Quarta-feira, 28 de Abril de 2004

EURO QUÊ?

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O Abre-Latas está felicíssimo com o próximo alargamento da União Europeia. Não conteve a sua exaltação e partilhou-a em termos épicos:

“Uma coisa parece segura: sem alaridos, a Europa dá um passo de gigante rumo ao futuro. Dentro de cinco dias, inicia-se uma nova página da História da Europa. Será porventura mais brilhante do que todas as que já foram escritas. Pela primeira vez, à mesma mesa, estarão sentados quase todos os povos europeus... E alguns dos que faltam não estão esquecidos...
Está pois para muito breve o dia em que me sentirei em casa se estiver em Tallin, Praga, Varsóvia, La Valeta, Vilnius, Budapeste, Liubliana, Nicósia, Riga ou Bratislava.”

Tentei pôr um bocado de água fria em tanto entusiasmo heróico-europeísta e falei na falta da “Europa Social” e nas consequências dos alargamentos em simultâneo com sucessivas integrações de economias que sustentam a sua produtividade em políticas de salários baixos (na altura, mal sabia que, no dia seguinte, Cavaco Silva ia dizer parecido a empresários reunidos em Santa Maria da Feira). Deu para receber logo o rótulo (a velha e persistente mania de se etiquetar para se ganhar posição) de euro-céptico(!) (mal ele sabe o que passei anos a fio por defender a integração europeia em casa de anti-europeístas). Depois, justificou o tom do seu discurso:

”O discurso construtivo é sempre o mais difícil de erigir, pois que não se pauta pela lógica do incessante ruminar do queixume, e muito menos será tributário do criticismo episódico que, qual comichão, tem feição de sintoma migratório.
Não, o discurso construtivo é sempre o que menos agrada a quem está de mal com o mundo. Mas por vezes é o que melhor reflecte o âmago de certos assuntos.”

E arrasou com meia dúzia de argumentos de Fé que, como se sabe, é coisa que não se discute. Senti-me um herege em plena missa a necessitar de confissão, absolvição e hóstia redentora. E a homilia do meu amigo Teixeira Pinto, chega ao ponto deste elogio beato à Santa União:

“A integração europeia ocorreu e naturalmente ocorrerá como uma sequência de vagas sucessivas. A primeira vaga é de natureza económica (desde a CEE, CECA.... até à moeda única.... e, no futuro, veremos o que mais virá), a qual só pode avançar se for secundada por uma segunda vaga de integração política (começou com a criação de instituições supranacionais e avança agora para uma união política constitucionalmente definida... e, no futuro, veremos o que mais virá); com a integração política surgem condições para uma terceira vaga – esta mais da responsabilidade dos cidadãos – de integração social: aparecimento de partidos de dimensão europeia, uniões sindicais à escala europeia, etc...”

Isto é, os Estados tratam das economias e das papeladas (incluindo as Constituições), os cidadãos (!) que tratem do resto (do social, do cultural, do etc.) se … quiserem.

Ainda não estou devidamente recomposto. Valeu-me, em alívio no desconsolo, ler a “declaração de voto” de Vicente Jorge Silva no Causa Nossa:

“Apesar da minha identificação plena com um projecto federal europeu – diferenciando-me, por isso, das posições assumidas pelo Partido Comunista Português, o Bloco de Esquerda e o Partido Ecologista Os Verdes –, não me conformo com o défice democrático actualmente existente no funcionamento das instituições europeias. Encarar a Europa como uma fatalidade e não como um desígnio assumido e desejado voluntariamente pelos portugueses constitui uma contradição e uma perversão do contrato estabelecido entre as partes. Qualquer alteração do pacto anterior, a nível constitucional, entre os portugueses e a Europa, deveria ser precedido de um referendo.”

Pelo menos, já somos dois a aquecer no purgatório dos renitentes às hossanas “construtivas”. Ámen.
publicado por João Tunes às 13:24
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4 comentários:
De Joo a 28 de Abril de 2004 às 18:20
Bom trabalho. Abraço.


De Teixeira Pinto a 28 de Abril de 2004 às 17:40
Dou-te a missa que quiser, e tu és livre de sair da Casa do Senhor... Mas, agora vou labutar estes dois dias e, o mais tardar, na sexta terás os tais argumentos. Até lá um abraço, e viva a polémica.


De Joo a 28 de Abril de 2004 às 17:37
Ora aí está uma tese interessante. Venham os argumentos. Não me dês é missa. Abraço.


De Teixeira Pinto a 28 de Abril de 2004 às 17:33
João, em primeiro lugar, uma sugestão provocatória: muda o nome do teu blogue para Bota Abaixo. Em segundo lugar, foste mais parcial na caracterização das nossas posições do que eu fora quando fiz um post a partir da troca de galhardetes prévia. Agora, a questão de fundo (e sem "homilias à Santa União", mas com a promessa que darei uma resposta mais exaustiva no Abre-Latas): SOU A FAVOR DO ALARGAMENTO DA UE, E QUANTOS MAIS PAÍSES DE MÉDIA E PEQUENA DIMENSÃO ENTRAREM MELHOR PARA O PROJECTO EUROPEU, MELHOR PARA UM PAÍS COMO PORTUGAL E MAIS URGENTE SE TORNARÁ O APROFUNDAMENTO DA INTEGRAÇÃO EUROPEIA, PARA NÃO TERMOS QUE ANDAR A REBOQUE DOS ESTADOS UNIDOS. É EXACTAMENTE ISSO QUE DEVEMOS SAUDAR. Tenho dito. Um abraço, e não perdes pela demora. O desafio promete.


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