José Viegas, escolheu uma via deprimida de construir o seu “Aviz” que provoca um enorme desconsolo para quem admira as suas crónicas no JN e doutras paragens.

O facto de a geração blogueira, na sua grande maioria, andar pelos trinta e pelos quarenta (ou até menos) - ou seja, malta que não foi moldada nem no fascismo nem no 25 de Abril - introduz um factor de irreverência e de rapidez de raciocínio e de retórica, próprias de uma geração educada na era da informática e da comunicação instantânea. E aos mais velhos que esta vaga geracional, onde me incluo, resta-lhes a opção entre fecharem a loja (quantas vezes isso já me apeteceu…) ou alijarem lastros de argumentos feitos, ginasticarem conceitos (revendo-os permanentemente) para se aguentarem na onda e não fazerem figura de kotas parvos.

Interessante igualmente é a incapacidade de os Partidos controlarem as blogoemissões ao serviço dos seus slogans e palavras de ordem. Blogues com clara conotação de fidelidade monocolor, soltam-se e cometem heterodoxias dificilmente praticáveis em reuniões partidárias. A propaganda exige sedimentação táctica e supervisão unificadora, aspectos não praticáveis na praxis bloguista.

Claro que também existem arquétipos cristalizados. Bush mais o Iraque será o mais visível. Israel versus Palestina, idem. Terrorismo, igualmente. Mas pouco mais. O que não é pouco e é sempre demais. Mas, como sabemos, não existe céu na terra. Mas há inferno. Como o demonstra a peste clubística-futebolista que, também aqui, não podia faltar. E que serve, apenas, para dar uma leve pincelada lusitana e rasca à coisa.

A blogosfera tem vindo a aumentar a sua politização. Naturalíssimo, face à saturação do “fazer política” tradicional e aos maneirismos rotineiros que a comunicação social formatou. A liberdade bloguística trouxe muita gente para a política que, antes, a detestava ou lhe passava ao lado. Ou muito me engano, ou as elites políticas daqui por cinco anos, no máximo, serão constituídas por antigos blogueiros com uma nova geração de blogueiros a morder-lhes nas canelas.

Interessante, finalmente, a forma como a Direita e a Esquerda aparecem, desaparecem e reaparecem na blogosfera. E se desdobram, ramificam e se reinventam. Os trinta anos do 25 de Abril serviram para comprovar a pluralidade destas dinâmicas dos discursos. Claro que a maioria esmagadora é “abrilista” como não podia deixar de ser (um blogueiro a negar a liberdade e a democracia seria um contrasenso). Mas, lendo cuidadosamente, temos “abrilismos” para todos os gostos, estilos e matizes. Desde, nos extremos, o desânimo derrotista e “saramagiano” da “perda da revolução” (veja-se o “Oficina das Ideias”) e o culto por Isabel do Carmo elevada à santidade mítica de La Passionária (“O Vento lá fora”) até à provocação retórica e teatral do “25 de Abril, Nunca” no “Blasfémias”, a ultrapassar (ou a fingir isso, do género “vamos lá animar a malta”), pela extrema-direita, o sereno, sensato, institucional e neo-liberal “Fumaças”.

Sabe-se que também se pode morrer pela cura. E, no meu entender, o que impede a morte macaca da blogosfera por via da sua alta politização, saturando-a e levando-a para um beco sem saída, são os contributos plásticos, estéticos, intimistas e lúdicos, semeados por quase todos os blogues, amenizando e humanizando o debate, a polémica e a pequena quezília, a tudo dando uma dimensão relativa onde as crispações são, inevitavelmente, passageiras. E, acima de tudo, o uso e refinamento do humor (o pai do humanismo e a melhor forma de respeitar o próximo). Porque, assim, fica claramente visto e sabido que a política é um meio e não um fim. Porque nenhuma opinião é, ou pode ser, definitiva. Porque toda a opinião, comporta o "non sense" de ser uma verdade finita e transitória. E, aqui, neste tempero de relativismo da política, levando-a para o campo lúdico, arrastando os outros, impondo um estilo de leveza não dogmática, atribuo o mérito maior ao infatigável e impagável “Jumento”.

Resumindo: isto está a ficar giro.
publicado por João Tunes às 00:52
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7 comentários:
De Joo a 28 de Abril de 2004 às 23:54
Tem toda a razão o blasfemo CAA. De facto, referia-me a um posto de outro blasfemo (Rui A) que, confirmando o que foi dito sobre a pluralidade do Blasfémias, até teve contraponto noutro post do blasfemo Gabriel Silva. Fica a precisão. O "provocador" foi o blasfemo Rui A que apenas é um sétimo do Blasfémias.


De caa a 28 de Abril de 2004 às 19:31

http://ablasfemia.blogspot.com/2004_04_25_ablasfemia_archive.html#108317639222596407
Para que conste:

1. O Blasfémias é um Blogue empenhadamente liberal e suprapartidário;

2. Os 7 (magníficos) blasfemos dividem-se entre independentes e membros de 3 partidos políticos distintos;

3. Ainda assim, a maioria dos que estão ligados a forças partidárias fazem-no numa atitude próxima do diletantismo político, i. é sem condicionar a sua visão da realidade pela voz oficial do partido - tentando, aliás, reverter a lógica desse processo - e nunca prescindindo da sua liberdade de opinião e da defesa dos ideais liberais;

4. Qualquer esforço de "colagem" do Blasfémias, enquanto Blogue livre, a uma força partidária será sempre ociosamente ridículo, sendo o infeliz autor de tais asserções constituído em objecto perigosamente próximo da ácida ironia concertada dos blasfemos.

(não é o caso do Bota Acima, mas começa-me a irritar a conotação que alguns blogues estão a fazer do Blasfémias com um certo partido porque há uma das sete pessoas de lá que é filiado...)


De Joo a 28 de Abril de 2004 às 11:18
Venha de lá essa tradução...


De Alex do blog a 28 de Abril de 2004 às 10:33
Finalmente descobri prq as pessas falam tanto do Aviz! Então ele escreve coisas de jeito para os jornais? Está aí a explicação!

Quanto ao Iraque, nem nos blogs se encontram coisas de geito, excepto no blog da "minha menina" em Bagdad!
Estou numa de resumir e traduzir o q ela escreve a ver se os bloguistas percebem o q se passa no Iraque.


De Joo a 27 de Abril de 2004 às 23:17
Temos então sintonia plural. Bem hajam. Abraços.


De Marco Oliveira a 27 de Abril de 2004 às 22:39
Esta pluralidade é um reflexo da nossa sociedade.


De Leonel Vicente a 27 de Abril de 2004 às 19:48
Parabéns pelo "post". Muito boa análise!


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