Segunda-feira, 17 de Setembro de 2007

NOVO POISO



Agradeço a visita. Por aqui deixei escrevinhadelas várias que pode procurar nas páginas de arquivo (Fevereiro 2004 a Novembro 2004).

Daqui, parti para os seguintes poisos: Agua Lisa (1), Agua Lisa (2), Agua Lisa (3), Agua Lisa (4), Agua Lisa (5) e Agua Lisa (6).

Saudações do João Tunes.
publicado por João Tunes às 21:49
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Segunda-feira, 22 de Novembro de 2004

ESPANHA – GUERRA CIVIL

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Dediquei noutro blogue, uma série de textos (27) de reflexão sobre a Guerra Civil em Espanha (1936-39), um tema que, do ponto de vista humano, histórico e político, me fascina.

Resolvi transferi-los para aqui de forma a permitir a sua leitura continuada.
publicado por João Tunes às 16:48
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ESPANHA – GUERRA CIVIL (1)

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UMA AUTOCRÍTICA

“Sinto-me responsável por não ter impulsionado um debate sobre o nosso passado histórico, o franquismo e a Guerra Civil, na altura em que ele era, provavelmente, mais oportuno. Fui presidente do Governo, com maioria absoluta, na altura do quinquagésimo aniversário do começo da Guerra Civil e também de igual efeméride do fim da mesma. Duas datas bem significativas, em termos históricos. Teria até sido “conveniente” abrir um debate sobre o tema, nos momentos em que nós, os socialistas, estávamos em posições difíceis. Não o fiz, apesar de assistir, com mágoa, que o Vaticano continuava a beatificar dezenas, às vezes centenas, de vítimas do lado dos vencedores, exaltando-as como vítimas da “cruzada”, como ainda lhe chamam. Entretanto, não houve nem há exaltação, nem sequer reconhecimento, das vítimas do franquismo, por isso sinto-me responsável por uma parte da perda da nossa memória histórica e que permite agora que a direita se negue a reconhecer o horror que representou a ditadura, fazendo-o sem que por isso sofra castigo eleitoral e social, sem que os jovens se comovam, porque nem sequer sabem o que aconteceu.”

Estas são palavras de humildade e autocrítica ditas por Felipe González, numa entrevista ao jornalista e escritor Juan Luís Cebrián, inseridas no livro “El futuro no es lo que era”.

(na foto, freiras espanholas fazem a saudação fascista, celebrando a entrada vitoriosa de Franco em Madrid)
publicado por João Tunes às 16:45
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ESPANHA – GUERRA CIVIL (2)

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RAZÕES PARA UM INTERESSE

Ainda não era nascido quando a Guerra Civil de Espanha começou e acabou. A minha mãe tinha resolvido esperar que a II Guerra Mundial estivesse a terminar para me dar ao mundo. Não sei se isso correspondeu a algum instinto de protecção de me resguardar. Nunca falámos o suficiente para lhe fazer essa pergunta que gostava de ter feito, não pela resposta, mas apenas para lhe oferecer uma provocação de ternura, rindo-me a espreitar-lhe os olhos e vê-los rir sem as névoas de amargura que, assim, são a imagem que dela mais guardo. Não deve ter sido. Certo que não foi. Deve ter sido só uma razão de circunstância por ignorância sobre a contracepção. Nem sei se ela soube destas guerras vergada em amanhos no Alto Douro que, se hoje está longe, na sua altura estavam no “outro mundo” da canga salazarista. O certo é que os meus dez irmãos vieram antes de mim, portanto nenhum se gaba nem gabou do mesmo, e a guerra estava-me guardada para bem a conhecer na Guiné.

