Quinta-feira, 29 de Abril de 2004

SÓ SE DESCOLONIZA O QUE SE COLONIZOU

13g[1].jpg

Para quem andou na guerra colonial, não é fácil pisar e repisar o tema daquela guerra, da colonização (e da descolonização). Trouxeram-se de lá feridas que cicatrizam mas voltam a abrir. Não falo das feridas físicas nem das marcas deixadas pelos traumas de experiências extremas para se sobreviver. Falo das feridas deixadas por uma memória partilhada por centenas de milhares mas escondida e recalcada porque, socialmente, os arquétipos ideológicos ainda saltam demasiado depressa para poluírem e impossibilitarem a partilha e a catarse. Passados tantos anos depois do fim da guerra colonial, a paz ainda não nos é possível. Porque muitos não querem saber o que foi a guerra. Outros não querem contar o que sabem e não querem enfrentar o que fizeram. Muitos, demasiados, falam da gesta da guerra e da descolonização com a ligeireza oportunista dos papagaios políticos ou como chapéu para pedinchar votos. De uma forma geral, os ex-combatentes ou são desprezados, ou silenciados, ou andam connosco ao colo como heróis retroactivos para pintar o mural do mito patriótico-imperial que só lhes serve para mover o moinho do negacionismo de Abril.

Independentemente do contexto político, os combatentes viveram situações de grupo cujo fito maior era a sobrevivência. O que implicava tudo o que nisso é normal que aconteça. Matava-se para não morrer, vingavam-se os que morriam, depois, matava-se porque se matava. Na guerra, a morte está sempre presente. No mínimo, através do medo de morrer. Mais, nessa dança da morte, a morte era, tinha que ser, hierarquizada. Valorizava-se a nossa vida e a vida dos nossos camaradas, desvalorizava-se a vida dos “outros” porque a vida deles era a nossa morte. E sabíamos bem que a nossa morte era a vida deles.

Durante duas vezes ainda frequentei os jantares anuais com os ex-combatentes do Batalhão a que pertenci quando fui para a Guiné. Eram rituais de regresso emocional aos tempos de partilha de um grupo metido nos mesmos assados. Todos mais gordos, mais carecas e mais velhos, a recordarem os fados cantados, os copos bebidos, as patuscadas feitas, os engates das pretas, as chalaças e as patifarias benignas. A guerra, a guerra propriamente dita, essa ficava à porta. E não se faziam, não se conseguiam fazer, perguntas sobre como tínhamos ido lá parar. Porque lá estivemos. Predominava o sentimento da amizade solidária construída em situações de sobrevivência. E os abraços eram sempre mais que as palavras. Os risos reprimiam a revolta da estupidez política de termos estado juntos na Guiné. Parecíamos um grupo excursionista de antigos estudantes que haviam estado na Guiné em viagem de finalistas. Mas eu, e os outros (lia-se nos olhos), sabíamos que ali faltavam os que não tinham voltado. E que a cada um de nós faltava uma lasca da juventude despedaçada nas bolanhas daquela terra no cú de Judas. Deixei de aparecer nesses almoços. Porque ia para lá com a ansiedade de um reencontro e voltava com mais solidão, mais estúpido e mais sofridamente revoltado. Outros devem ter sentido o mesmo. Deixaram de se fazer os tais almoços de saudade.

Para quem não andou na guerra, é fácil falar dos “crimes da descolonização” e do “abandono”. Imaginar uma descolonização controlada politicamente, faseada, com princípio, meio e fim. Tudo nos eixos e conforme os interesses estabelecidos. Os colonos em paz e com os seus bens salvaguardados. Porque pedem emprestada a coragem e as vidas de outros. É um abuso, mas abusadores existirão sempre.

Para quem andou na guerra, sabe porque é que a descolonização foi o que foi. Porque sabe que as guerras estavam perdidas. Porque sabe que a nossa colonização não permitia descolonização. Porque sabe que o MFA já germinava muito tempo antes de ele existir. Porque sabe que a guerra nunca devia ter existido e durou tempo demais. Porque sabe que a descolonização que existiu foi o mais optimista de todos os cenários criados pelo prolongamento sem nexo da guerra e da presença colonial. Porque sabe que as desgraças que governam as antigas colónias foram criadas pela “nossa” colonização e pela “nossa” guerra.

