Quarta-feira, 5 de Maio de 2004

SOBRE OS PESOS E AS MEDIDAS

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Pode-se sempre contrapor um outro caso ao caso de que falamos. Por necessidade de sermos justos e equitativos mas também como forma de desviar a conversa e assobiar para o lado. Desta última forma, consegue-se sempre, umas vezes mais, outras nem tanto, relativizar o peso do objecto da denúncia. A técnica é velha. Apenas dois exemplos (África e Cuba):

- Há uns tempos atrás, alguém incomodado com as denúncias sobre as governações em Angola e Moçambique, fez o convite público para que nos preocupemos com o Sudão. E quando se falou das mordomias de Eduardo dos Santos e Chissano, mandou comparar com iguais (ou piores mordomias) de outros chefes africanos.

- Se se fala nas prisões em Cuba, certo e sabido que vem Guantanamo à baila mais uns tantos presos cubanos que penarão nos EUA. E Cuba beneficia sempre, sempre, do álibi do boicote e das patifarias de Bush para relativizar a natureza criminosa da ditadura de Castro.

Naturalmente, cada um tem os seus critérios e as suas prioridades. Eu não fujo à regra.

Entre as perversões, os ataques aos direitos do homem e ao cercear das liberdades, não tenho, não devo ter, não posso ter, dois pesos e duas medidas. Porque tem de haver um critério universal e único para medir os comportamentos condenáveis que têm de estar sempre em sintonia com a medida absoluta da dignidade humana, enquanto ser humano e como membro de uma comunidade. Uma tortura no Iraque (no tempo de Sadam ou sob ocupação americana), no Vietname, na China, em Cabinda, no Peru, no Malawi, na Suiça ou em Cuba, valem o mesmo: ofensa à pessoa humana (no caso do torturado) e degradação da pessoa humana (quanto ao torturador). Idem para com prisão por delito de opinião. O mesmo relativamente à aplicação da pena de morte. Aspas para a limitação do exercício da liberdade de expressão ou de manifestação. Isto quanto aos actos.

Mas faço uma distinção de valorização adicional. E esta tem a ver com a hipocrisia ideológica que pretende justificar atentados aos valores humanos e democráticos.

Explico-me melhor.

Os fascistas e nazis cometeram crimes horrendos, mas “tudo” o que fizeram estava nos seus programas e nos seus projectos de mobilização do ódio das massas. Na marcha para o poder, os nazis “disseram” que iam acabar com os judeus, os comunistas, os ciganos e os homossexuais e que iam ocupar as terras eslavas “por necessidade de espaço vital” e que os povos eslavos eram uma sub-categoria humana destinada a ser escrava dos arianos. Foram bandos de assassinos organizados que cumpriram um “programa anunciado”.

No outro lado do espectro, as tiranias em nome da “esquerda”, nada ficando a dever em número de vítimas e nos métodos utilizados à “tirania de direita”, foram feitas em nome do contrário do praticado. As “vítimas do comunismo” (ontem e hoje) pereceram, perecem, sofreram, sofrem, em nome da igualdade, da fraternidade, da libertação do homem, da sua redenção como homem novo e livre da mesquinhez, do egoísmo e da opressão. Foram e são bandos de assassinos organizados que cumprem o inverso dos seus “programas”.

Nesta mesma medida, eu não posso tolerar que os dirigentes e quadros da Frelimo, do MPLA e do PAIGC, porque lutaram contra o colonialismo e em nome da independência e prosperidade do seu povo (foi esse programa que os legitimou a receberem o poder), se atasquem na corrupção e desprezem os interesses mínimos dos povos em nome dos quais lutaram. E, nesta medida, tenho maior severidade a julgá-los e a reprová-los que a repulsa e a condenação (totais e absolutas) que sinto perante os crimes coloniais.

Portanto, caros amigos que se incomodam com a insistência dada neste blogue à denúncia da ditadura castrista, os crimes cometidos por Fidel Castro, em nome da “libertação”, são naturalmente julgados com especial severidade. Porque Fidel, em cada prisioneiro por delito de opinião que manda para as masmorras de Cuba, comete um duplo crime: prende, tortura e condena a diferença, e ainda nega e renega os ideais em nome dos quais pratica os seus crimes.

Ao fim e ao cabo, trata-se apenas de uma questão de ser exigente na opção de se ser de esquerda.
publicado por João Tunes às 00:22
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13 comentários:
De Joo a 7 de Maio de 2004 às 14:00
Tb ouvi a entrevista. Excelente. Esclarecedora. Abraço.


De Werewolf a 7 de Maio de 2004 às 01:20
Excelente post que se prolonga pela generalidade dos comentários aqui deixados.

Ficou em mim gravada a afirmação de ausência de equidistância, porque de facto não podemos sê-lo. Por isso os atropelo que uns (a direita) fazem à condição humana são o resultado da sua "odiologia", está-lhes na carne, não nos surpreende, mas a dos outros tresanda a traição. Ouvi hoje um escritor chileno (Roberto Ampuero) no pessoal e transmissível abordar este mesmo assunto, também ele segue na mesma direcção.