Mas a Guerra Civil de Espanha (1936-1939) sempre foi tema que me fascinou. Por várias razões. Algumas delas, dão-me particular acicate. Primeiro, gosto de Espanha sem nunca conseguir entender os espanhóis, convindo-me talvez que a chave que me desculpa deste mistério atraente estará na tal guerra em que se andaram a matar uns aos outros. Sobre a qual, quanto mais se sabe, mais se descobre o muito que há para saber. Depois, sempre esperei a hora, em que aquele povo se equilibrasse face à sua memória e às suas vítimas. Porque, os vencedores, os fascistas, tiveram quase quarenta anos para tratarem das suas feridas, transformarem a Espanha segundo a sua cartilha e sem nunca perdoarem (muito menos reconciliarem) com os vencidos. Por último, nunca entendi que a reposição da democracia em Espanha tivesse o preço alto do “esquecimento”, a transformação da guerra num tabu, com os seus mortos por desenterrar e dando-lhes sepultura, sem que os velhos vencidos que ainda se arrastam pelos quatro cantos de Espanha, bem como os seus descendentes, tenham pleno direito a recuperarem a honra e o orgulho por terem sido derrotados a defenderem a legalidade democrática contra uma facção golpista. Voltou a democracia a Espanha, com o preço de terem a tutela de um Rei (por aqui, vá lá, não é?), mas o “esquecimento” penaliza os que defenderam a democracia espanhola e favorece os impiedosos vitoriosos de uma guerra só possível com a ajuda dos mercenários mouros, dos fascistas italianos e portugueses e dos nazis alemães.

Nos últimos tempos, parece que as coisas tendem a equilibrar-se. Há uma série de estímulos e apoios de recuperação da memória e iniciativas para dar dignidade de registo e de sepultura aos vencidos caídos. Sobretudo, por iniciativa de alguns familiares, jornalistas e historiadores. Mas um grande mal está feito – a perda de memória de gerações de espanhóis jovens que vivem sem direito à culturalização do seu passado. E que assim são tentados ao pragmatismo de verem o mundo como se ele fosse uma fatia de salame, olhando em frente sem o resguardo de um passado, correndo o risco da tentação simétrica de viverem o hoje sem prevenirem o amanhã.

(na foto, Franco na guerra, comandando os fascistas na Batalha do Ebro)
publicado por João Tunes às 16:41
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ESPANHA – GUERRA CIVIL (3)

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A BATALHA DO EBRO

A Batalha do Ebro foi a mais trágica, mais mortífera e decisiva de todas as grandes batalhas travadas durante a Guerra Civil de Espanha. Foi lá que a guerra se decidiu.

Em meados de 1938 (a guerra iniciara-se em Julho de 1936), os fascistas espanhóis, depois de derrotarem os governamentais na frente de Aragão, ocupando Lleida, cortaram ainda a ligação da Catalunha ao Levante ao conquistarem Castellón. Como território da República, restavam a Catalunha (a leste de Lleida) e a zona Madrid-Valencia, separadas entre si. Franco já decidira que Madrid ficava para o fim (seria a cereja em cima do bolo, depois das tentativas goradas de a tomar), tratava agora de dar os golpes finais, primeiro ocupando Valência e depois o que faltava da Catalunha. Madrid cairia de podre. Para mais, tinha superioridade em homens, material, apoio internacional, vontade ofensiva.

O governo espanhol (então sediado em Barcelona, depois de já ter saltado de Madrid para Valência), conseguiu essa coisa espantosa que foi dar um golpe contra-ofensivo poderoso num projecto aventureiro de tudo-ou-nada, homérico de esforço, pleno de vigor do desespero, atacando Franco, atravessando o Ebro e combatendo os franquistas na margem direita do rio (zona montanhosa), tentando ter a iniciativa e aliviando as pressões e os avanços sobre Valência e Barcelona. Tudo foi mobilizado neste combate em que se incorporaram os jovens a partir dos dezassete anos (constituintes do chamado “Batalhão do Biberão”).

Usando a surpresa, os republicanos passaram o Ebro para Sul em Junho de 1938. Deram-se na margem direita os mais encarniçados combates de toda a guerra e ali se consumiram milhões de toneladas de metralha, disputando-se terreno montanhoso palmo a palmo. Os republicanos, primeiro vencedores e depois vencidos (numa luta desigual em meios e com o rio na rectaguarda) voltaram a atravessar o rio em retirada em Novembro desse ano. Na pequena faixa de terreno disputado, ficaram 100.000 mortos de ambos os bandos. E ficou a derrota sem apelo da República. Em Fevereiro seguinte, Franco ocupava a Catalunha para em Março fazer a entrada triunfal em Madrid.