Sei que eu, e outros muitos, muitos mais, vamos ter de conviver com as tiradas dos senhoritos que usaram fraldas depois do 25 de Abril, mais os velhos saudosistas, pedindo, agora, contas pelos “erros” da descolonização. Não tem importância, esses senhores falam na descolonização porque não querem falar na colonização. Não tem nada que saber. Para eles, a história (com querem ajustar contas) começa em 25 de Abril de 1974.

Neste panorama, sabe bem ouvir outros. Compensa, equilibra.

Recomendo aos interessados no tema que leiam o post lúcido que o Carlos Gil do Xicuembo lá colocou e onde traz a sua memória de ex-colono branco em Moçambique. E, para os que falam nos “crimes da descolonização”, aprendam um pouco sobre os “crimes da colonização” na excelente entrevista publicada hoje no Público (não se consegue aceder a ela na versão on-line) com a historiadora Dalila Mateus a propósito da sua tese de doutoramento sobre a Pide em África.
publicado por João Tunes às 14:06
link do post | comentar | favorito
|
7 comentários:
De Jlio Fernandes a 14 de Janeiro de 2006 às 17:07
Acho legítimo e mais que justo, que se apoiem os ex-combatentes, já o deviam ter feito há muito, pois responderam á ordem de quem governava, cumprindo assim com um dever a que estavam ajuramentados. Se a ordem foi certa ou errada, é outra conversa. Mas neste dia do heroi nacional, ponho, ao lado dos militares, todos os civis escorraçados pela mesma guerra, que sem estarem enquadrados como militares, rudimentarmente armados, isolados e com mulher e filhos ao lado, morreram defendendo-se uns aos outros, fugindo somente quando já nada podiam fazer. Compreendi sempre o desejo dos povos á independência assim como concordava com tal desfecho para as ex-colónias. Mas sempre contestei o modo como o assunto foi feito e alimentado desde 1960. Veio o 25 de Abril onde uma situação insustentável, de não ata nem desata, foi ainda mais borrada quando os águias da democracia nascente tentaram remendos, apadrinhamentos e intriga, no sentido de salvaguardarem uns certos interesses económicos. Mas já era tarde e somente conseguiram assanhar os lobos partidários, que já tinham os seus objectivos pensados. Resumindo: Respeito e admiro os ex-combatentes que lutaram no Ultramar, respeito, admiro e tenho saudades dos ex-ditos colonos civis e desprezo com ardor, os políticos do meu País que destruiram para sempre territórios, em que todos, de mãos dadas, sem racismo e em plena harmonia, poderiam ter construido fortes e prósperas nações. Enviado por António Fernandes em janeiro 14, 2006 05:02 PM


De Joo a 1 de Maio de 2004 às 00:56
Um abraço para os simpáticos visitantes.


De Isabella Oliveira a 30 de Abril de 2004 às 22:21
Muitos parabéns por este texto. Mais, obrigada!!!
Tão necessário se torna não branquear este assunto.


De Carlos Gil a 30 de Abril de 2004 às 20:50
Obrigado pela referência. Ciclícamente, parece-me que vivi em Marte e que África era um éden. A chatisse é que vivi lá e não me recordo de harpas e de anjinhos.


De Marco Oliveira a 30 de Abril de 2004 às 18:37
Nunca estive na guerra. Mas simpatizo muito com o que escreveste.


De Joo a 29 de Abril de 2004 às 17:21
Como eu gostava de ter esse poder de síntese. Abraço.


De jpt a 29 de Abril de 2004 às 16:41
ponto final parágrafo


Comentar post

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Setembro 2007

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30


.posts recentes

. NOVO POISO

. ESPANHA – GUERRA CIVIL

. ESPANHA – GUERRA CIVIL (1...

. ESPANHA – GUERRA CIVIL (2...

. ESPANHA – GUERRA CIVIL (3...

. ESPANHA – GUERRA CIVIL (4...

. ESPANHA – GUERRA CIVIL (5...

. ESPANHA – GUERRA CIVIL (6...

. ESPANHA – GUERRA CIVIL (7...

. ESPANHA – GUERRA CIVIL (8...

.arquivos

. Setembro 2007

. Novembro 2004

. Agosto 2004

. Julho 2004

. Junho 2004

. Maio 2004

. Abril 2004

. Março 2004

. Fevereiro 2004

blogs SAPO

.subscrever feeds