De Joo a 6 de Maio de 2004 às 11:48
De acordo, caro Marco. Mas digo de minha justiça: a) Utilizar politicamente a defesa dos direitos humanos, é a melhor forma de fazer política, só se perdendo a que não se faz; b) O conhecimento dos atropelos aos direitos humanos, já resulta de uma "filtração política", logo a politização começa no início do "conhecimento dos factos"; c) Não se pode ir a todas ao mesmo tempo, eu assumi no meu post o meu critério - dar prioridade aos casos onde o atropelo aos direitos humanos é feito por gente que invoca nobres ideais (porque temos aqui duplo atropelo = atropelo + hipocrisia). Estes são os meus critérios assumidos. Os outros que respondam pelos seus. Abraço.


De Marco Oliveira a 6 de Maio de 2004 às 10:35
Quem não respeita os direitos humanos, deve ser punido; e a punição deve ser igual para todos.
tu podes falar de Cuba, outros falarão do Irão ou da Coreia do Norte ou da Arábia Saudita...
O que por vezes me incomoda e a utilização da "defesa dos direitos humanos" como arma política. Por exemplo: em alguns blogs houve uma campanha sobre a libertação do Vanunu em Israel; mas a insistência no caso dele era tão grande, que se tornava óbvio o objectivo político da campanha.
Entretanto situações mais graves de atropelo de direitos humanos vão ocorrendo por esse mundo fora e ninguem parece dar muita atenção.
Por isso acho que devemos tentar ser o mais equitativos possivel na atenção que damos a todos estes casos.


De Joo a 5 de Maio de 2004 às 22:29
Registo com agrado a veemência e a substância destes depoimentos politicamente (in)correctos. Não seria tão radical mas eu sou um pobre reformista.Avante! E um abraço.


De politicamente (in)correcto a 5 de Maio de 2004 às 19:59
Em relação a Cuba a questão também infelizmente é de outra ordem. Para ser franco diria que é principalmente do foro mental. Do deles cubanos mas também do nosso europeus. Cuba resiste com a sua ditadura de bicicleta principalmente por causa da França, do apoio dos Regis Debray e de uma certa clique francesa neardentalmente "revolucionária". Aguentamos Cuba porque não estamos lá. E se alguém se vira contra Cuba, mesmo que lá se mate sem julgamento, é o diabo, viramo-nos todos, incluindo Saramagos e acusamos os EUA de ingerência, o mau do texano é que é culpado, a culpa é do bloqueio. Temos Cuba no coração como se tivéssemos parado no tempo. Como eles.
E estamo-nos nas tintas para os que padecem lá. Confiamos que apesar da bicicleta e da falta de parafusos, vivem porreiramente, estão com a Revolução. E à falta de outro argumento vem-nos ã memória uma frase perdida (hoje é o primeiro dia do resto da minha vida... mas francamente pá, o que é que isto quer dizer?), isto é, os dias da generosidade revolucionária, os dias da Sierra Maestra, os dias de Camilo Cienfuegos, de Che e de tantos outros. E é essa memória que nos inebria e nos torna míopes. Saramago é um homem míope, generoso sem dúvida, mas com uma enorme miopia. É a generosidade dos primeiros dias da Revolução Cubana (e Russa, e Chilena), que nos cega a todos.


De politicamente (in)correcto a 5 de Maio de 2004 às 19:10
Infelizmente não é verdade. Ou seja quer os fascistas negros, quer os fascistas vermelhos (os estalinistas), dizem sempre o que têm na ideia fazer. O pior é quando não se consegue ou não se quer perceber o que eles dizem. Com Hitler foi assim. Com Estaline idem.
Por cá a mesma coisa. Toda a gente sabia que os fascistas vermelhos tinham invadido a Hungria e mais tarde a Checoslováquia, mas todos continuávamos a acreditar que tudo era feito em nome do "proletariado" e das massas oprimidas. Mesmo quando se matava (como no nazismo), era sempre por uma boa causa.
Eu estive no PCP da luta continua Mota Pinto Prá Rua , até à altura em que os fascistas vermelhos de cá e de lá, atacaram o Solidariedade. Já era demais. Tinha estado num dos cursos de leninismo e fui despedido com a acusação de anarquista. Nem sequer me deram hipótese de argumentar o oposto, que eles é que estavam despachados da cabeça. Mesmo com um filho de 3 anos ao colo, ameaçaram-me físicamente num dia em que tentei defender um grupo de jovens numa manifestação que ostentava um cartaz contra Brejnev.
Por fim saí e nunca mais lhes passei cartão. Ao dito rasguei-o e atirei-o para a retrete comunitária do Bairro Alto. Ainda lá deve estar.
Politicamente (in)correcto


De Joo a 5 de Maio de 2004 às 14:09
Oh Luis mas pode botar faladura que não estraga a desgarrada. Abraço.


De LNT a 5 de Maio de 2004 às 13:47
Impossível ir daqui, em pésinhos de lã, como se não tivesse lido a boa prosa dos comentários.
Sá para marcar presença e dizer que as vossas palavras têm a graça de quem as escreve.
Obrigado e um abraço


De Joo a 5 de Maio de 2004 às 12:22
Registo a substância temática. Espero pelos desenvolvimentos. Há por aí muito tema que me interessa {África e Europa, pelo menos (mas,se possível, uma coisa de cada vez, para não baralhar as ideias)}. Leitor compulsivo do Ma-Schamba, lá irei, contendo a ansiedade, com a persistência do costume. Não falou foi do tema que mais me aguça o apetite - esse mesmo, as touradas na África do Sul... Abraço. PS (sem Craxi): essa da polarização esquerda/direita em comunismo-nazismo, essa é mesmo redutora, forçada e de nítida má-vontade batoteira mas ninguém é perfeito. Eu que até voto nos entremeados...


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