Os fascistas constituiram, com prisioneiros republicanos, um Batalhão Disciplinar que recolheu todos os mortos franquistas no campo de batalha para lhes dar sepultura condigna e honra de heróis. Ainda hoje, por montes e vales da margem direita do Ebro se tropeça em ossos, caveiras e vestígios dos corpos dos republicanos ali caídos, para além do muito material bélico ainda por lá espalhado. Passados sessenta e seis anos, aqueles combatentes, muitos ceifados com dezassete anos por defenderem uma democracia, ainda não têm direito ao seu nome numa sepultura.

(na foto, uma imagem da Batalha do Ebro)
publicado por João Tunes às 16:37
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ESPANHA – GUERRA CIVIL (4)

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OS SINAIS DE UMA GUERRA CIVIL

Um dos aspectos que mais me impressionou na leitura de “La última Batalla, Derrota de la República en el Ebro” ( por Kim Amor I Sagués, Edições Oberon), prende-se com a reconstituição da vida dos sobreviventes civis das vilas e aldeias onde se desenrolaram os violentos combates da batalha do Ebro em 1938 (abrangendo meia dúzia de localidades na margem direita e em que a mais importante era e é Gandesa, quase em linha recta a sul de Lleida e não muito longe desta cidade catalã).

A zona era habitada por gente vivendo da agricultura. Tratando-se de uma zona montanhosa e pedregosa, os cultivos eram à base de vinha, oliveira, amendoeira e avelaneira. Nos vales junto ao rio, cultivava-se milho e produtos hortícolas. Mal dava para a subsistência, mas ia-se vivendo. Com a violência dos combates, a população (algumas centenas de velhos, inválidos, mulheres e crianças pequenas) que não estava em condições de pegar em armas, e que não fugiu para a margem esquerda, refugiou-se em buracos, cavernas, túneis e casas de gado dispersas, sobrevivendo, os que sobreviveram, a alimentar-se de ratos, raízes e alimentos silvestres. Aí estiveram encafuados os quatro meses que durou a refrega, enquanto as suas casas eram reduzidas a ruínas e os campos dizimados pela metralha saída da artilharia e dos aviões. No final, praticamente não sobrou uma casa e uma árvore em pé. E os campos ficaram inaptos para a agricultura, ardidos, pisados por pés, tanques e peças de artilharia, retalhados por trincheiras e repletos de metralha, munições não deflagradas e cadáveres, muitos cadáveres. Praticamente não sobrou um palmo de terra para cavar e plantar. Sem casas e sem meios de subsistência, aquelas centenas de desgraçados tiveram de recomeçar as suas vidas abaixo de zero.

Como sobreviver no pós-guerra? Dadas as carências industriais da Espanha destruída, a sucata era um bem procurado e valorizado como matéria-prima para a recomposição da indústria siderúrgica. Então, aqueles agricultores passaram uns bons dez anos reconvertidos em recolhedores de sucata. Os homens (muitos deles, guerreiros sobreviventes, regressados com o fim da guerra) saiam para os campos, cavavam, cavavam e iam amontoando projécteis, estilhaços e restos de blindados, veículos e armamento, enquanto iam empurrando os cadáveres para o lado. Depois, vinham as mulheres e as crianças com cestos a recolher a “colheita” que era depositada em armazéns e depois vendida a sucateiros que a recolhiam mediante pagamentos mais ou menos simbólicos mas que assegurava a sobrevivência e a reconstituição dos seus suportes gregários. Muitos dos recolhedores de sucata (sobretudo crianças) foram despedaçados por projécteis que não tinham deflagrado durante a batalha. Foi essa a base de reconstituição das vidas daquelas gentes, até que a agricultura pudesse retomar as suas raízes. “Ir a lo hierro” chamavam eles à sua nova actividade. Uma actividade vivendo dos despojos da morte de cem mil espanhóis na Batalha do Ebro. Porque a morte continuou muito para além do fim da guerra. Aliás, a morte da Guerra Civil de Espanha, continua ainda hoje através da morte da memória, assassinada em cada dia mais de “esquecimento”.

(na foto, uma imagem da Batalha do Ebro)
publicado por João Tunes às 16:36
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ESPANHA – GUERRA CIVIL (5)

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SOBRE O SEMINARISTA DE SANTA COMBA DÃO

O Raimundo Narciso colocou o seguinte e oportuno comentário:

“A 2 da RTP deu há dois dias um largo documentário sobre Franco. E, claro, tratou-se da guerra civil, do mais de 1 milhão de mortos, na guerra e nos 20 anos seguintes de terror franquista. O documentário entrevistava um grande número de historiadores que sublinharam que a vitória de Franco, apesar de todo o apoio de Hitler Mussolini e a aquiescência britânica e não só, não teria sido possível sem o apoio decisivo, do Portugal de Salazar. Sem o seminarista de Santa Comba Dão talvez não tivesse havido franquismo.”

Sobre o desfecho de uma guerra é sempre difícil determinar um factor que tenha sido o decisivo para o seu desfecho. Ou seja, aquele que foi determinante para a vitória do vencedor. Porque, ao seu lado, teríamos de encontrar o que foi decisivo para a derrota do vencido. O que acontece, e a Guerra Civil de Espanha não foi excepção, é que há um conjunto de factores que permitiram o resultado e temos de os encontrar de um lado e do outro.

Concordo, em absoluto, que o apoio do regime de Salazar a Franco foi um factor da máxima importância para que o fascismo se instalasse em Espanha e, sobretudo, para que sobrevivesse até à morte do ditador galego. Da mesma forma, a consolidação do regime franquista, constituiu um factor da maior importância para proteger, resguardando-o, o regime do ditador de Santa Comba.

Embora importante durante a guerra (sobretudo como santuário de retaguarda e possibilitando a mancha de penetração franquista ao longo das províncias fronteiriças), não julgo que o apoio do fascismo português tenha sido mais importante que outros apoios (e sem os quais, a vitória de Franco também não teria sido possível) – desde logo, o apoio em materiais bélicos e em homens, da parte de Hitler e de Mussolini; o apoio empenhado do Vaticano, abençoando o levantamento e progressão de Franco como uma “cruzada” na defesa da Igreja Católica; a mobilização de tropas marroquinas (os “mouros”) que deram capacidade de choque e de impiedade guerreira aos fascistas; a “quinta coluna” instalada nas zonas republicanas; por último, o pragmatismo cobarde das democracias (sobretudo da França e de Inglaterra) que, temerosas de enfrentar Hitler, preferiram “lavar as mãos” em vez de apoiarem a legalidade democrática em Espanha (se em vez de se ajoelharem perante Hitler em Munique, o tivessem enfrentado, o desfecho em Espanha seria outro e a Segunda Guerra não seria travada com os custos medonhos que teve). Num quadro deste, julgo haver algum exagero em agigantar o impacto do contributo de Salazar para o desfecho da guerra. Ele foi importante mas não bastaria face à importância maior dos restantes.

Quanto aos factores que explicam a derrota da legalidade republicana e democrática, também eles não faltaram em variedade – dificuldades em tornar coesa a multiplicidade de ideologias, interesses e fracções que constituíam a diversidade plural das forças pró-governamentais (desde logo entre as várias fracções do PSOE); as tibiezas e insuficiências do apoio soviético (apesar de ter sido o grande contributo para a capacidade de combate); a forma como se deixou estabelecer o domínio policial pelos agentes soviéticos; a retirada incondicional (sem contrapartidas do outro lado) das Brigadas Internacionais quando a Batalha do Ebro ainda não tinha terminado.

Como em tudo, cada parte beneficiou dos seus factores favoráveis e das fraquezas do bando inimigo. No meio deste emaranhado - e a guerra civil foi um fenómeno da mais alta complexidade – o apoio salazarista a Franco foi importante mas um factor entre muitos. De tal modo que penso que mesmo que tivesse havido neutralidade do regime português, Franco tinha condições para ganhar a guerra.

Já quanto ao após-guerra em Espanha, aí estou totalmente de acordo. O regime de Salazar, pela sua proximidade fronteiriça e pela osmose ideológica entre os dois regimes, foi determinante para conservar e consolidar o regime franquista e permitir que ele se prolongasse até 1975. Desde logo, na influência da manha salazarista para evitar que Franco, como foi o seu impulso inicial, se metesse deliberadamente ao lado incondicional de Hitler durante a Segunda Guerra Mundial. Depois, na consolidação de identificação entre os fascismos ibéricos, dando-lhes os factores distintivos e “moderados” (em que o clericalismo teve um papel importante como disfarce aos modelos de “práticas fascistas”) de forma a escaparem ao “julgamento de 1945” e ficarem amarrados ao destino dos fascismos derrotados. Também, e talvez mais importante, a “saída airosa” de deslizamento dos regimes ibéricos ao saberem aproveitar, com a vinda da guerra fria, a bóia de salvação de transitarem para alianças políticas, económicas e militares com a Inglaterra e os Estados Unidos.

(na foto, Salazar e Franco)
publicado por João Tunes às 16:34
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ESPANHA – GUERRA CIVIL (6)

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A LEGITIMIDADE DE UM REI

Com a transição democrática de 1975, a Espanha virou a página do franquismo e retomou o seu lugar entre as democracias que havia perdido com a vitória de Franco em 1939. Um ano depois de Portugal e com influência da nossa revolução dos cravos. Mais uma vez, as duas nações ibéricas, que se abraçaram na instalação e prolongamento dos seus fascismos, agora convergiram na recuperação das democracias (uma pela revolução, a outra por medo da revolução).

Mas se o franquismo desapareceu como sistema totalitário de domínio da sociedade espanhola, ele não desapareceu de dentro do sistema e conseguiu furtar-se ao julgamento histórico e político da ditadura e da sua feroz repressão. O vergonhoso compromisso do “esquecimento” que as forças democráticas espanholas ofereceram aos franquistas, permitiu isso. E muito do franquismo permaneceu e permanece. O PP alberga tudo o que sobrou (e foi muito) do franquismo político. Fraga, antigo ministro de Franco, é, há muitos anos, o mais alto dignatário do poder autónomo galego. O actual ministro da Defesa do governo Zapatero foi dirigente da Juventude da Falange. E Franco deixou como herança não contestada uma monarquia e um Rei paridos pelo franquismo. E Juan Carlos, independentemente da apreciação que se possa fazer sobre o seu reinado, é a marca mais forte de como Franco continua a existir politicamente em Espanha e na parte mais cimeira e mais visível da simbologia e do ritual do Estado.

Espanha tem monarquia sem que a maioria dos espanhóis, longe disso, seja monárquica. Embora respeitem e não contestem este Rei. O que não belisca o absurdo que a monarquia espanhola é, como regime imposto por um ditador desaparecido e que perdura, não por vontade sufragada, mas apenas por legitimidade conferida pela inércia. Porque, de facto, Juan Carlos, mais que rei de Espanha, é rei pelo “esquecimento”.

Do ponto de vista do combate na Guerra Civil, do lado de Franco, houve de facto uma minoria monárquica que se empenhou na vitória do fascismo, combatendo com afinco e com martírio. Mas, curiosamente, a facção monárquica franquista não desembocava neste Rei mas sim numa linha dinástica concorrente – a carlista. E a facção política dominante nas hostes franquistas, não era sequer monárquica, muito longe disso, era a fascista e juan-antoniana Falange.

Depois da vergonhosa governação e abdicação de Afonso XIII, a Espanha vacinou-se irreversivelmente da apetência monárquica. Restaram duas forças nostálgicas presas à rivalidade quanto à sucessão no trono. Os Requetés (da Comunión Tradicionalista), particularmente fortes em Navarra, com algumas influências (mas muito fracas) na Catalunha, no País Basco e na Andaluzia, eram carlistas. Isto é, defendiam a legitimidade ao trono de Alfonso Carlos (irmão de Carlos VII) e com regência atribuída a Javier de Borbón-Parma (exilado em Viena de Áustria). A Renovación Española, de fraquíssima expressão e confinada a pequeníssimas fatias aristocráticas, apoiava a linha vinda directamente de Alfonso XIII, expressa na candidatura ao trono do Infante Juan (exilado em Cascais e pai do actual Rei).

Os Requetés constituíram, antes do levantamento de Franco, uma pequena mas bem treinada milícia militarizada que foi apoiada e financiada por Mussolini. Quando a guerra rebentou, os Requetés ofereceram a Franco os seus 7.000 combatentes fanatizados e que constituíram uma das importantes forças iniciais de combate. Chegaram a atingir os 12.000 efectivos durante a guerra e contaram-se 4.200 mortos de requetés no final da guerra. Entretanto, os alfonsistas rivais nunca tiveram expressão autónoma como força de combate. Eram señoritos, guerreiros nem tanto.

Franco queria um poder pessoal e um partido pessoal. Necessitava da Falange e dos Requetés, mas não queria as suas ideologias e os seus programas. Ele preferia encontrar inspiração ideológica na Igreja Católica, preferindo padres e freiras a falangistas e a requetés. Resolveu esse dilema à sua maneira: marginalizou os principais dirigentes fascistas e monárquicos (mantendo os pretendentes no exílio e para aí mandando os seus principais dirigentes com vocação mais autónoma); fundiu a Falange com os Requetés na FET (nova Falange); transformou o catolicismo em ideologia do Estado; retirou autonomia às milícias por via da sua militarização e integração na cadeia de comando militar de que ele era o Generalíssimo.

Franco nunca permitiu veleidades aos monárquicos, sobretudo aos Requetés que esperavam dividendos do seu contributo para a vitória (o outro ramo concorrente não contava). Mas, com o avançar da idade, Franco decidiu que, ao franquismo com Franco, o melhor era suceder-lhe um franquismo com Rei. E fabricou um Rei, educado por ele e feito à sua medida. Escolheu o ramo monárquico mais fraco, afastou o pretendente deste ramo e designou o jovem Juan Carlos como futuro Rei. Entranhados no regime, aboletados à mesa do franquismo, os Requetés carlistas não piaram e passaram de armas e bagagens para o bando rival, transformando-se, num ápice, em alfonsistas, seguindo a decisão de Franco. É esta a fonte de legitimidade do Rei Juan Carlos. É esta a marca mais viva da continuação da vitória de Franco, contra a legalidade democrática e republicana, conseguida em 1939, com o apoio de Salazar, Hitler, Mussolini e os Mouros marroquinos, em cima dos cadáveres de mais de um milhão de espanhóis.

(na foto, Juan Carlos com o seu mentor, ditador Franco, inicia-se na recepção a outros ditadores, no caso, o latino-americano Strossner)
publicado por João Tunes às 16:33
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ESPANHA – GUERRA CIVIL (7)

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AS CRISPAÇÕES

Nenhum conflito, até hoje, envolveu tanta paixão em todo o mundo a tomar partido por um dos lados numa contenda civil como a guerra civil de Espanha. As ideologias estavam no seu esplendor e na máxima crispação, cabeça e coração em sintonia. Os fascismos europeus estavam pujantes e na alvorada das grandes ambições, a atracão soviética estava no zénite. Tudo parecia indicar que o mundo se iria transformar, do pé para a mão, em comunista ou fascista, sem meias distâncias. Lógico que, para as esperanças e os ressentimentos, estivesse a chegar a hora do tudo ou nada. Lógico também que largas manchas de pessoas se sentissem apertadas entre duas tenazes a impor-lhes um futuro de extremos e reagissem com um medo a roçar o pânico ou, já para além dele, na zona do desespero.

Ver os espanhóis dispostos a matarem-se uns aos outros, até ao último espanhol, por fortes motivações ideológicas, ofereceu a este mundo marcado pelo ódio e pelo medo, sentimentos umas vezes separados mas também misturados, uma irresistível atracção. Sobretudo numa fase em que a arte da propaganda, longe ainda da sua fase de saturação e difícil de desmontar nos seus quês demagógicos, atingia a sua máxima criatividade e eficácia.

De um lado, as atracções fortíssimas por um fascismo de primeira geração, pela tradição, pela propriedade privada, pelo atavismo monárquico e pelo catolicismo de paróquia medieva. Na outra margem, os ideais republicanos e liberais, mais a maçonaria, ambos em mistura promíscua com o comunismo bolchevique e o anarquismo, a ambição de liquidar de uma penada as injustiças sociais, ajustando contas com padres, señoritos e burgueses.

A brutalidade do confronto espanhol paralisou de medo as democracias que, segundo as regras, deviam proteger a legalidade espanhola legitimada pelo voto e repudiar os golpistas mobilizados pelas espadas de Sanjurjo, Cabanellas, Franco, Mola e apaniguados. Mas, temerosas de Hitler, sabendo que se interviessem em Espanha teriam de o enfrentar, preferiram lavar as mãos. O matadouro de Espanha ficou, assim, entregue aos extremos que ali viram uma oportunidade para dar uns tiros nos seus demónios. Extremos estes que sabiam que se teriam de defrontar, mais tarde, numa arena muito maior que Espanha, provavelmente do tamanho do mundo. Assim, todo o terreno ganho em Espanha, seria um sinal de força para a luta final. Espanha foi como que um cavar de trincheiras, construídas com cadáveres espanhóis (mais baratos, portanto). Do lado da República e da Democracia, ficaram Estaline, os companheiros de jornada e os idealistas anti-fascistas. Do lado dos golpistas, alinharam-se Hitler, Mussolini e Salazar, com a bênção de tudo que gostava de se acolher debaixo de sotainas, comer toucinho na gordura da grande burguesia ou penando a orfandade de um Chefe autoritário, quanto pior melhor para que o mundo entrasse nos eixos da velha ordem.

Sabe-se quem ganhou. Melhor, ganharam os dois extremos que assaram as castanhas em Espanha. Ganhou Franco. Ganharam as ditaduras fascistas e fascizantes. Ganhou o Vaticano que viu Espanha transformada numa catedral a cheirar a pólvora. Ganhou Estaline que, embora derrotado em Espanha (mas Espanha tinha deixado de contar), pouco tempo depois estava a fazer um pacto de aliança com Hitler, a entregar comunistas alemães à Gestapo e a repartir a Polónia com os nazis.

E quem perdeu? Perderam os espanhóis. Porque mais de um milhão deles tinha transformado a cara numa caveira. Porque, para os que escaparam vivos, o esperavam quarenta anos de franquismo. Porque as sotainas voltaram a obrigá-los a ajoelhar e desfiar o terço. Porque ainda hoje não recuperaram o direito à memória colectiva pois que a democracia, quando voltou, trouxe a anestesia combinada entre os franquistas e os novos políticos democratas, inibidos no medo do passado.

(na foto, combatentes fazem o “juramento da morte”)
publicado por João Tunes às 16:31
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ESPANHA – GUERRA CIVIL (8)

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MERCENÁRIOS E NAZI-FASCISTAS AO LADO DE FRANCO

Muito relevo se deu, assim continuando, à participação das Brigadas Internacionais no combate ao lado dos republicanos na Guerra Civil de Espanha. Para uns, essa é uma prova do envolvimento de Estaline e do Komintern no conflito, justificando assim que o lado governamental era apenas rojo. Para outros, as Brigadas Internacionais são uma página épica de internacionalismo romântico, antifascista e unitário que se explora até à exaustão. Pelo lado destes últimos, não faltam as imagens, as canções, os discursos (pois, a despedida da Pasionária) e os poemas (pois, os versos de Alberti). O tema merece regresso com mais vagar e tratamento próprio.

O que muitas vezes se oculta, ou simplesmente não se diz, é a que a participação de estrangeiros (e não falo de material bélico, falo de combatentes) ao lado dos fascistas espanhóis foi anterior à chegada dos internacionais e, durante o conflito, muitíssimo superior em número de homens.

Desde logo, o pronunciamento começou com uma invasão do território espanhol por tropas estrangeiras – o Exército de África, constituído sobretudo por soldados marroquinos, com Franco no comando. E ao longo da guerra, em todas os embates decisivos, as tropas marroquinas foram sempre decisivas em número e em poder de choque no combate. Ao todo, terão combatido em Espanha, 62.000 marroquinos (com 35.000 baixas, entre as quais, 8.000 mortos). Na sua maioria, os combatentes marroquinos foram recrutados nas colónias espanholas mas uma parte substancial também veio do protectorado francês. A mobilização dos marroquinos para combaterem em Espanha teve como motivação primeira os soldos recebidos e o direito a saque que lhes foi outorgado. Em termos ideológicos e de propaganda, a mobilização dos soldados marroquinos constituiu uma das raras vezes em que o Islão e o Catolicismo foram invocados para uma defesa em aliança da Fé contra o ateísmo rojo (iria repetir-se depois, no Afeganistão, para expulsar os invasores soviéticos). De uma maneira geral, sendo guerreiros destemidos, os moros notabilizaram-se porque foram decisivos na vitória de Franco, pela crueldade para com os prisioneiros, na forma como saquearam e violaram mulheres nas terras ocupadas aos republicados. Provenientes de África, embora em número reduzido, combateram ainda por Franco, soldados do Sahara Espanhol e da Guiné Espanhola.

Em maior número que o dos marroquinos, temos os italianos que contribuíram com um enorme contingente militar, organizado no célebre CTV (Corpo de Truppe Voluntarie) e numa Brigada Mixta (hispano-italiana) e que entraram em combate logo no início de 1937. Ao todo, terão combatido em Espanha, enviados por Mussolini, 73.000 italianos na infantaria (além dos que lutaram na aviação e na marinha), tendo sofrido 3.800 mortos e 12.000 feridos.

Igualmente decisiva no apoio à Espanha Fascista, foi a prestada pela Alemanha nazi. Expressa, em força de combate, na célebre Legião Condor constituída por vários milhares de alemães, actuando sobretudo na aviação, marinha, artilharia e carros de combate. Deste contingente, morreram em Espanha 300 alemães ao serviço do nazi-fascismo.

Em menor número, outros estrangeiros participaram nos combates ao lado de Franco, em que se destacam os da Legião Estrangeira, portugueses (várias centenas, talvez 800 – os Viriatos), irlandeses, franceses e russos brancos.

Para além destes números impressionantes, estes combatentes estrangeiros apresentavam uma particularidade, comparativamente aos internacionais do lado republicano: italianos, marroquinos e alemães chegavam a Espanha completamente equipados com material bélico autosuficiente e de melhor qualidade e mais modernos que o usado pela tropa espanhola, em unidades treinadas e homogéneas, enquanto os internacionais eram apenas homens para combater, vindos de várias proveniências, sem espírito de corpo à chegada e com dificuldades de comunicação entre si.

Se acrescentarmos a ajuda decisiva que a Alemanha nazi e a Itália fascista, forneceram a Franco em meios militares (aviação, carros de combate, artilharia, navios de guerra e submarinos, munições, meios tecnológicos de comunicações, etc), facilmente se deduz que o corpo de combate de Franco, incorporando uma boa parte de espanhóis, foi uma guerra ganha sobretudo graças ao apoio estrangeiro.

(na imagem, capa de revista histórica dedicada à intervenção dos CTV, corpo dos fascistas italianos que combateram em Espanha)
publicado por João Tunes às 16:29
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